Capítulo 6
Dois anos mais tarde...
- Tem certeza que não quer que eu
fique e ajude a fechar a loja? – Alicia perguntou mais uma vez.
Apesar
de grata pelo carinho da amiga, Marina desejava ficar sozinha.
Passara
o dia com aquela sensação de nostalgia e sempre que isso acontecia, ficava na
loja até mais tarde, contemplando suas conquistas. Vagou pelos ambientes,
tocando carinhosamente os móveis e objetos, revivendo cada vitória arduamente alcançada nos dois últimos anos.
Uma
semana após chegar a São Paulo, começou a trabalhar como assistente da
secretária de Vincenzo Montemezzo, num dos escritórios de advocacia mais
importante do país. Vincenzo e Dante Montemezzo foram as pessoas que pagaram
por sua segurança.
Recordou
a despedida da pensão Recomeço apenas
seis meses após ali chegar com uma escolta de seis homens.
Com a bagagem repleta de coragem e
sonhos, deixara São Paulo e se estabelecera em Vitória da Esperança, uma
charmosa cidadezinha, localizada na região das serras gaúchas. A bela cidade
era uma alternativa aos que desejam aproveitar o clima e a paisagem bucólica,
sem os altos custos das badaladas cidades, que oficialmente integravam o
roteiro.
O
ex-patrão, ao ser comunicado de seus planos, fez questão de se tornar seu sócio. No início ficara sem jeito, incomodada por
acreditar que ele e o irmão já haviam feito muito por ela. Mas no fim, os
argumentos convincentes do advogado a venceram, e apenas três meses depois
fundara a Nina Flores, uma floricultura, especializada em arranjos e decorações
personalizados. Com o desejo de tornar o ambiente ainda mais acolhedor, comprou
uma máquina de café expresso, que servia acompanhado dos chocolates que ela
mesma preparava.
Algum
tempo depois, percebeu que a cidade era carente de livrarias. Junto ao espaço
do café, passou a oferecer livros para leitura ali mesmo, bem como para venda.
O misto de floricultura / café / livraria dera tão certo que acabara alugando o
imóvel ao lado e a Nina Flores passou a chamar-se Recanto do Encanto, contava
com cinco funcionários, que ao longo do tempo de convivência se transformaram
em seus amigos.
Todos
os dias, agradecia a Deus pelas pessoas que pusera em seu caminho e que a
ajudaram a reescrever sua história, porém
em dias como aquele, sentia um peso no peito ao recordar que, o homem que quase lhe tirara a
vida, seguia impune, protegido pelo poder e pelo dinheiro.
Como sempre acontecia quando o
desânimo ameaçava instalar-se em sua alma, buscava força na própria história para não se
deixar cair.
A
imagem de Pedro lhe veio à mente e ela suspirou. Apesar de já terem se passado
dois anos, ainda podia sentir em sua pele a sensação do toque dele. Recordava
tão nitidamente o sabor do beijo como se estivessem juntos na noite anterior.
Sorriu
ao se dar conta que, pelo menos em seus sonhos, estiveram.
Vencida
pelo cansaço, fechou a loja e aspirando o ar noturno, deliciada com a brisa
suave e a beleza da lua cheia, decidiu aproveitar a noite perfeita e seguiu
para casa caminhando.
Protegido pelas sombras da noite,
Caetano a observou aproximar-se da casa. Caminhava sem pressa, parando aqui e
ali para saudar os vizinhos, acenando para outros, sempre com aquele arrasador
sorriso nos lábios.
Seu
corpo reagiu de imediato à visão que assombrava seus sonhos todas as noites
ininterruptamente. o peito se encheu de orgulho, pela mulher extraordinária e
pelas conquistas alcançadas nos dois últimos anos.
Quando,
há dezoito meses, ela usara o número do
telefone impresso no cartão e entrara em contato, Álvaro cumpriu a promessa
feita a ele e foi pessoalmente até ela, acreditando que ela estava assustada
com algum possível sinal de perigo.
Entre
surpreso e encantado, ele ouvira sobre seus planos de abrir uma floricultura em
uma cidade pequena e de como decidira consultá-lo, com o desejo de saber como
deveria agir para mudar de São Paulo, sem correr o risco de ser reconhecida, e
assim garantir que aos pistoleiros do coronel paraense não a encontrariam.
Seu irmão lhe tinha sugerido Vitória
da Esperança, uma cidade pequena e de paisagem bucólica que acreditava ser
encaixar perfeitamente nos planos de Marina. O fato de terem alguém ali que
ficaria de olho nela, foi sabiamente suprimido do comentário.
Alicia Mendes fora resgatada por
eles, há oito anos, de um dos acampamentos das FARC na Amazônia
Colombiana, onde era mantida como refém
desde seu seqüestro anos antes. A mulher tímida e reservada, enviava relatórios
regulares sobre os progressos de Nina para Álvaro. Não escondia a admiração e o
carinho que sentia pela nova amiga.
Foi
assim, que ele acompanhou o recomeço da mulher que lhe roubara a sanidade.
Contra
todas as expectativas, ela se tornara uma micro empresária de sucesso.
Movimentou a vida cultural da cidade promovendo saraus, tardes literárias e
encontros com autores nacionais. Porém, não perdeu a fé ou esqueceu os menos favorecidos,
muito pelo contrário. Frequentava a missa todos os domingos, era voluntária da
Pastoral da Criança e promovia com a ajuda dos amigos, tardes culturais para
crianças e jovens carentes da região.
Com a respiração suspensa, a viu
passar por ele para abrir a porta.
Não
podia vê-lo, mas a maneira como olhou em volta, com os olhos semicerrados o fez
dar um passo para trás, submergindo ainda mais nas sombras.
Visivelmente
desconfiada, ela entrou na casa e fechou a porta.
Ele
xingou baixinho. Teria de dar umas aulas de segurança aquela mulher. A coisa
certa a fazer seria recuar, entrar na casa de um dos vizinhos e chamar a
polícia, e não garantir privacidade a um suposto agressor, mesmo que o suposto
em questão fosse ele.
Caetano sabia que ao dar ouvidos aos
brados de Álvaro e ir atrás dela, tinha sido um erro. Deveria estar em uma
missão, não nessas férias forçadas, vigiando as escondidas uma mulher que merecia
muito mais, do que um homem como ele poderia dar.
Porém,
contrariando a razão que o mandava correr até seu carro, e dirigir o mais
rápido que pudesse para longe dela, ele se viu caminhando até a porta e tocando
a campainha.
Marina havia acabado de sair do
banho quando foi surpreendida pelo som da campainha. Consultou o relógio, já
passava das vinte e duas horas. Deixou o quarto vestindo o primeiro vestido que
encontrou e sem se preocupar por estar descalça, seguiu em direção ao som
insistente e irritante.
Ao
se aproximar da porta, recordou a sensação que tivera ao chegar em casa.
- Quem é? – perguntou ainda com a
porta fechada, se recriminado pela enésima vez por sempre protelar a instalação
do olho mágico.
- Sou eu Marina.
Caetano não conseguiu pronunciar o nome falso.
Ao ouvir a voz que lhe sussurrava em
seus sonhos todas as noites, ela sentiu um calafrio percorrer corpo inteiro.
Com
coração trovejando, abriu a porta e ainda incrédula contemplou o homem a sua
frente.
Ele estava diferente.
Não
usava mais a barba que encobria parte de seu rosto e a fitava através de um par
olhos de um azul profundo.
Azul?
Constatou
que estivera certa todo tempo. Sempre achara que a barba e os olhos negros não
combinavam com ele.
- Tentei me manter longe, juro que
tentei.
A declaração feita em tom de suplica e a forma
como olhava para ela, a fez se perguntar se estaria tendo algum tipo alucinação.
Caetano não esperou pelo convite,
entrou, fechou a porta atrás de si e permitiu-se simplesmente olhar para a
mulher que dominara suas fantasias.
Os
cabelos úmidos do banho continuavam curtos, porém. um pouco mais cheios e com
uma franja que a fazia parecer mais jovem. O vestido simples de algodão,
marcava as curvas pelas quais ele gemia noite após noite; os pés descalços
fizeram sua libido alcançar o limite da loucura. Nina, silenciosamente se
aproximou e tocou em seu rosto e ele fechou os olhos, deliciado com seu toque,
com sua proximidade.
- É você. É realmente você. – falava
mais para si mesma.
- Me diga que tem estado tão
torturada quanto eu Nina, que mesmo eu tendo agido como um ogro idiota, você
sentiu minha falta.
Ela sorriu delicadamente diante da
confissão dele.
Tinha
tantas perguntas. Como ele a havia encontrado? Por que realmente estava ali? E
tudo parecia pequeno e sem importância diante de um fato, ele se mostrava a ela
sem disfarces. O significado gravado naquele gesto fez seu coração aquecer
ainda mais. Ele confiava nela, confiava o suficiente para arriscar a vida
revelando sua verdadeira aparência.
- Não sei o que dizer, nem sei ao
certo o que pensar, sendo muito honesta, neste momento estou com medo de estar
entendendo tudo errado.
Marina
abriu seu coração
-
E se eu não estiver entendendo tudo errado, porque demorou tanto?
- Doce Nina. – sussurrou um instante antes de beijá-la.
A intenção de Caetano era ir
devagar, beijá-la com doçura. Porém no instante que os lábios se tocaram, todo
o desejo reprimido e insatisfeito, explodiu em
um vórtice de emoções e sensações descontroladas.
Nina
correspondia aos beijos com a mesma volúpia e paixão, despertando nele uma
ancestral e primitiva sensação de orgulho, por saber ser ele o único homem que
conseguia despertar nela a mulher passional e apaixonada, que se escondia por detrás da aparente doçura ingênua. Quando ela
arqueou o quadril ao encontro do seu, percebeu que estavam contra a porta, na
mesma posição de dois anos atrás.
- Nina – começou, ofegante – se não
quiser isto, essa é a hora para falar.
Deu
a ela a chance de dizer não, mesmo sabendo que
isso significaria ter um infarto ou talvez um AVC.
- Precisa saber, nunca estive com um
homem – confessou com a voz enrouquecida pela paixão.
Ouvir da deliciosa boca dela o que
ele já sabia, aumentou ferozmente seu desejo.
- Precisa saber que quero muito ser o homem
que a fará mulher.
Dessa
vez a iniciativa do beijo foi dela. Quando sentiu que ela puxava sua camisa
para fora da calça jeans, precisou de toda força do seu caráter, para detê-la.
Ela
o encarou visivelmente confusa.
- Fiz algo errado?
A
expressão desamparada no rosto feminino,
quase o fez esquecer suas boas intenções.
- Marina... não posso te oferecer um
romance. – A voz entrecortada pelo desejo – Conhece o suficiente da minha vida
para sabê-lo, te ofereço o agora. Se me quiser tanto quanto eu te quero, me
entregarei de corpo e alma a você, meu anjo. Mas tem que saber que amanhã posso
ser chamado para uma missão e você nunca mais ouvirá falar de mim.
Pronto,
agora ela me colocará na rua a pontapés e mereço coisa bem pior que isso, Ele
pensou.
Ele tinha dado a ela, mais do que
imaginava, a verdade.
- Se temos tão pouco tempo, não
desejo desperdiçá-lo conversando sobre o amanhã, tenho você hoje e para mim é
suficiente.
Quase
o chamara de Pedro novamente, porém conseguiu segurar o nome no ultimo
instante, não macularia o momento deles invocando o nome falso.
- Caetano Montessori –
disse seguro do que fazia.
Diante
da pergunta impressa nos olhos dela esclareceu.
-
Meu nome é Caetano. É esse nome que desejo ouvir dos seus lábios quando estiver
gritando no auge do prazer.
Estava
consciente do que havia feito, mas, de uma maneira que beirava a
irracionalidade, queria que ela desejasse estar com ele. O homem que ele era de
fato.
A grandeza do gesto dele fez o peito
dela doer.
Entregava
a ela a própria identidade. Uma identidade guardada a sete chaves. Apesar de
deixar claro que não podia oferecer nada, na verdade ele havia lhe dado tudo.
- Caetano, combina com você.
Pronunciou
pela primeira vez o nome tão incomum e singular como seu dono.
-
Faça amor comigo Caetano. – Ela pediu e ele deixou escapar um gemido, que mais
parecia um rugido.
Entre
beijos desesperados e caricias ardentes, tropeçado nos móveis e esbarrando nas
paredes, conseguiram chegar ao quarto dela.
Caetano explorou o corpo curvilíneo,
saboreando cada beijo, cada toque, cada gemido. Ouvir Marina pronunciar seu
nome entre gemidos e sussurros o deixava ainda
mais
excitado, se isso era humanamente possível.
A
ensinou a lhe dar prazer e para seu desespero descobriu que ela era uma aluna
curiosa e aplicada. Quando os corpos se uniram num só, a dor passageira logo
cedeu vez ao prazer da entrega absoluta de duas almas, que nasceram para se
encontrarem no ritmo tão antigo quanto o existir.
Marina nunca havia desconfiado de
quão intenso podia ser o ato de amor.
Não
era a toa que as vocações religiosas
diminuíam a cada dia! Pensou.
Como
uma mulher podia abrir mão de se sentir tão importante, tão completa e tão
amada? Quando achou que não aguentaria tanto prazer seu corpo explodiu de uma
forma ainda mais devastadora do que recordava da primeira vez.
Caetano não achava possível que a
realidade pudesse superar a fantasia que nutrira por dois anos, mas era
exatamente o que acontecia. Ao entregar-se de corpo e alma àquela mulher única,
experimentou o orgasmo mais intenso de toda a sua vida.
Quando seu cérebro voltou a
funcionar, algum tempo depois, se deu conta que seu peso estava todo sobre ela,
porém ao tentar se afastar, Marina apertou seus braços e pernas em volta dele.
- Sou pesado Marina, estou
machucando você.
- Fica só mais um pouquinho. – ela
pediu com aquele tom de voz que tinha o poder de tirar o que desejasse dele.
- Posso fazer um pouco melhor que
isso, meu anjo.
Disse
enquanto acariciava o rosto dela.
-
Tenho dois meses de licença, se quiser posso passá-los aqui com você.
Ele
sabia ser um erro dar-se essa concessão, mas reconhecia estar perdido.
- Dois meses? – o coração se
alegrou.
Seria
pouco para muitas mulheres, mas sabia que ele estava dando mais do que poderia.
Depois teria uma vida para chorar a ausência dele, agora viveria intensamente
cada momento ao seu lado.
- Marina, são apenas dois meses. –
ele teimou em esclarecer.
- Se dois meses são tudo o que temos
Caetano, então faremos com que seja perfeito.

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