Capítulo
12
Patty...
Gente, que diferente!!! Acordo
renovada, sentindo-me a última bolacha recheada, com duas camadas, do pacote...
E não é porque fui muito bem cortejada por alguém, não! Estou sentindo-me assim
porque, pela primeira vez na vida, conversei a noite toda com um homem sem
falar, explicitamente, em sexo.
Tudo bem que, em várias ocasiões da conversa, deixei-me levar por minha imaginação fértil e fantasiei-me em várias posições em seus braços, mas, para minha surpresa, o melhor de tudo foi conhecer uma pessoa mega inteligente e que não foge da raia ao conversar com uma mulher que, para além de carregar bunda, peitos e “precheca”, é um ser pensante.
Tudo bem que, em várias ocasiões da conversa, deixei-me levar por minha imaginação fértil e fantasiei-me em várias posições em seus braços, mas, para minha surpresa, o melhor de tudo foi conhecer uma pessoa mega inteligente e que não foge da raia ao conversar com uma mulher que, para além de carregar bunda, peitos e “precheca”, é um ser pensante.
Enquanto tomo banho, fico
lembrando o quanto foi difícil encerrar nossa conversa, ontem à noite. Por mim,
teria passado a noite toda conversando com ele.
− Como será que ele é? – sonhar
não paga nada e, animada, começo a compor uma figura para ele, em minha cabeça,
enquanto ensaboo meus cabelos... hum... pelo leãozinho de seu perfil, vou
colocar-lhe olhos azuis... uau!!! Aí, a minha fértil e ligeira imaginação já monta
uma cena comigo sendo encarada por olhos da cor de um céu de verão, num dia sem
nuvens, na penumbra de um quarto, com o dono deles, tal como um gato noturno,
lambendo todo o meu corpo... nossa... estremeço, por dentro! Foco, Patrícia...
vamos voltar à silhueta do D. Leon... Seu cabelos... bom, os cabelos prefiro-os
desgrenhados. Já rindo, faço um moicano em meu próprio cabelo ensaboado...
Credo!!! Vou confessar, não é por preconceito, mas, por puro nojo, que não
suporto homens metrossexuais, daqueles que ficam horas, na frente do espelho,
tentando acertar o penteado com o gel! Pode reparar que, na hora de uma boa
pegada, não dá nem para passar as mãos nos cabelos deles, pois, caso eles não
deem um berro alegando que vai desmanchar os topetes, nós mulheres é que
ficamos morrendo de nojo daquela gosma em nossas mãos!! Aff... não há empata
foda mais eficiente do que isso! Por isso é que, para mim, o homem tem que ser
natural, cabelos sedosos, daquele tipo que meus dedos possam deslizar pelos
fios, acariciando-os, em momentos de ternura, bagunçando-os, em momentos de
provocação, puxando-os, em momentos de extrema excitação e, finalmente, até
mesmo arrancando-os, em momentos de raiva... não que eu já feito este último,
até hoje, é claro!
Bom, vamos ao corpo... hum...
digamos que essa é a melhor parte, um corpo todo
trabalhado em músculos, lindo de morrer e... ah, não... Isso, não... Sr. G, seu atrevido! Foi você quem mandou
essas mensagens à minha cabeça, não foi? Fique sabendo você que um homem
parecido com aquele deus do sexo, que tem aquela “pistola” da galáxia, que é o
Carlos Tavares Junior, jamais ficaria, num sábado à noite, conversando com uma
mulher, pela internet! Aliás, esse cidadão já deve até estar casado, pois
homens ricos e importantes como ele têm que ter uma madame como esposa, a fim
de produzir uma prole, com “matriz pura”, para “perpetuar a espécie”... esquece
ele!
O Dom Leon está mais para um homem parecido
com o Leôncio[1],
do Pica Pau... Putz... este conflito interno ainda vai deixar-me louca! O meu
lado emoção torce para ele ser um deus grego, mas, a minha razão diz que ele está
mais para o personagem do desenho animado mesmo... Chega a um ponto em que não sei mais nem dizer
o que penso. Não há mais nada para ser pensado, aliás... O que quero é aproveitar
este momento apenas para conhecer um amigo virtual. Mas, parece, que um certo
Sr. G não quer entender isso e, em comum acordo com minha Patty interior
safadinha, que parece estar bem carente, apresentam argumentos para eu
fantasiar um homem lindo, querendo convencer-me de que um homem assim pode ser
mais do que um corpinho lindo e gostoso! Os dois, juntos, pensam que são
invencíveis e fazem questão de criar expectativas em mim de que algo bom pode
vir dessa amizade.
Mas, para despeito de ambos,
muito mais forte do que eles, minha verve bem humorada, que gosta de caçoar até
mesmo de meus próprios conflitos, lembra-se de um poema que me chamou a
atenção, num dia em que navegava, sem rumo, pela net, que ficou em minha
memória porque me fez rir demais por causa dessa questão de ser feio:
Ser feio tem inúmeras vantagens e benefícios, pode perguntar ao Woody Allen:
- O feio é inesquecível, você olha uma vez e o choque é tão grande que guarda para sempre.
- Amor à primeira vista é para os bonitos. Para os feios, é amor ao primeiro trauma.
- Mais fácil se apaixonar pelo feio. Você não entende como ele nasceu assim, pede um prazo maior. O feio é um enigma, uma charada. Mulher abandona o homem quando entende rápido.
- O feio não é preguiçoso no relacionamento, não vai perder tempo ajeitando o cabelo e se olhando no espelho.
- O feio traz as melhores conversas. Ele depende da lábia para garantir a distração da mulher.
- O feio não envelhece, só melhora com o tempo. Diferente do bonito, que ficará um dia feio.
- Não, o feio não melhora com o tempo, você é que se acostumou com ele. Um feio conhecido torna-se simpático. Um feio desconhecido é apenas feio.
- Todo feio é engraçado, aprendeu a rir de si mesmo. Não conheço feio mal-humorado.
- O feio é educado, pois sofreu muito com a falta de educação dos outros, - O feio não reclama, está sempre satisfeito. Quem reclama é o bonito, insaciável com os elogios.
- O feio gosta muito de seu nome, foi obrigado a suportar tudo o que é apelido, - O feio é uma apoteose na cama, Sapucaí dos lençóis. A excitação feminina cresce com o medo.
- A mulher nunca se entedia com o feio, leva susto cada manhã.
- O feio é prático, já se acorda pronto, não precisa se arrumar.
- O feio apresenta uma maior resistência emocional, é capaz de ser um grande parceiro nas crises e usar a criatividade nos piores momentos.
- Ninguém duvida da masculinidade do homem feio. Já o homem bonito demais parece uma mulher.[2]
Após gargalhar muito ao lembrar
e imaginar o “Leôncio” declamando esse poema, volto às minhas considerações
anteriores.
Minha razão, junto com a minha
sanidade mental, dizem-me que essa amizade não vai, de fato, levar-me a lugar
algum... Apenas me farão perder tempo, ao ficar conversando com um desocupado
virtual. Elas afirmam, ainda, que essa ilusão de contos de fadas só alimenta
pensamentos irreais de futuro.
Esses dois conflitos internos
fazem-me imaginar os dois anjinhos: do mal e do bem, em cada um de meus ombros.
O do mal, à esquerda, com a carinha da Agnello. O do bem, à direita, com a
carinha da Babby. Uma totalmente razão e a outra só coração. Fecho o registro
do chuveiro, decidida a dar tempo ao tempo. E, lembrando da Babby, saio do
chuveiro, feliz, porque vou passar o dia com os pequenos.
De qualquer maneira, tenho que
admitir que adoro um debate inteligente, em que posso manter um diálogo
espirituoso e irreverente, sem ter que ficar monitorando o que falo e com o cuidado
de preservar quem sou ou minha reputação profissional, o que é difícil
acontecer para mim, na vida real, pois, mesmo não sendo uma “Angelina Jolie” da
vida, homens olham para mim e já pensam em sexo e não em bater papinho
intelectual...
Deixando tais elucubrações de
lado, acabo de me arrumar e vou para o meu dia feliz. Chegando à casa dos
Ladeia, vejo que a festa já está formada.
− Dinda, toxe pedente – minha pequena princesa Bela diz, toda feliz, quase
que arrancando, de minhas mãos, o pacote que lhe estendo, e rasgando o papel, com
uma “delicadeza” sem igual, junto com a mãe, que a segura no colo. Na verdade,
eu sou madrinha do Gabriel, mas, como ele sempre me chamou de dinda, ela faz o
mesmo. Aliás... ela adora tudo o que ele faz e é uma loucura para os pais impedirem
que ela imite todas as loucuras dele...
− E o meu reizinho não vai vir
dar um abraço na dinda? Tenho um presente que você vai amar – digo, enquanto
ele caminha até mim.
− Que presente lindo, princesa!
– a Babby comemora junto com a Belinha, enquanto abre o estojo de maquiagem e o
kit de esmalte.
− Mas, será que tem prazo de
validade esse presente? – pergunta o Marco, divertido – Porque a nossa pequena
poderá usar esse presente somente quando estiver na faculdade, não é, Gabriel? Diga
a elas, filho.
− É – ele responde, entretido
com a maleta de ferramentas e o estojo de carimbos.
O casal magia resolve terminar
de fazer o almoço juntos, no clima bem caliente que sempre envolve os dois,
deixando-me com as crianças, no tapete da sala, brincando. Não preciso dizer
que a primeira coisa que faço é a minha pinta na Belinha, mostrando-a a ela, no
espelhinho. Delicio-me com os dois pequenos até que a Bárbara volta com a
papinha dos pequenos. Enquanto sirvo o Gabriel, ela alimenta a pequena que,
como um reloginho, faz a sua própria “papinha” na frauda...
Basta largarmos o Gabriel, por
apenas dois minutos, para a sala transformar-se num caos.
− Minha sereia, vem aqui, na
sala, para ver a nova decoração – do banheiro, ouço o Marco chamando a Babby e,
logo a seguir, falando sério com o Biel.
Entro na sala e fico paralisada,
verificando, com meus próprios olhos, o que o outro presentinho que dei ao Biel
causou à linda decoração de móveis brancos. Não tem um espaço, no sofá de couro
marfim e na mesinha de centro branca, que não esteja carimbada com personagens,
inclusive, até o próprio Biel está completamente coberto pelos mesmos
personagens... Levo minhas mãos à boca, a fim de conter qualquer manifestação
que dali possa sair, porque, sinceramente, não sei se choro ou se rio com a
cena! Bem, claro que a vontade de rir é infinitamente maior, mas... não posso,
posso?
− Biel, a tia vai ajudar você a
limpar tudo isso – tento amenizar a situação – Marco, onde encontro álcool? Isso
deve sair fácil!
O Marco e a Babby são excelentes
pais, sendo que o tempo deles é organizado de maneira a ficar o maior tempo
possível com as crianças. É impressionante e bonito ver o amor que eles dedicam
aos pequenos, porém, a despeito disso, tanto o pai quanto a mãe não dão colher
de chá às crianças, não. Então, assim que peguei o pano e o álcool para limpar
tudo, já que a invenção foi minha de presentear com aquele tipo de coisa, o
Marco chega, com outro paninho, trazendo junto o Biel, para ensiná-lo que o que
ele fez foi errado, − Filho, vamos ajudar a tia
Patty a limpar esta bagunça que você fez – com toda a paciência do mundo, o
Marco pega a mãozinha do pequeno, junto com a dele, e começa a ajudar a remover
as manhas de carimbo.
− Não é preciso, Marco, a tinta
está sendo removida facilmente! Faço isso tudo rapidinho! Podem ir brincar –
digo, morrendo de dó ao ver o pequeno ajudando a limpar a bagunça que fez.
− Imagina, tia Patty, aqui temos
uma regra, né, filhão? – ele faz questão de incluir o Biel − Podemos brincar,
desarrumar e espalhar os brinquedos, mas, quando terminamos, juntamos tudo e
organizamos e, neste caso, a arte não foi muito legal, então, precisamos limpar
para saber que não podemos fazer de novo – a resposta do Marco, junto com a
carinha do Biel, percebendo que não era muito agradável limpar tudo e
compreendendo que havia feito algo errado, deixam-me emocionada. De queixo
caído, tomo consciência de que a cumplicidade, o amor e a educação podem caminhar,
lado a lado, e, de repente, um
sentimento maternal faz-se presente em meus desejos!
Nunca pensei em me casar e ter
filhos, até porque nenhum homem, ainda, despertou em mim o desejo de construir
uma família. Mas, acompanhar essa família formando-se, de forma tão sólida e
linda, no fundo, vem fazendo com que alguns tijolinhos de minha muralha de
proteção comecem a oscilar. Isso não quer dizer que vou sair daqui e olhar para
o primeiro homem que passar pela minha frente e dizer: “É esse! Vou ali colocar
véu e grinalda e casar-me com ele e ter uma penca de filhos”! Na verdade, isso
significa que tenho que começar a refletir a respeito de abrir as portas do meu
coração para sair desta prisão em que o prendi, na qual nem sei em que momento
da minha vida tranquei-o.
Depois do almoço, o Marco vai assistir um
filme com as crianças e tirar uma soneca com elas, enquanto eu e a minha grande
amiga arrumamos a cozinha e, depois, vamos jogar conversa fora, na sala.
− Celular novo, amiga? – ela
pergunta-me, ironicamente, e, nesse momento, percebo que já olhei a tela do
celular, hoje, diversas vezes, em busca de alguma mensagem – Juraria que já
tinha visto você com esse mesmo celular.
− De fato, ele não é novo,
porque pergunta? – faço-me de inocente.
− Pergunto porque vi você, o dia
todo, olhando a tela dele... ou será que está esperando alguma mensagem? – olha-me,
interrogativa.
− Não estou esperando mensagem
alguma – minto até para mim ao dizer isso, de maneira a, pateticamente, me
convencer... − Você não perde tempo mesmo, hein? Nem com todas as tarefas relacionadas
a cuidar das crianças e a fazer o almoço deixa de ficar com esse olhar vesgo, a
todo momento, com um olho no peixe e outro no gato.
− Preocupo-me com você! E faz
tempo que não nos falamos.
− Nós conversamos quase todos os
dias! Ou será que é uma miragem o que vejo no escritório? – brinco com ela.
− Você sabe do que estou falando
– claro que sei, mas, não vou dizer a ela que arrumei um amigo, na internet,
pois o sermão será certo − E não vou
falar sobre suas férias, hoje, porque esse é um assunto profissional. Quero
saber como anda sua vida amorosa.
− Não anda – levanto os ombros.
− Seria novidade se me dissesse
que tem um paquera... Você nunca tem, mas, acho que arrumei um belo paquera para
você – diz, animada – No final de semana passado, fomos assistir uma competição
de vela, em Ilha Bela. As crianças esbaldaram-se! Bem, mas, o interessante, é
que um dos patrocinadores do evento, inclusive, é da empresa daquele seu amigo,
lembra-se?
− Quem? – faço-me de
desentendida, mesmo sabendo que ela sabe que tenho consciência de quem está
falando.
− Não fica animada, pois não é
dele que vou falar... Se bem que ele... – faz uma pausa − deveria estar no
evento, porque tinha bandeira do energético da empresa espalhado do
estacionamento até nas boias – ela levanta a sobrancelha, sorrindo, esperando por
minha reação. Finjo que nem me importo, mesmo sentindo a fisgada do Sr. G e meu
coração começar a bater acelerado, só de ouvir a menção à empresa dele – Bom, o
paquera que quero apresentar-lhe chama-se Luiz Fernando. Ele estava
participando do evento, também. Não falei muito sobre ele com o Marco... Você
sabe como o meu Dr. Delicia é todo possessivo... Bem, o fato é que, no sábado
que vem, terá a final do campeonato e quero levar você junto com a gente. O
Marco combinou com o Luiz Fernando de velejarmos, no domingo, pelo litoral
norte. Vai ser muito legal, amiga! Você tem que vir com a gente.
− Não sei, amiga! – arrepio-me
só de imaginar conhecer mais um amigo do Marco – Esses amigos que você sempre
me apresenta nunca batem comigo... sempre são tão caretas... – se bem que o meu
nível de necessidade de ir à praia anda tão grande que, na boa, até me
fantasiaria de Peppa e venderia algodão doce para sentir o ar de lá! Não que eu
curta ficar estendida, que nem calango, na areia grudenta e pegajosa, mas,
aquele ar gostoso, puro e saudável, sem poluição de São Paulo, é coisa de outro
mundo para mim.
− Patty, diz que vai, por favor
– ela suplica, unindo as mãos.
− Vou pensar, mas, só se me prometer
que não vai forçar nenhuma barra para eu ficar sozinha com esse cara.
− Prometo! − faz cara de inocente. Se não a conhecesse,
até acreditaria... digo que confio nela, mas, na verdade, engano nós duas – Você nem quer saber como ele é? – balanço a
cabeça, em negativa − Aff, amiga, se não tivesse convivido com você, nestes
últimos anos, acharia que você não gosta da fruta! Você sempre é tão
desinteressada!
− Isso é porque você pinta sempre um príncipe
e quando vou ver é um belo de um sapo – falo, jogando a almofada do sofá nela.
Não preciso contar que ela
conseguiu convencer-me, de vez, ao me chantagear dizendo como as crianças adorariam
um final de semana inteiro com a dinda. Isso foi jogo sujo, mas, para arrumar
um namorado para mim, ela não liga de usar golpes baixos. Assim que saio da
casa dela, dirigindo para minha casa, é que a ficha cai e percebo o risco que correrei
ao ir a esse evento.
− Meu Deus! – exclamo, aflita – “Ele” pode estar
nesse evento!!! Afinal de contas, é uma final de campeonato, onde, com certeza,
toda a imprensa, autoridades, patrocinadores e esportistas estarão presentes!
Não acredito que, justo agora, que o Sr. G deu-me trégua e quase está rendendo-se
a outras possibilidades, o nome dele reaparece das cinzas, na minha cabeça.
Mil dúvidas pululam em minha já
transtornada mente... fiquei, por mais de dois anos, transando com um monte de
caras sem rostos, a fim de tentar encontrar, ao menos, um décimo do prazer que
o Carlos Tavares Junior proporcionou-me, em apenas uma noite!!! Dois anos e
nada!!! Por isso é que me arrepio todas as vezes que tenho que conhecer algum
amigo do Marco! Não é que não tenham sido quase todos lindos e atraentes, mas,
na verdade, são mesmo o que se pode chamar de “curva de rio”... que é o lugar onde fica retido tudo que é
jogado ou arrastado pela correnteza, isto é, tudo quanto é porcaria para nas
curvas dos rios! E é por isso que a expressão cabe, direitinho, para cada um
desses caras que conheci. Quando um homem é tudo “demais” de bom e permanece
solteiro, já com certa idade, você tem que desconfiar de que ou algo de seu
passado não é nada, digamos, honroso, ou ele é um porre em se tratando de
convivência... E sempre eram os casos desses amigos que me eram apresentados,
sem contar que alguns eu nem suportei encontrar para mais do que um simples
jantar... nem para ir para a cama serviram...
Já em casa, a ansiedade e a
agonia por saber se o tal Dom Leon deu notícias acabam por ser mais fortes do
que minha vontade de manter as coisas em ritmo light. Pego o notebook e começo
a navegar pela internet, já ficando, de cara, profundamente irritada com dois
fatos curiosos. Primeiro, ao ver uma postagem feita pelo “Dom Exibido”, em que
há mais de 30 curtidas e um monte de mensagens de mulheres insinuando-se para
ele.
Don Leon
Paciência é uma grande virtude, então, não tenho pressa para ter você, pois, quando estiver sob meu domínio, não se lembrará de que existe relógio, horário ou tempo...
Existiremos apenas você, eu e todo o prazer que te farei sentir, fazendo com que você, minha menina, perca-se no tempo e no espaço, porém, ao mesmo tempo, encontre-se em minhas mãos.
Uma ótima tarde!
Ao ver algumas respostas, fico
surpresa com o sentimento que me invade!!
Melissa Peterson:> Boa tarde, Dom Leon... Coloco-me sob seu comando, no momento em que desejar.
Coloca-se, mesmo, sua descarada! Mais baixa do que você, só a calça das piriguetes!
Angel Luanda:> Boa tarde Sr!!! Louca esperando essas mão me marcar.
Ele deveria marcar sua cara, sua infeliz, assim, quem sabe, você aprende, no mínimo, a escrever direito!
Pego-me
respondendo e ironizando um monte das mensagens deixadas em sua postagem...
− O que é isso,
Patrícia? Ciúmes??? – claro que não, respondo para mim mesma. Ah, quer saber,
acho que até pode ser um pouco, sim, mas, é, principalmente, desapontamento ao
ver tanta gente sem noção! Depois de tantos anos de luta para evitar a
violência contra as mulheres, essas garotas ficam dizendo que adorariam levar
tapas, serem espancadas, amarradas, amordaçadas e um monte de “adas” da vida!!!
Veja bem, as conversas com o Dom Leon têm servido, ao menos, para me mostrar
que, longe de ser uma aberração e coisa de gente doente, o BDSM é um estilo de
vida e uma preferência que envolve uma filosofia e alguns critérios que não
visam causar dano e desprazer ao ser humano, mas, atender suas necessidades,
estando estas em acordo com os padrões vigentes ou não, segundo ele vem
explicando-me! Acima de tudo, é uma coisa consensual e com respeito! Está certo
que, para mim, esse negócio de apanhar e gostar é meio difícil de digerir, mas,
se tem quem curte, não sou eu quem vai criticar. Agora, banalizar isso e achar
que é uma coisa muito legal e gostosa só porque está na moda acaba dando
oportunidade para muito malandro aproveitar-se para praticar toda a sorte de
violência contra meninas desavisadas e ingênuas! E, confesso, isso me revolta,
pois já vi muita coisa nesta minha vida...
E, só porque estou
irritada com isso é que abro uma barra de chocolate e troco a ira pelo prazer
de degustar essa coisa gostosa, doce e huuuuum... tão boooa... É, Dona Eva,
feliz era a senhora, para quem o Satanás oferecia apenas uma maçãzinha... hoje
em dia, ele traz apenas coisas explodindo de calorias para nós, pobres mulheres
irritadas...
O segundo
motivo da minha profunda irritação foi o comentário engraçadinho que esse Dom
Descarado fez, numa postagem inocente com a foto do Biel, limpando a mesinha,
todo feliz, junto com o pai.
Dom Leon:> KKKKKKKKKKK, exploração infantil não é muito legal, tia Patty!!!
Desaforado e cara de pau, penso, ao ler a
mensagem... meus dedinhos criam vida, junto com a minha ira.
Patrícia Alencar Rochetty:> DEVE SER BEM PRAZEROSO PARA VOCÊ REPRENDER-ME SEMPRE. ACONTECE QUE NÃO SOU NENHUMA DE SUAS AMIGUINHAS SUBMISSAS, PORTANTO, LIMITE-SE A FAZER ISSO COM QUEM GOSTA.
Visualizado 20:15
Envio a
mensagem, sem refletir no que acabei de escrever. Por que tudo o que se
relaciona a esse Dom Galã faz-me ter ideias de conteúdo sexual? Olha o que
acabei de escrever! Ele vai achar que minha mensagem tem duplo sentido! Após
alguns poucos minutos, sua resposta chega.
Dom Leon:> Boa noite para você, também... Acredite em mim, melhor ser apenas repreensão por mensagem do que pessoalmente, em que te colocaria no meu colo e te daria as palmadas que está merecendo...
Belisca-me, Sr. G! Esse mandão
de meia pataca acabou de me desafiar.
Patrícia Alencar Rochetty:>Você não seria nem louco de fazer isso.
Visualizado 20:18
Claro que ele
seria capaz de fazer isso! Ele é um Dom, sua anta!
Dom Leon:> Aposte que
sim.
Enquanto meu
cérebro processa as informações do que acabei de ler, enviando os sinais
adequados para as devidas partes do meu corpo, perco-me em devaneios de sua mão
descendo até minhas nádegas e o Sr. G, surpreendentemente, fica todo animado e
responde, dando fisgadas de excitação. Já, meu cérebro, rápido, reage e leva
meus dedos, ágeis, a responderem, de modo a não deixar passar tal absurdo em
branco.
Patrícia Alencar Rochetty:> Ainda bem que não vamos conhecer-nos pessoalmente, porque, caso isso acontecesse, no primeiro tapa que você desse no meu bumbum, pode estar certo de que você teria sérias dúvidas quanto a conseguir preservar suas bolas, meninão!! E olha que seria pior do que suplício chinês... pois não iria arrancá-las de uma vez, não... seria com alicatinho de unhas, como seu eu estivesse a tirar cutículas das unhas dos pés e das mãos, acredite-me!! Não há "sedução" que faça com que eu aceite isso de alguém nunca... sem chance!!!
Visualizado 20:21
Só a ideia de o
conhecer apavora-me e, pela primeira vez, desde quando começamos a conversar,
procuro, em seu perfil, a cidade onde mora, porém, uma busca infrutífera, pois
esta informação, compreensivelmente, não está disponível.
Dom Leon:>Está desafiando-me, menina do laço de fita vermelha, no rosto de pelos não tão charmosos?
Sua resposta
rendem boas gargalhadas! Não consigo conter-me ao olhar para a minha imagem de
gorila.
Patrícia Alencar Rochetty:>Kkkkkkkkkkk, isso foi golpe baixo.
Visualizado 20:24
Ela nem é tão
feia assim... Ou é? Fico olhando para a bichinha, pensando se mudo ou não a
foto.
Dom Leon:> Então, troque a imagem deste gorila fêmea feia e coloque a sua foto. Prefiro conversar com a bela menina que sei que você é.
Hum... ele
manda, não pede... ainda não entendeu que, comigo, uma pessoa pode conseguir
praticamente tudo... se souber pedir. Agora, se mandar... bem... conhecerá meu
lado pirracento. E é por isso que decido não mudar.
– Acostume-se,
Dom Mandão! Não gosto de receber ordens, até porque nem imagino como você é, pois
até a cor da retina dos seus olhos você privou-me de saber.
Patrícia Alencar Rochetty:>Bem, considerando-se que você, como um HOMEM DAS CAVERNAS, não sabe dizer por favor e pensa que pode apenas mandar alguém, QUE NÃO CONHECE, fazer algo, a figura do gorila encaixa-se à situação, porque é um animal não civilizado como você, caro troglodita! Então, ela fica.
Visualizado 20:29
Ele é rápido
nas respostas, parecendo até que já as tem prontas, nas pontas dos dedos, já
que, na ponta da língua, ele deve ter outras coisas, penso, lascivamente. Ai,
lá vou eu levando para o lado sexual...
Dom Leon:> Rebelde e deliciosamente inteligente...
Putz, esse tal
de Dom parece estar virando meu vício número um, aquele tipo de cara que você
quer falar o tempo todo... Ah, como queria conhecer esse desconhecido... mas,
ao mesmo tempo, não queria... com medo de que esse clima de camaradagem espirituosa
e maliciosa seja quebrado. E, mesmo que
houvesse oportunidade de nos conhecermos, não acredito que este seria o momento
certo. Na verdade, penso que pode ser que essas conversas virem uma grande e carinhosa
amizade, porque, por mais estranho e contraditório que possa parecer,
considerando-se que ele é um dom, sinto-me protegida quando falo com ele.
Ontem, durante
as horas em que conversamos, percebi que ele é um homem de atitude, isso
significando que tem um jeito tão mandão de ser, que cheguei a ficar com as
bochechas doendo de tanto rir quando se expressava. Mas, ao mesmo tempo, senti como
se borboletas estivessem batendo em revoada em meu estômago, pois não levantei
as costumeiras defesas que minha mente sempre prepara quando um homem aproxima-se
demais, colocando caraminholas na minha cabeça e encontrando mil formas de
mantê-lo à distância. Assim, fiquei livre para dar asas à imaginação e deixá-lo
conhecer quem, de fato sou, o meu interior, e não apenas mais um homem que
aprecia minha aparência externa. Não é que não deseje que ele anseie por mim...
claro que sim!! E muito! Inclusive, ele até mesmo desperta o meu lado mais
perverso, mexendo com conceitos nos quais sempre acreditei como já
estabelecidos para mim e fazendo-me reavaliar alguns que sempre abominei. Conversar
com ele parece tornar tudo muito simples de acontecer...
Ah, só de
pensar em seus abraços apertados em trono de mim, com ele dizendo-me que sou
sua e o que fará comigo... hum... deixa-me sem fôlego! Ele é muito profundo! Embora
eu saiba que tudo isso pode ser uma ilusão alimentada por meus próprios desejos,
sinto que há algo de diferente nele, que parece ser um homem que admira um
sorriso... sabe daqueles homens que,
carinhosamente, ajeitam o cabelo da mulher, elogiam-na, dizendo que está linda,
não porque de fato esteja, mas, porque ela preparou-se para ficar? Saio dos
meus pensamentos e envio uma mensagem desafiadora, lembrando da sua postagem do
dia.
Patrícia Alencar Rochetty:> Pensei que a paciência fosse uma virtude e que você “não tem pressa”, mas, estou vendo que são apenas palavras.
Visualizada 20:33
Como diz o
ditado, Dom Leon, engole um boi e engasga com um mosquito.
Dom Leon:> Kkkkkkkkkkkkk... no que se refere a conquistar uma menina, quando a desejo, não tenho pressa mesmo, mas, se a sua mensagem disser respeito à Monga do seu perfil, tenho pressa em ver sua pinta charmosa, sim...
Monga é a mãe!
Leio, rindo. Engraçado como as coincidências são grandes entre ele e o Carlos, pois os dois foram os únicos homens
que me chamaram de menina até hoje. Outro ponto em comum é que ambos foram
igualmente os únicos que cismaram com a minha pinta! Acho que é por esse motivo
que, sempre que falo com o Dom Leon, imagino ser o Carlos.
Patrícia Alencar Rochetty:>Podemos fazer uma negociação, o que acha? Transformo-me, novamente, na menina da pinta charmosa, e você transforma esse leopardo lindo em sua figura real.
Desta vez, a
resposta não chega e, finalmente, acho que descubro o seu ponto fraco. Ah, quer
saber? Vou ser um pouco mais ousada... cansei de ver o tempo passar e ficar
protegendo-me, com medo de sofrer! Nunca permiti que nenhuma semente relativa a
romances germinasse no meu terreno e sei que é difícil mudar essa postura, do
dia para noite, estando sempre tão condicionada as mesmas atitudes. Além disso,
pode ser que eu venha a me arrepender, mas, se não tentar, nunca vou saber.
Então, chuto o pau do barraca e mando ver.
Patrícia Alencar Rochetty:> Não acredito que deixei você mudo e sem resposta! Ora, vamos lá, Dom Leon! Você pode mais do que apenas manter o silêncio! Mostre a mim o quanto que você é um gato capaz de arranhar e... ronronar ou rugir?.

[2] Disponível em: http://carpinejar.blogspot.com.br/2012/07/a-sorte-de-ser-feio.html. Extraído em 14/12/2.014.

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