sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sr. G - Capítulo 31


Capítulo 31


Patrícia Alencar Rochetty...


Parada em frente da imponente porteira da fazenda, estou encantada com a majestosa beleza, cuja magnitude nunca, mas nunquinha mesmo, na minha vida,
conseguiria manter na memória. Não que pudesse passar despercebida, mas, diante das circunstâncias do dia em que fugi daqui, não tive tempo suficiente para reter nem mesmo uma pequena parte dela.

Sou grata ao GPS e àquela pedrinha ali, no canto da porteira, por achar o local correto da fazenda. Bem... pedrinha? Uma baita pedra, isto sim! Porque só sendo enorme assim para eu ter conseguido notá-la, né, Patrícia? Estava tão hipnotizada pela beleza e embriagada com o cheiro do estranho ao meu lado, naquela noite do “seguuuuura peão”, a ponto de só ter conseguido perceber “grandes coisas”... como esta pedra, por exemplo...Na verdade, naquela ocasião, a única coisa que passava por minha cabeça era “segurar o touro a unha” e conseguir “ficar montada” muito mais que os usuais 8 segundos... 

− Bom dia! – ouço uma voz forte. Isto foi comigo? 

− Pois não, dona! – claro que foi! Não é porque a fazenda fica no meio do mato que não seja provida de tecnologia, como câmeras de segurança, não é mesmo? Enxerguei duas só no portal sobre a porteira. Elas é que devem ter denunciado minha presença, trazendo este homem até mim.

− Bom dia!Sou Patrícia Alencar Rochetty e a dona Maria Dolores aguarda-me.

− Ah, sim... a senhora está de fato sendo aguardada.

O portão de madeira começa a abrir e logo me vem a lembrança do Brasão da Cervejaria esculpido nele. 

Se é possível ficar encantada e revoltada ao mesmo tempo por não me lembrar da beleza deste paraíso, é exatamente assim que me sinto. Também, como posso culpar-me por não ter retido muita coisa em minha memória se cheguei aqui hipnotizada e fui embora cega, guiada apenas pelo medo de não conseguir escapar a tempo! Observar e curtir a paisagem não eram nem de longe minhas prioridades...

Não tenho palavras para descrever a casa, que é simplesmente impactante!Esta seria a casa que eu escolheria para morar o resto da vida. Toda de vidro, com varandas e deck de madeira, situada no melhor vale do grande campo gramado. Espetacular! Um local em que é possível criar uma alma nova no meio do paraíso. Isso é o que eu entendo como saber viver bem e com qualidade de vida!

Não demora muito e uma bela senhora aparece toda sorridente na porta central. Como o Carlos mencionou, ela é simpática e receptiva. Tem cabelos negros e olhos azuis. Fico olhando-a, com a forte impressão de que já a vi em algum lugar. Ela parece-me muito familiar.

− Bem-vinda! Estava contando os minutos para te conhecer.

− Maria Dolores? – pergunto só para descontrair – Obrigada por permitir que eu venha sem o conhecimento do Carlos.

− Entre, meu bem! Você não tem que me agradecerpor nada.

Como é meu hábito, e porque tenho a impressão de já a conhecer, talvez pelo tanto que o Carlos falou bem dela, puxo-a para um abraço e beijo-a para cumprimentá-la. Ela demonstra timidez por um instante, mas, logo diz:

− O Carlos não exagerou quando disse o quanto a senhora é simpática e bonita! – meu sangue gela diante da confissão, porque fico com receio de ela ter falado a respeito da minha vinda e isso estragar a surpresa que quero fazer para ele.

− Você contou para ele que eu estava vindo?

− De jeito nenhum! Fiz exatamente como a senhora pediu. Pode sempre confiar em mim no que diz respeito a agradar meu menino!

− Obrigada, Maria Dolores! – falo com carinho, pois constato o que o Carlos contou-me a respeito do quanto ela gosta dele – Já sinto que vamos ser ótimas amigas.

− Fico feliz, D. Patrícia. 

− Dona? O que é isso, Maria Dolores? E eu lá tenho cara de dona ou senhora?!? Sem essas frescuras comigo, por favor! Se vamos ser amigas, esqueçamos essas besteiras, porque aqui ninguém é melhor do que ninguém, apenas exercemos papéis diferenciados na ordem do dia, certo?

− Se prefere assim... – ela diz sem jeito – Preparei um lanche para você. Vem comer alguma coisa e depois te levo para o quarto caso queira trocar de roupa ou tomar um banho, pois hoje é mais um dia de calor terrível.

− Como adivinhou que eu chegaria faminta? – ambas rimos e seguimos de braços dados, como se fôssemos velhas amigas, até a mesa em que está o “lanche”.

Chamar de lanche o banquete que ela serviu só pode ser brincadeira dela! Ainda bem que ela concorda em sentar e comer comigo enquanto me conta, com muito carinho, um pouco da infância do Carlos, embora de maneira muito superficial Seus olhos ficam marejados quando menciona o acidente que ele sofreu e a angústia que sentiu por não poder chegar perto dele, uma vez que só a família podia visitá-lo no hospital.

− Maria Dolores, mas, por que você não insistiu com os pais dele?

− Dona Patrícia... – ela corrige-se ao me ver levantando uma sobrancelha – Patrícia, de acordo com a sabedoria popular, não é necessário dar um segundo gole quando já se conhece o sabor amargo de uma bebida! – fico sem entender a real profundidade do que ela diz, mas, logo muda de assunto, mencionando a felicidade dela ao se mudar para a fazenda com o Carlos, logo que ele saiu do hospital. Ela é encantadora, sábia e refinada, e eu fico intrigada com o fato de dedicar a vida inteira ao meu garanhão, conforme ela mesma menciona várias vezes durante a conversa. Será que nunca encontrou alguém que desejasse como companheiro ou quis construir uma vida em família? Porque qualidades para fazer felizes um homem e uma família ela parece ter de sobra!

− Bom, este é o quarto do Carlos, no qual você vai ficar. Conhecendo-o como eu faço-o, ele não vai aceitar você num local diferente do dele – ela fala num tom de voz e com uma aura de comando que não me é estranha! Mas, não consigo identificar em que circunstâncias e de quem ouvi algo parecido...

− Maria Dolores, mais uma vez quero agradecer pela hospitalidade. Vou tomar uma ducha. Como você falou, o calor está de matar. 

Depois que ela sai, admiro o quarto do meu garanhão, cuja decoração é imponente como ele, tendo uma cama tão imensa que caberia uma família inteira dormindo nela. Os móveis são todos feitos em madeira maciça, em estilo rústico com um toque de elegância, tudo provençal. Um frio atravessa minha espinha e, subitamente, ponho-me a imaginaras outras mulheres que estiveramneste quarto! Será que elas, diferente de mim, lembram-se dos detalhes que eu não captei?

− Helloooo!!! Quem está aqui agora é você! Portanto, vamos esquecer o passado e viver o presente? – ralho em voz alta comigo mesma, recuperando minha felicidade anterior por estar aqui.

Tomo um banho relaxante e cada metro quadrado do quarto é impregnado pelo perfume que uso. Deito-me de bruços na cama, com o rosto apoiado nas mãos, e passo a analisar o painel gigante cheio de fotos dele. Cada imagem desperta minha imaginação quanto ao que envolve cada uma delas, tais como os sentimentos dele no momento em que foram tiradas, onde e com quem estava, por que estava naquele local naquele dado momento, enfim, querer saber mais dele é o desejo que tenho. Levanto-me para dar uma volta pela fazenda e averiguar tudo o que o fascina. Tiro minha mala de cima da cama e separo uma muda de roupa para vestir agora e a minha surpresa para ele mais tarde.

− Patrícia Alencar Rochetty, dá uma olhada na bagunça em que você transformou este quarto em segundos! – repreendo a mim mesma enquanto guardo todas as roupas que tirei da mala − Ele é tão organizado e eu tão bagunceira! – suspiro ao me lembrarde seu comportamento perfeito durante os dias que passou comigo no meu apartamento. Por exemplo, quando termina uma bebida, logo leva o recipiente que usou para cozinha, não o largando em qualquer lugar à mão. Além disso, pediu para que eu arranjasse um espaço no meu armário para guardar seus pertences, mas não por ser folgado e já querer ir marcando território, ele apenas não queria invadir minha privacidade, deixando espalhadas suas coisas pela casa toda. 

Desajeitada como sempre, pego minhas malas... hum, sim, minhas malas, pois se existe uma mulher preparada para guerra esta sou eu. Incluí pequenas coisas relacionadas às surpresas que planejei, até um chapéu de cowgirl! Arrasto as malas pelo quarto e paro em frente ao closet.

− Uau!!! Simplesmente perfeito! Quando crescer, vou querer um desses – rio da minha própria piadinha. Meu Deus, o closet é maior do que meu apartamento! Curiosa e fascinada, é óbvio, percorro todo o espaço, passando meus dedos nas camisas dispostas de acordo com as cores − Isto é a perdição! – Na verdade, é como caminhar numa loja de roupas masculinas. Ele simplesmente tem de tudo! Gravatas de todas as cores e uma quantidade de calçados de dar inveja à mulher mais compulsiva por esse item. Fico também deslumbrada com os diversos tipos e modelos de relógios. Mas, é algo na prateleira acima deles que me chama a atenção.

Ao ver aquilo, fico estática por segundos ou minutos, não sei, entrando num conflito interno entre razão e emoção. Analiso comigo mesma o que é certo e errado, invasivo ou não, curiosidade legítima ou não, entre outros sentimentos conflitantes. Mas, ganha a batalha o meu coração acelerado. Então, mando a razão para o espaço e, nas pontas dos pés, puxo de cima do maleiro uma maleta preta que está em meio a outras com cores diferentes. É a mesma que me deixou muito curiosa em Ajuricaba, pois poderia reconhecê-la mesmo naquela imensidão de maletas.

Minha empolgação e falta de controle, aliadas ao peso do objeto com o qual não contava, fazem com que caia no chão, abrindo-se e derrubando quase que todo seu conteúdo! Preocupada, tento recolher e guardar tudo rapidamente, sem nem mesmo registrar o que são as coisas que vou pegando. Mas, quando vou fechá-la novamente, só então minha mente toma consciência de tudo o que está ali dentro. Minhas mãos congelam e meu corpo fica paralisado, sendo que o único movimento que posso sentir é a batida do meu coração, que acelera dolorosamente enquanto observo. Uma mão fria parece envolver e apertar meu estômago. E isso seria, por si só, suficiente para que eu saísse correndo loucamente para longe daqui caso não tivesse convivido com o Carlos nos últimos meses...

Meu Pai do céu!!! Seria ele é um dominador?! Mas, como?!?!?! Um dominador seria tão paciente e carinhoso como ele sempre foi comigo? Não conheço ou entendo muito desse lance, mas, parece-me uma coisa contraditória paciência e ternura em relações em que há dominadores. Ao menos para mim que não conheço nada além do que o D. Leon explicou-me ou do que li em vários livros que eram, na verdade, romances, não livros relativos ao tão badalado BDSM!

Reflito a respeito dos vários momentos de nossas interações em que ele insistiu na questão de eu confiar nele e de que nunca faria absolutamente nada do que eu não quisesse. Um dominador agiria assim? Ah, quantas dúvidas!!

− Vamos, Patrícia, respire fundo e seja sábia! Os acontecimentos da vida já te mostraram muitas coisas, sendo que você pode considerar-se descolada o suficiente para saber que, antes de tirar qualquer conclusão com base na superfície dos acontecimentos, deve primeiro assimilar o que está à sua frente, tentar agir com imparcialidade, não tecendo qualquer juízo de valor antes de se aprofundar, refletir e analisar tudo o que está envolvido.

Por mais que tente evitar, um pavor angustiante invade-me!

– O que é que eu faço agora?

Sinto um gosto amargo em meu esôfago, uma náusea horrível e parece haver um fogo dentro de mim produzindo labaredas que me queimam dolorosamente, fogo este pela primeira vez não causado por desejo nem luxúria. Essa espécie de combustão interna torna-me irreconhecível para mim mesma e governa, aparentemente, meus movimentos, porque, quando dou por mim, vejo-me sentada debaixo de uma mangueira... só Deus sabe como cheguei até aqui... Acho que meu subconsciente conduziu-me até um cantinho familiar para mim, como era a mangueira do sítio dos meus pais, durante a minha infância, para a qual eu corria para me refugiar quando me sentia perdida, confusa, triste e, principalmente, acuada. Era o meu recanto acolhedor e que parecia propiciar todo o clima favorável para que eu resolvesse o que quer que me afetasse.

Respiro fundo para me acalmar e equilibrar minhas emoções, a fim de poder achar um ponto de partida para as minhas reflexões. De cara, vem à minha mente uma afirmação que ele fez hoje cedo para mim quando quis deixar claro que nem sempre estaríamos de acordo a respeito de tudo e que poderíamos, sim, discutir e alterarmo-nos um com o outro, sem que isso descambasse em tragédia:

“Eu não sou seu pai e nem você é sua mãe...”

Deixo as lágrimas que enchem meus olhos caírem e digo a mim mesma:

− Bem, não somos mesmo, garanhão! 

Sei que o que nos une não tem, de maneira alguma e nem de leve, qualquer semelhança com a relação doentia de meus pais, mas, por outro lado, também é difícil compreender e aceitar que a dor de alguém é justamente o prazer do parceiro!

Suspiro alto, já me recriminando e me achando uma estúpida, pois como posso dar como certo que é isso que dá prazer ao Carlos se até hoje ele amou e cuidou de mim com tanto carinho, delicadeza e sem absolutamente nenhuma agressão física? Além disso, ele nunca deu prioridade ao que ele deseja e sente, sempre colocando meus desejos e sentimentos em primeiro lugar, consultando-me e respeitando minhas opiniões! Não, tem que haver uma explicação aceitável e convincente. E ele merece muito mais do que eu deixar-me dominar por meus medos e pré-julgamentos.

Mesmo que a menininha assustada que viu a violência de forma tão crua queira correr, gritando não, não e não, a pessoa que me tornei, principalmente graças aos esforços incansáveis do Carlos, alerta-me fortemente a aquietar meus medos e traumas, considerando não apenas o grande amor que sinto por ele, mas, principalmente, o qual ele dedicou-me sempre e sempre, sem qualquer expectativa ou cobrança. Eu devo a ele a chance de eu tentar conhecê-lo melhore de maneira mais profunda, sem nada ficar escondido ou reprimido. Só assim é que serei justa, verdadeira e terei condições de avaliar para onde irá nosso relacionamento.

O que mais deve nortear minha conduta daqui por diante é que eu amo esse homem e, portanto, todos os pré-conceitos que eu carrego dentro de mim não podem interferir nesse sentimento, porque, até agora, o que venho fazendo, na verdade, é permitir que uma atitude discriminatória governe minhas ações. 

− Patrícia Alencar Rochetty, levanta e tome uma atitude em relação ao assunto!

Bem mais centrada e no domínio de minhas ações, volto apressadamente para a sede da fazenda, já certa de que, no momento, a única maneira de me informar minimamente para dirimir minhas dúvidas mais básicas é entrar em contado com o meu amigo Dom Leon, com o qual não falo há tempos... Como ele sempre foi extremamente gentil e paciente comigo, creio que não se negará a me ajudar a entender algumas coisas e até mesmo a me orientar a fazer algo que possa surpreender o meu garanhão. Logo ao entrar, já toda eufórica, encontro a Maria Dolores estampando um semblante preocupado.

− Está tudo bem, Patrícia?

− Não há nada com o que se preocupar, Maria Dolores... Se ainda não está completamente bem, farei de tudo para que fique pode ter certeza! – pego meu celular e percebo que não mostra sinal de 3, quanto mais de 4G! Impaciente, logo me lembro de que trouxe meu Mac. Vou até a escada e, enquanto subo-a, rapidamente, pergunto para uma Maria Dolores estática e sem entender nada, sem olhar para trás, se a rede da internet tem senha.

− Sim, Patrícia. É quimera – eu sorrio por dentro quando ela responde isso, porque foi mais uma coisa comovente que ele relacionou ao que desperto nele. É mais um ponto a favor de meu desejo de compreender o máximo que puder e fazer com que possamos ficar juntos, mesmo quando surgirem questões que, aparentemente, podem não ser compatíveis num relacionamento.

Durante o tempo que leva para o Mac inicializar, faço uma espécie de prece mental paraque eu consiga desmistificar o conceito fixado na minha cabeça de que uma submissa é quase que a mesma coisa que uma boneca inflável, que não fala, não reclama, recebe chicotadas e é depósito de esperma, aceitando tudo isso comum sorriso no rosto.

Quando, finalmente, entro no facebook, vejo que tenho diversas solicitações de amizade, mensagens, postagens pendentes, mas nada disso me interessa. A única coisa que quero é falar com o Dom Leon. Entro no seu perfil e verifico que ele está online pelo celular. Pela rápida passada de olhos que dei em sua timeline, percebo que não tem atualizado seu perfil há 10 dias, assim como eu mesma. Apesar disso, mando-lhe uma saudação. 

Patrícia Alencar Rochetty:>> Olá, Dom Leon!

Ele não responde e eu fico aflita, com medo de não conseguir elucidar minhas dúvidas mais básicas antes de o Carlos chegar...

− Cadê você, Dom Leon? Preciso tanto de você agora!

Vejo, então, que a mensagem acabou de ser visualizada, só que ele demora uma eternidade para responder. Não aguentando esperar, envio outra mensagem.

Patrícia Alencar Rochetty: >>Está muito ocupado???

Dom Leon:>> Olá, menina! Um pouco, mas pode falar. Tenho uns 5 minutinhos, não mais.

Estranho o fato de ele ser seco, pois a forma como responde não é a que normalmente usa comigo, mas, considerando-se que não nos falamos há semanas, é compreensível.

Patrícia Alencar Rochetty:>> Dom Leon, você sabe que costumo ser objetiva e por este motivo vou direto ao ponto, principalmente por você estar ocupado. Descobri que o melhor amigo do meu namorado é um dominador. Ao saber disso, fiquei curiosa a respeito de algumas questões. Você pode esclarecê-las para mim, também rápida e objetivamente, uma vez que seu tempo é curto?

Ele visualiza e não responde... Cadê meu amigo ligeirinho que sempre foi rápido no gatilho? Eita, nem parece a mesma pessoa de tanto que está demorando para responder! Já é a segunda coisa que parece ser diferente do D. Leon com quem sempre conversei.

Bem, anos depois... vem a resposta:

Dom Leon:>> Ah! Amigo do seu namorado... ok! Embora não consiga entender o que a condição de dominador do amigo dele tenha a ver com você, mas, de qualquer forma, quais dúvidas você quer esclarecer?

Aff... Definitivamente há algo errado, porque nem a pau ele está agindo como o meu amigo Dom Leon de antes. Só faltou ele dizer que o assunto não me diz respeito com essa resposta atravessada! Até estou temerosa de perguntar alguma coisa para ele, em dúvida se estou fazendo o certo.

Patrícia Alencar Rochetty:>>Vou colocar todas as perguntas para ganharmos tempo, ok?

1) Num relacionamento D/S é indispensável a existência da dor? Ou é possível manter um relacionamento assim sem que dores e surras estejam envolvidas?

2) Numa relação D/S podem existir sentimentos como o amor entre o Mestre e a submissa? Em caso positivo, como funcionaria?

3) Você acredita que uma mulher pode ser uma submissa nessas condições das perguntas acima (sem dores, surras e em que haja amor entre os envolvidos), entre “quatro paredes”, mesmo sendo extremamente independente, dominadora e voluntariosa na vida normal?

4) Uma mulher que testemunhou a violência doméstica levada ao extremo, durante a infância e por anos, tem condições de aceitar e ser uma submissa sem pirar, em decorrência de seus traumas, quando práticas que remetam à situação traumatizante sejam utilizadas?

5) A fim de ter um relacionamento verdadeiro e feliz com o amor de sua vida, vale a pena uma mulher arriscar-se a conhecer e viver as experiências D/S, mesmo sabendo das restrições expostas nas quatro perguntas acima?

6) Como ficar segura de que não sairá violentada e machucada por tentar o exposto na pergunta acima, inclusive a ponto de a consequência ser o término do namoro, sem chance de volta?

Enquanto aguardo, bastante ansiosa, que ele leia e, depois, responda, para não ficar esperando sem fazer nada, ponho-me a procurar e a ler os perfis dos amigos dons do D. Leon. Num deles, tem uma resposta do dom para uma pergunta de uma mulher, na qual, entre outras coisas, ele diz que apanhar e sentir dor são apenas duas das coisas que podem estar presentes ou não em uma relação D/S, portanto, não são indispensáveis. De acordo com ele, cada dominador tem que construir um relacionamentoúnico e próprio com sua submissa e, junto com ela, decidir quais acessórios e técnicas vão fazer uso, de acordo com as vontades e limites da submissa.

Confesso que só essa resposta já traz um caminhão de alívio para mim! Se o cara souber do que está falando e realmente for isso mesmo, então, eu e o Carlos não somos, definitivamente, um caso perdido, juntos! Minhas expectativas em relação a isso são meio que atendidas e penso que o tal “clube do chicotinho” pode ter outras coisas que não o chicote propriamente dito, as quais podem até vir a me agradar...continuo pesquisando e concluo que o que encontro ou é inútil ou confirma a resposta do dominador quanto a uma relação D/S ser algo consensual.

Cansada de pesquisar e de esperar as respostas do D. Leon, deixo o Mac de lado e vou de novo fuçar a tal maleta, que ainda está caída no chão. Analiso cada objeto que pego, imaginando ou concluindo para que servem e quais eu poderia não querer que fossem usados comigo. Confesso que alguns falam por si só e não me causam estranhamento ou rejeição, como uma venda linda de cetim vermelho e preto; fitas das mesmas cores; plugues e vibradores de vários tamanhos, cores, dimensões e texturas; alguns artigos bonitinhos de plástico, com controle remoto, que penso funcionarem à base de vibração; um par de algemas com pelúcia também de cor negra e vermelha; um negócio que parece uma espátula fina e estranha, de cor preta; um cabo com várias tiras de couro preto bem grossas; umas bolinhas de inox ou prata, sei lá, ligadas por um fio quase que invisível; um par de prendedores interligados por uma corrente; alguns frascos com líquidos dentro e, finalmente, ELE... o famoso e temível “chicotinho”...

No que diz respeito a este último objeto, invade-me uma vontade quase que incontrolável de o pegar e sair dando chicotada nos malditos que gostam de espancar mulheres... aiaiai... Devo confessar que se, num futuro próximo, o Carlos tentar usar isso em mim, acho que perderei a cabeça e eu é que vou passar a espancá-lo, sem qualquer limite... Não estou pronta para esse objeto, concluo... na verdade, não sei se algum dia estarei.

O que me mantém calma é a certeza de que o Carlos ama-me profundamente, pois nunca falou dessas suas preferências e, mesmo assim, mostrou-se muito feliz com as interações sexuais que mantivemos até hoje! Em todas elas, ele deixou claro que estava bem mais do que satisfeito, portanto, mesmo que demoremos ou então não consigamos atravessar essa ponte, estou segura de que o amor que sente por mim, bem como a satisfação sexual que ele alcança comigo, não diminuirão por causa disso. Percebo, sim, que no quebra-cabeças que é nosso relacionamento, é justamente eu estar disposta a tentar ingressar nesse mundo dele a única que falta e a última peça a ser colocada. Embora não tenha do que me queixar da vida antes de conhecer meu garanhão, este chegou inesperadamente, mudando muita coisa dentro de mim e fazendo-me ainda muito mais feliz do que já era! Fez um trabalho de formiguinha e conseguiu trazer de dentro de mim a Patrícia alquebrada, a fim de cuidar dela junto comigo. Meu Deus, que homem é esse que chega sem pedir licença, faz com que eu entregue voluntariamente a mim mesma em suas mãos, abra-me para um mundo de possibilidades excitantes e ainda por cima faz tudo isso parecer simples e sem complicações?

Resolvo olhar o Mac de novo e eis que lá estão as respostas do D. Leon!

Dom Leon:>>Cara, Patrícia, antes de responder às suas perguntas, quero deixar bem claro que todas elas, para serem devida e corretamente respondidas, deveriam ser inseridas num contexto específico a toda a liturgia que envolve o BDSM, o que, obviamente, não é possível fazer agora, aqui e em tão pouco tempo. Sendo assim, procurarei dar-lhe respostas mais genéricas e que devem ser melhor aprofundadas assim que você tiver condições de fazer isso, OBRIGATORIAMENTE, com pessoas SÉRIAS E COMPROMETIDAS com o mundo BDSM. Nenhuma delas é simples e todas envolvem aspectos muito importantes para nós, que os tratamos com a devida seriedade e importância. Bem, vamos às perguntas.

Noto que ele continua curto e grosso comigo... uau, o antigo gatinho transformou-se num leão...

1) Num relacionamento D/S é indispensável a existência da dor? Ou é possível manter um relacionamento dessa natureza sem que dores e surras estejam envolvidas? 

Patrícia, que fique claro para você que nem sempre o chicote, as dores e as “surras” devem ser entendidos como um castigo! Isto é fazer uma ideia errada de um relacionamento D/S, que vai, na verdade, muito além do que apenas umas palmadinhas no bumbum... A dor, devo dizer, não passa de um complemento do prazer, é algo a mais que a submissa quer com a finalidade de prolongar o próprio prazer, como, por exemplo, uma chicotada, um puxão mais duro nos seios, um aperto mais forte, uma estocada mais bruta, entre outros. E o dominador, por sua vez, sente prazer em infligir essa dor porque é isso que atende ao que sua submissa, digamos, precisa para ficar feliz no sentido de achar prazeroso o ato dos dois. 

Nesse caso, o que é entendido, em condições normais da vida, como “desconforto” é o que justamente gera o prazer na(s) parte(s) do corpo da submissa que está(ão) sendo trabalhada(s) pelo dominador. Se não causar prazer, significa que aquela dada ação não é a mais adequada e o dominador e a submissa têm que rever o que foi acordado entre eles nesse sentido, havendo necessidade de que a submissa, se for o caso, faça concessões ao dominador e nele confie piamente para que teste quais os limites e os atos que causam prazer a ambos. 

Assim, na verdade, o que é importante é que os dois descubram e estabeleçam juntos o que lhes dá prazer enquanto casal, envolvendo práticas mais agressivas no sentido de causar dor, inclusive por meio de “surras”, entre outros, ou, diferente disso, coisas que levem a submissa ao extremo da espera para poder ter um prazer muito mais forte quando finalmente o dominador atender suas expectativas, após um longo tempo esperando por isso. 

Para finalizar, digo que sim, é possível um relacionamento D/S sem os atos que você citou, desde que haja consenso entre o dominador e a submissa. Porém, assim como cabe ao dominador tentar ir além para demonstrar todo o potencial que a submissa tem dentro de si mesma, esta, por sua vez, deve ser flexível no sentido de permitir que ele explore os limites de sua capacidade de sentir prazer.

No que me diz respeito, não seria feliz com um relacionamento assim, porque eu não abro mão do prazer de infligir dor à minha menina, nem do imenso prazer que ela mesma sente com isso. Mas, assim como seu namorado, eu também tenho um grande amigo que é dominador que ficaria completamente satisfeito em construir um relacionamento com uma mulher assim se acreditar que vai valer a pena... Há dominadores e dominadores...

2) Numa relação D/S podem existir sentimentos como o amor entre o Mestre e a submissa? Em caso positivo, como funcionaria?

Com certeza absoluta, digo-lhe que sem a troca de sentimentos não há como existir uma relação D/S. Tem que haver sentimento, embora não necessariamente o “amor” propriamente dito. Veja bem, se a submissa impedir a todo o momento qualquer ação do dominador, não vai haver troca, mas, apenas uma relação sexual casual normal, com cada um seguindo para seu canto após o término do ato. Ela tem, então, que permitir ao dominador usar seus conhecimentos para chegarem a um consenso quanto ao que causa prazer e não agride a menina e, convenhamos, isso envolve sentimentos da parte de cada um deles, mesmo que não seja especificamente de um pelo outro. A sensibilidade do dominador tem que ser grande para não ultrapassar os limites da submissa, os quais estão ligados aos sentimentos dela, sem dúvida!

Quanto à existência de amor entre eles, já vi casos em que dominador e submissa já são inclusive casados, têm família e mantém perfeitamente sua relação D/S. No que me diz respeito, não vivi esse tipo de situação, embora, obviamente, em alguns relacionamentos, eu tenha nutrido outros tipos de sentimentos menos intensos por uma ou outra submissa. 

3) Você acredita que uma mulher pode ser uma submissa nessas condições das perguntas acima (sem dores, surras e em que haja amor entre os envolvidos), entre “quatro paredes”, mesmo sendo extremamente independente, dominadora e voluntariosa na vida normal?

Sim, é possível essa dualidade. Justamente por ser independente, dominadora e voluntariosa na sua vida real, no que diz respeito à vida sexual, ela pode buscar algo que lhe vai no íntimo, isto é, uma pessoa que a domine e a faça dobrar-se às suas demandas, pois o contrário ela tem todos os dias e exige muito esforço de sua parte. Numa relação D/S, ao menos a responsabilidade é tirada de suas mãos e ela pode concentrar-se apenas no prazer que lhe é oportunizado, mesmo que, muito provavelmente, ela nunca vá ser aquela submissa que aceita determinadas imposições que uma mulher que é submissa em todas as áreas da sua vida aceitaria, porque o traço dominador de sua personalidade é muito forte.

Entretanto, uma vez mais vale o que o dominador e a submissa pactuam para deixarem ambos satisfeitos com o relacionamento. 

4) Uma mulher que testemunhou a violência doméstica levada ao extremo, durante a infância e por anos, tem condições de aceitar e ser uma submissa sem pirar, em decorrência de seus traumas, quando práticas que remetam à situação traumatizante sejam utilizadas? 

Em diversos casos de violência doméstica, sendo denunciados ou não, há pessoas que acreditam que remetem à hipótese, claro que nem sempre certa e comprovada, de que a mulher que sofre a violência, por si só, já seria uma submissa, porque aceita aquela violência. Mas, que fique claro que eu, particularmente, NÃO aceito esse determinismo e não sou a favor desse tipo de relacionamento, que julgo, este sim, doentio, porque é uma coisa forçada. Veja bem, o homem que se impõe a uma mulher não é dominador, mas o típico machão covarde que não consegue impor-se sem bater e agredir. Mas, não creio que a mulher que não denuncia faça pressupor que sua aceitação já revelariauma submissão por si só, porque violência doméstica é uma coisa e relacionamentos BDSM é outra, não havendo conceitos que poderiam ser aplicados as duas situações com todo o sentido que carregam.

A mulher que sofreu ou presenciou a violência doméstica, se encontrar um dominador de verdade, sempre terá que vivenciar, primeiro, uma relação de carinho e de confiança com ele, a fim de que ambos atinjam seus objetivos, que é viverem uma relação D/S plena e que proporcione o máximo de prazer a ambos. O fundamental nessa situação, como em qualquer relação dessa natureza, é o estabelecimento de uma relação consensual. 

A superação da mulher que presenciou a violência doméstica é muito complicada, porque, muitas vezes, ela acaba envolvendo-se justamente em situações parecidas quando se torna adulta. Mas, ressalto novamente, Patrícia, a violência doméstica é uma coisa, os artifícios, atos e técnicas do BDSM, por sua vez, não devem ser vistos nem classificados usando-se a palavra “violência”, pois tudo se trata de algo estritamente voltado para a satisfação dos sentidos e para se alcançar o maior prazer possível de acordo com as preferências e, volto a dizer, escolha e consenso dos envolvidos. 

Nessas condições, é perfeitamente possível, sim, haver uma relação D/S, porque um dominador deve ter calma e paciência para lapidar aquela pedra bruta e transformá-la em uma joia com suas próprias mãos. Mas é imprescindível, igualmente, que a mulher envolvida esteja preparada e disposta a fazer concessões quando isso for importante para o relacionamento de ambos. 

5) A fim de ter um relacionamento verdadeiro e feliz com o amor de sua vida, vale a pena uma mulher arriscar-se a conhecer e viver as experiências D/S, mesmo sabendo das restrições expostas nas quatro perguntas acima? 

Bem, em minha opinião, da parte do dominador deve haver discernimento e percepção para averiguar a personalidade de sua possível submissa. A não ser que ela seja fútil e seu interesse esteja apenas na aparência, dinheiro e outros, penso que talvez uma relação assim possa não funcionar, porque ela não terá conteúdo suficiente para entender as, digamos, nuances de um relacionamento D/S. Mas, se, ao contrário, a mulher seja minimamente inteligente para se permitir viver em harmonia com o homem que ama, ela vai certamente querer fazer um pouco mais no sentido de o fazer feliz. Porém, não adianta a mulher simplesmente dizer ao seu companheiro que está disposta a “apanhar” para que ele fique satisfeito e que ela quer que seja assim daquele momento em diante. Não existe isso! Uma relação D/S tem que ser construída tijolinho por tijolinho, cujo alicerce deve ser a confiança que um tem no outro e em ambos juntos para estabelecerem consensualmente uma relação D/S e tudo o que possa estar nela envolvido. 

6) Como ficar segura de que não sairá violentada e machucada por tentar o exposto na pergunta acima, inclusive a ponto de a consequência ser o término do namoro, sem chance de volta?

Patrícia, esse é um risco que todos corremos em qualquer relacionamento ou namoro, sejam eles D/S ou não... portanto, não há qualquer garantia ou segurança. O que vale, ao meu ver, é o quanto cada um não apenas está disposto a arriscar, mas, principalmente, o quanto tem CONDIÇÕES de arriscar e o que pode AGUENTAR COMO CONSEQUÊNCIA desse tipo de tentativa, seja o sucesso ou o fracasso. Você não é mais uma menininha e sabe que todas as nossas ações e decisões têm as respectivas e incertas consequências.Você é a única pessoa que pode verdadeiramente responder para si mesma esta última pergunta que fez.

Espero ter podido esclarecer minimamente suas dúvidas. Em qualquer caso, aconselho essa mulher a se aprofundar e refletir bastante a respeito do assunto, de preferência com o homem que diz amar.

Não saio do quarto nem para almoçar, pois fico a refletir a respeito de todas as novidades do dia e do que vou fazer daqui para a frente diante disso tudo. Exatamente às 5h da tarde, ouço alguém bater na porta. Ainda bem que não entra, pois lá estou eu, ainda com todos os objetos espalhados em cima da cama.

− Quem é?

− Oi, Patrícia! É a Maria do Dolores. Você não desceu para almoçar, então, subi para ver se quer comer alguma coisa?

Dou-me por satisfeita com minhas reflexões e resoluções após ter lido as respostas do Dom Leon, do qual me despedi de vez, explicando-lhe que não poderia manter nossa amizade sem o conhecimento do meu garanhão, que poderia sentir-se traído por mim. Agradeci muito por ele ter sido um bom amigo, sempre esclarecendo minhas dúvidas e incentivando-me a ir além em meus relacionamentos, inclusive isso sendo um dos fatores que me ajudou a resolver dar brecha para as investidas do Carlos. Ele compreende e concorda com minha posição, deseja-me muitas felicidades e também para a “mulher que está interessada no amigo dominador do meu namorado”, a fim de que ela tenha muita sorte, sucesso e sabedoria ao tentar um relacionamento D/S com ele. Claro que fica nas entrelinhas que ele sabe que se trata de mim e de meu namorado, mas, é elegante o suficiente para não colocar isso às claras, respeitando minhas reservas. Feito isso, não excluí o Dom Leon de meus amigos, mas, o meu perfil do facebook, porque tenho a ligeira impressão de que não terei muito tempo para o mundo virtual durante um longo período...

O que mais preciso neste momento é alimentar-me bem e direito, porque no depender de mim e do eufórico e saidinho Sr. G, esse meu melhor amigo de sempre, teremos que estar muito preparados para a maratona que imaginamos ter pela frente esta noite. Ora, desde a hora em que descobri que um negócio oval é um plugue anal que vibra, temos ambos a certeza de que devemos estar alimentados o suficiente para abastecer meu corpo com toda a energia que gastarei descobrindo, na pele, para que servem alguns dos itens da maleta. Posso não ter encontrado respostas para explicar o porquê de tudo isto, mas meu instinto e minha excitação dizem-me que sexo duro e cru eu posso ter com qualquer homem, mas este desejo de entregar a mim mesma e de dizer que sou dele são exclusivos somente ao Carlos. Nunca ninguém chegará comigo a este patamar que ele chegou.

Não vou chegar ao exagero de dizer que quero deixar de ter um relacionamento tradicional e muito menos que vou viver intensamente uma relação D/S, pois, para mim, a submissão total é algo a ser trabalhada, mesmo que restrita a quatro paredes, contudo será algo possível de ser experimentado de vez em quando e com muitos, mas muitos mesmo, limites rígidos. Por mais que tenha até hoje associado muita coisa ao relacionamento dos meus pais, não tenho mais dúvidas de que a relação deles era doentia, cheia de imposições e na qual as punições não eram castigos de prazer, mas, sim, pura e crua violência doméstica. O Carlos já me provou que não é como meu pai e, por este motivo, vou permitir que ele teste e expanda meus limites e que me prove que a dominação que ele gosta de exercer no relacionamento sexual é completamente diferente da possessão doentia do meu pai. 

Esta conclusão não foi construída nestas poucas horas em que fiquei neste quarto, nem apenas pelas respostas do D. Leon, mas a união disso com as pesquisas que fiz pela internet a respeito da violência doméstica. Emociona-me muito apenas me lembrar dos relatos de mulheres que sofreram e ainda sofrem abusos domésticos. Mas, foi necessário eu pesquisar isso para ver a diferença entre os relatos dessas mulherese aqueles feitos por submissas. As primeiras só mostram o quanto sofreram e ainda carregam muitas dores e traumas, cuja cura só pode ser obtida percorrendo-se um longo caminho. Já as segundas deixam clara a satisfação que têm em seus relacionamentosnão ortodoxos. Fiquei muito sensibilizada com as histórias das mulheres agredidas e, no fundo, tenho temores, afinal, desfazer-me de medos que estavam escondidos em meu subconsciente a vida toda e que só recentemente vieram à tona não acontecerá como num passe de mágica. 

Por outro lado, tudo o que vivi com ele até agora é um encorajamento para ao menos tentar. Sei e sinto que cada beijo que recebo dele não se resume apenas ao encontro de nossos lábios, mas, sim, traz a carga emocional e o amor oriundos do encontro de nossas almas. Meu corpo está sempre pronto para o seu toque estando ele perto ou longe de mim, sabendo que ele rege-o onde quer que esteja! Sonho e desejo sempre suas carícias maravilhosas e carregadas de sentimentos intensos, sabendo que já não posso mais viver sem elas. 

− Maria Dolores, descerei em dez minutos – respondo, rápido, para evitar que ela entre no quarto. Antes de descer, separo tudo o que acho que vou precisar, juntamente com a minha surpresa. 

É claro que mal consigo comer diante do nervosismo que sinto. Afinal, é uma decisão bastante radical, isto é, permitir-me colocar-me em situações totalmente opostas ao que sempre acreditei e diantedas quais sempre fui contra. Muito ansiosa, termino de comer e subo para o quarto para colocar meu plano em ação. Quando tudo está quase pronto, volto a descer para dar as últimas instruções para a Maria Dolores. Mal termino de lhe falar tudo, toca o interfone e o porteiro, atendendo ao nosso pedido de horas atrás, informa-nos da chegada dele. 

− Maria Dolores, preciso de apenas mais dez minutinhos! Confio em você para segurar o Carlos aqui embaixo durante esse tempo – subo a escada correndo, preparando o que falta em tempo recorde. 

O timing é perfeito, porque assim que finalmente dou tudo como pronto, ouço seus passos no corredor. Fecho os olhos e respiro fundo, rezando para que Nossa Senhora das Mulheres Que São Loucas Por Seus Homens ajude para que tudo corra bem e a eu mantenha a coragem necessária para seguir em frente. A porta é aberta e, no mesmo momento, vejo seus olhos abrirem-se com espanto, admiração, mas, sobretudo, com amor e muito... mas muito calor mesmo...

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