sábado, 26 de abril de 2014

SÉRIE SANTUÁRIO 01 - A HISTÓRIA DE NÓS DOIS - Capítulo 06


Capítulo 6

Dois anos mais tarde...
       - Tem certeza que não quer que eu fique e ajude a fechar a loja? – Alicia perguntou mais uma vez.
           
- Pode ir tranquila que eu cuido de tudo por aqui.
Apesar de grata pelo carinho da amiga, Marina desejava ficar sozinha.
Passara o dia com aquela sensação de nostalgia e sempre que isso acontecia, ficava na loja até mais tarde, contemplando suas conquistas. Vagou pelos ambientes, tocando carinhosamente os móveis e objetos, revivendo cada vitória  arduamente alcançada nos dois últimos anos.
Uma semana após chegar a São Paulo, começou a trabalhar como assistente da secretária de Vincenzo Montemezzo, num dos escritórios de advocacia mais importante do país. Vincenzo e Dante Montemezzo foram as pessoas que pagaram por sua segurança.
Recordou a despedida da pensão Recomeço apenas  seis meses após ali chegar com uma escolta de seis homens.
            Com a bagagem repleta de coragem e sonhos, deixara São Paulo e se estabelecera em Vitória da Esperança, uma charmosa cidadezinha, localizada na região das serras gaúchas. A bela cidade era uma alternativa aos que desejam aproveitar o clima e a paisagem bucólica, sem os altos custos das badaladas cidades, que oficialmente integravam o roteiro.
O ex-patrão, ao ser comunicado de seus planos, fez questão de se tornar seu sócio.  No início ficara sem jeito, incomodada por acreditar que ele e o irmão já haviam feito muito por ela. Mas no fim, os argumentos convincentes do advogado a venceram, e apenas três meses depois fundara a Nina Flores, uma floricultura, especializada em arranjos e decorações personalizados. Com o desejo de tornar o ambiente ainda mais acolhedor, comprou uma máquina de café expresso, que servia acompanhado dos chocolates que ela mesma preparava.
Algum tempo depois, percebeu que a cidade era carente de livrarias. Junto ao espaço do café, passou a oferecer livros para leitura ali mesmo, bem como para venda. O misto de floricultura / café / livraria dera tão certo que acabara alugando o imóvel ao lado e a Nina Flores passou a chamar-se Recanto do Encanto, contava com cinco funcionários, que ao longo do tempo de convivência se transformaram em seus amigos. 
Todos os dias, agradecia a Deus pelas pessoas que pusera em seu caminho e que a ajudaram a reescrever sua história, porém  em dias como aquele, sentia um peso no peito ao  recordar que, o homem que quase lhe tirara a vida, seguia impune, protegido pelo poder e pelo dinheiro.
            Como sempre acontecia quando o desânimo ameaçava instalar-se em sua alma,  buscava força na própria história para não se deixar cair.
A imagem de Pedro lhe veio à mente e ela suspirou. Apesar de já terem se passado dois anos, ainda podia sentir em sua pele a sensação do toque dele. Recordava tão nitidamente o sabor do beijo como se estivessem juntos na noite anterior.
Sorriu ao se dar conta que, pelo menos em seus sonhos, estiveram.
Vencida pelo cansaço, fechou a loja e aspirando o ar noturno, deliciada com a brisa suave e a beleza da lua cheia, decidiu aproveitar a noite perfeita e seguiu para casa caminhando.   
            Protegido pelas sombras da noite, Caetano a observou aproximar-se da casa. Caminhava sem pressa, parando aqui e ali para saudar os vizinhos, acenando para outros, sempre com aquele arrasador sorriso nos lábios.
Seu corpo reagiu de imediato à visão que assombrava seus sonhos todas as noites ininterruptamente. o peito se encheu de orgulho, pela mulher extraordinária e pelas conquistas alcançadas nos dois últimos anos.      
Quando, há dezoito meses,  ela usara o número do telefone impresso no cartão e entrara em contato, Álvaro cumpriu a promessa feita a ele e foi pessoalmente até ela, acreditando que ela estava assustada com algum possível sinal de perigo.
Entre surpreso e encantado, ele ouvira sobre seus planos de abrir uma floricultura em uma cidade pequena e de como decidira consultá-lo, com o desejo de saber como deveria agir para mudar de São Paulo, sem correr o risco de ser reconhecida, e assim garantir que aos pistoleiros do coronel paraense não a encontrariam.
            Seu irmão lhe tinha sugerido Vitória da Esperança, uma cidade pequena e de paisagem bucólica que acreditava ser encaixar perfeitamente nos planos de Marina. O fato de terem alguém ali que ficaria de olho nela, foi sabiamente suprimido do comentário.
            Alicia Mendes fora resgatada por eles, há oito anos, de um dos acampamentos das FARC na Amazônia Colombiana,  onde era mantida como refém desde seu seqüestro anos antes. A mulher tímida e reservada, enviava relatórios regulares sobre os progressos de Nina para Álvaro. Não escondia a admiração e o carinho que sentia pela nova amiga.
Foi assim, que ele acompanhou o recomeço da mulher que lhe roubara a sanidade.
Contra todas as expectativas, ela se tornara uma micro empresária de sucesso. Movimentou a vida cultural da cidade promovendo saraus, tardes literárias e encontros com autores nacionais. Porém, não perdeu a fé ou esqueceu os menos favorecidos, muito pelo contrário. Frequentava a missa todos os domingos, era voluntária da Pastoral da Criança e promovia com a ajuda dos amigos, tardes culturais para crianças e jovens carentes da região.
            Com a respiração suspensa, a viu passar por ele para abrir a porta.
Não podia vê-lo, mas a maneira como olhou em volta, com os olhos semicerrados o fez dar um passo para trás, submergindo ainda mais nas sombras.
Visivelmente desconfiada, ela entrou na casa e fechou a porta.
Ele xingou baixinho. Teria de dar umas aulas de segurança aquela mulher. A coisa certa a fazer seria recuar, entrar na casa de um dos vizinhos e chamar a polícia, e não garantir privacidade a um suposto agressor, mesmo que o suposto em questão fosse ele.  
            Caetano sabia que ao dar ouvidos aos brados de Álvaro e ir atrás dela, tinha sido um erro. Deveria estar em uma missão, não nessas férias forçadas, vigiando as escondidas uma mulher que merecia muito mais, do que um homem como ele poderia dar.
Porém, contrariando a razão que o mandava correr até seu carro, e dirigir o mais rápido que pudesse para longe dela, ele se viu caminhando até a porta e tocando a campainha.
            Marina havia acabado de sair do banho quando foi surpreendida pelo som da campainha. Consultou o relógio, já passava das vinte e duas horas. Deixou o quarto vestindo o primeiro vestido que encontrou e sem se preocupar por estar descalça, seguiu em direção ao som insistente e irritante.
Ao se aproximar da porta, recordou a sensação que tivera ao chegar em casa.
            - Quem é? – perguntou ainda com a porta fechada, se recriminado pela enésima vez por sempre protelar a instalação do olho mágico.
            - Sou eu Marina.
 Caetano não conseguiu pronunciar o nome falso.
            Ao ouvir a voz que lhe sussurrava em seus sonhos todas as noites, ela sentiu um calafrio percorrer corpo inteiro.
Com coração trovejando, abriu a porta e ainda incrédula contemplou o homem a sua frente.
            Ele estava diferente.
Não usava mais a barba que encobria parte de seu rosto e a fitava através de um par olhos de um azul profundo.
Azul? 
Constatou que estivera certa todo tempo. Sempre achara que a barba e os olhos negros não combinavam com ele.
            - Tentei me manter longe, juro que tentei.
 A declaração feita em tom de suplica e a forma como olhava para ela, a fez se perguntar se estaria tendo algum tipo  alucinação.
            Caetano não esperou pelo convite, entrou, fechou a porta atrás de si e permitiu-se simplesmente olhar para a mulher que dominara suas fantasias.
Os cabelos úmidos do banho continuavam curtos, porém. um pouco mais cheios e com uma franja que a fazia parecer mais jovem. O vestido simples de algodão, marcava as curvas pelas quais ele gemia noite após noite; os pés descalços fizeram sua libido alcançar o limite da loucura. Nina, silenciosamente se aproximou e tocou em seu rosto e ele fechou os olhos, deliciado com seu toque, com sua proximidade.
            - É você. É realmente você. – falava mais para si mesma.
            - Me diga que tem estado tão torturada quanto eu Nina, que mesmo eu tendo agido como um ogro idiota, você sentiu minha falta.
            Ela sorriu delicadamente diante da confissão dele.
Tinha tantas perguntas. Como ele a havia encontrado? Por que realmente estava ali? E tudo parecia pequeno e sem importância diante de um fato, ele se mostrava a ela sem disfarces. O significado gravado naquele gesto fez seu coração aquecer ainda mais. Ele confiava nela, confiava o suficiente para arriscar a vida revelando sua verdadeira aparência.
            - Não sei o que dizer, nem sei ao certo o que pensar, sendo muito honesta, neste momento estou com medo de estar entendendo tudo errado.
Marina abriu seu coração
- E se eu não estiver entendendo tudo errado, porque demorou tanto?
            - Doce  Nina. – sussurrou  um instante antes de beijá-la.
            A intenção de Caetano era ir devagar, beijá-la com doçura. Porém no instante que os lábios se tocaram, todo o desejo reprimido e insatisfeito, explodiu em  um vórtice de emoções e sensações descontroladas.
Nina correspondia aos beijos com a mesma volúpia e paixão, despertando nele uma ancestral e primitiva sensação de orgulho, por saber ser ele o único homem que conseguia despertar nela a mulher passional e apaixonada, que  se escondia por detrás  da aparente doçura ingênua. Quando ela arqueou o quadril ao encontro do seu, percebeu que estavam contra a porta, na mesma posição de dois anos atrás.
            - Nina – começou, ofegante – se não quiser isto, essa é a hora para falar.
Deu a ela a chance de dizer não, mesmo sabendo que  isso significaria ter um infarto ou talvez um AVC.
            - Precisa saber, nunca estive com um homem – confessou com a voz enrouquecida pela paixão.
            Ouvir da deliciosa boca dela o que ele já sabia, aumentou ferozmente seu desejo.
             - Precisa saber que quero muito ser o homem que a fará mulher.
Dessa vez a iniciativa do beijo foi dela. Quando sentiu que ela puxava sua camisa para fora da calça jeans, precisou de toda força do seu caráter, para detê-la.
Ela o encarou visivelmente confusa.
            - Fiz algo errado?
A  expressão desamparada no rosto feminino, quase o fez esquecer suas boas intenções.
            - Marina... não posso te oferecer um romance. – A voz entrecortada pelo desejo – Conhece o suficiente da minha vida para sabê-lo, te ofereço o agora. Se me quiser tanto quanto eu te quero, me entregarei de corpo e alma a você, meu anjo. Mas tem que saber que amanhã posso ser chamado para uma missão e você nunca mais ouvirá falar de mim. 
Pronto, agora ela me colocará na rua a pontapés e mereço coisa bem pior que isso, Ele pensou.
            Ele tinha dado a ela, mais do que imaginava, a verdade.
            - Se temos tão pouco tempo, não desejo desperdiçá-lo conversando sobre o amanhã, tenho você hoje e para mim é suficiente.
Quase o chamara de Pedro novamente, porém conseguiu segurar o nome no ultimo instante, não macularia o momento deles invocando o nome falso.
            - Caetano Montessori  –  disse seguro do que fazia.
            Diante da pergunta impressa nos olhos dela esclareceu.
- Meu nome é Caetano. É esse nome que desejo ouvir dos seus lábios quando estiver gritando no auge do prazer.
Estava consciente do que havia feito, mas, de uma maneira que beirava a irracionalidade, queria que ela desejasse estar com ele. O homem que ele era de fato.
            A grandeza do gesto dele fez o peito dela doer.
Entregava a ela a própria identidade. Uma identidade guardada a sete chaves. Apesar de deixar claro que não podia oferecer nada, na verdade ele havia lhe dado tudo.
            - Caetano, combina com você.
Pronunciou pela primeira vez o nome tão incomum e singular como seu dono.
- Faça amor comigo Caetano. – Ela pediu e ele deixou escapar um gemido, que mais parecia um rugido.
Entre beijos desesperados e caricias ardentes, tropeçado nos móveis e esbarrando nas paredes, conseguiram chegar ao quarto dela. 
            Caetano explorou o corpo curvilíneo, saboreando cada beijo, cada toque, cada gemido. Ouvir Marina pronunciar seu nome entre gemidos e sussurros o deixava ainda
mais excitado, se isso era humanamente possível.  
A ensinou a lhe dar prazer e para seu desespero descobriu que ela era uma aluna curiosa e aplicada. Quando os corpos se uniram num só, a dor passageira logo cedeu vez ao prazer da entrega absoluta de duas almas, que nasceram para se encontrarem no ritmo tão antigo quanto o existir.
            Marina nunca havia desconfiado de quão intenso podia ser o ato de amor.
Não era a toa que  as vocações religiosas diminuíam a cada dia! Pensou.
Como uma mulher podia abrir mão de se sentir tão importante, tão completa e tão amada? Quando achou que não aguentaria tanto prazer seu corpo explodiu de uma forma ainda mais devastadora do que recordava da primeira vez.
            Caetano não achava possível que a realidade pudesse superar a fantasia que nutrira por dois anos, mas era exatamente o que acontecia. Ao entregar-se de corpo e alma àquela mulher única, experimentou o orgasmo mais intenso de toda a sua vida.
            Quando seu cérebro voltou a funcionar, algum tempo depois, se deu conta que seu peso estava todo sobre ela, porém ao tentar se afastar, Marina apertou seus braços e pernas em volta dele.
            - Sou pesado Marina, estou machucando você.
            - Fica só mais um pouquinho. – ela pediu com aquele tom de voz que tinha o poder de tirar o que desejasse dele.
            - Posso fazer um pouco melhor que isso, meu anjo.
Disse enquanto acariciava o rosto dela.
- Tenho dois meses de licença, se quiser posso passá-los aqui com você.  
Ele sabia ser um erro dar-se essa concessão, mas reconhecia estar perdido.
            - Dois meses? – o coração se alegrou.
Seria pouco para muitas mulheres, mas sabia que ele estava dando mais do que poderia. Depois teria uma vida para chorar a ausência dele, agora viveria intensamente cada momento ao seu lado.
            - Marina, são apenas dois meses. – ele teimou em esclarecer.
            - Se dois meses são tudo o que temos Caetano, então faremos com que seja perfeito.



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