sexta-feira, 20 de junho de 2014

O LADO BOM DE SER TRAÍDA - Capítulo 24

Paula

Se o Marco acha que engoli ele barrar-me no hospital para visitar aquela criatura, ele está muito enganado! Fiquei com ela na barriga por nove meses mudando todo o meu corpo, causando vários efeitos colaterais durante todo este tempo, detestei cada segundo, mas isso me dá os mesmos direitos que ele e isso ele não pode negar!

Esta gravidez foi um erro! A cegonha deveria ter mandado o bebê por Sedex 10, seria mais fácil e não teria sofrido tudo o que sofri. Porém, papai repetia o tempo todo: "eu quero um netinho para mimar!". É claro que não perdi a chance de tirar mais dinheiro do bom velhinho. Apesar de meu mundinho feliz correr riscos, acabei aceitando e contando ao Marco, que ficou muitíssimo feliz. Nosso casamento não foi um conto de fadas, ele é muito romântico, chegava a ser meloso, mas vivíamos em um mundo de faz de contas.

Lembro-me até hoje como meu marido perfeitinho ficou quando recebeu "a boa notícia":

- Paula, estou extremamente feliz por esta notícia. Finalmente teremos uma criança para alegrar nossa casa.

- Como assim alegrar? Por acaso a nossa casa é sem graça? É isso mesmo?

- Claro que não meu bem, é só uma forma de falar. Crianças sempre são bem-vindas. Quero muito contar para os meus pais.

- Conta mesmo, eles dirão que é golpe do baú - Resmunguei.

- Não entendo essa birra que você tem dos meus pais, acho que é coisa da sua cabeça. Você nunca faz nada para se aproximar muito pelo contrario faz tudo para afastá-los. 

- Ok! Mas vamos falar dessa coisinha que está aqui e me dará trabalho por 9 meses: Quero ser recompensada querido! De preferência no Shopping e amanhã! Se esta gravidez tem que trazer benefícios, que venham na forma de jóias caras, sapatos importados, bolsas e roupas de grife... Enfim, não vou deixá-la me desestruturar como mulher.

Toda a “Alta Sociedade” de São Paulo invejava nossa felicidade. Nossa vida social era perfeita, mas quando esta criança apareceu, meu marido mudou completamente, alegando querer meu bem estar, diminuiu o ritmo da ida aos eventos que costumávamos frequentar quase que diariamente.

Acabou virando um saco os primeiros dois meses de gravidez; ele ficava todos os dias supervisionando se eu estava tomando aquela droga daquele ácido fólico e as vitaminas, como se isso fosse fazer alguma diferença... Eu que não ficaria tomando essas drogas e acabaria igual àquelas grávidas balofas, que todo mundo fica com dó, porque estão enormes e inchadas...

E a cada ultrassonografia então, ficava todo eufórico, achando que logo saberíamos o sexo da criança.

- Paula, vamos! Não quero me atrasar para sua ultra-som. Nem parece que está ansiosa para saber o sexo do nosso bebê.

E foi neste dia que tudo desabou. O dia em que descobri que não carregava um bebê perfeito e sim uma criatura.

O Marco parecia um idiota emocionado querendo me convencer que era um lindo presente divino.

Presente? Divino? Isso para mim era um castigo, e um belo de um castigo! Minhas amigas iriam rir de mim, me olhariam com pena, e só de pensar no que as pessoas pensariam, de não ser capaz de gerar uma criança normal, fiquei com a auto-estima lá embaixo.

Nada abalou o Marco. O tempo todo ele trazia presentes para a criança estranha, como se não soubesse que nada de bom viria dali.

Cada vez que ele chegava perto de mim para conversar com minha barriga e contar como foi seu o dia para ao bebê, me dava vontade de rir.

Perdi as contas de quantos médicos visitamos, para sempre comprovar o quê eu já sabia: Teríamos uma criatura estranha, isto é, se ela sobrevivesse pelo menos uma hora depois de nascida.

Todas as vezes que tocava no assunto e tentava convencê-lo de que seria melhor interromper essa gravidez e voltar ao nosso mundinho onde só havia ele e eu, ele todo carinhoso dizia que não; que tínhamos sido abençoados com um bebê especial, por que Deus sabia que éramos pais especiais. Especiais... Sei sim. Se ele queria esse “serzinho”, ele que cuidasse sozinho! Eu que não iria passear no Shopping ou em qualquer outro evento ou lugar, onde as pessoas fossem me olhar com aquela carinha de pena ao notar aquela criatura comigo.

Juro, tentei desfazer-me dela, mas meus pais começaram a desconfiar e a vigilância sobre mim aumentou.

Não conseguia entender por que o Marco queria que eu continuasse sofrendo e engordando, se no fim teríamos um ser vegetativo; isso mesmo, foi assim que os médicos sempre falaram. Depois de tudo, já nem prestava mais atenção às orientações médicas, entravam por um ouvido e saiam pelo outro.

Os meses foram passando, e com eles meu desespero aumentava cada dia mais. Estava tão fora de mim, que busquei no Dr. Google algumas receitas do tipo: "Como abortar uma criatura que não é uma criança normal"? Obviamente não achei nada. Porém, para o aborto encontrei receitas de chás de ervas amargas e estranhas, que poderiam provocar um aborto espontâneo. Mas a idiota da Nana pegou-me no ato, não deixando que concluísse minha missão. Todos os meus planos nunca davam certo, ela sempre estava ali, parecia que ficava investigando se eu estava ou não fazendo as coisas certas.

Sem contar meus pais, que estavam com os olhos estreitos para pegar-me em qualquer furada. Até segurança eu tinha agora na minha cola. Não podia sair na esquina sozinha e sentia-me em cárcere privado.

A gota d'água foi quando a abestalhada da Nana contou ao Marco que eu não estava tomando o ácido fólico e as vitaminas. Para aumentar o drama, ainda por cima fez todo um teatro chorando, dizendo que eu fazia tudo para interromper a gravidez.

E foi aí que a merda foi lançada no ventilador. O Marco ficou transtornado.

- Paula, você está sendo egoísta! Nosso filho no seu ventre depende de você. E mesmo assim, tenta desfazer-se dele como se fosse um nada? Pois a partir de hoje você será monitorada. - No início não entendi do porque dos seguranças enviados pelos seus pais, mas agora entendo tudo perfeitamente. Eles conhecem a garota mimada que criaram. 

Marco continuou:

- Saiba de uma coisa; se fizer qualquer coisa contra nosso filho, você será presa, e está atitude partirá de mim, fui claro?

Mas que droga! Será que ninguém entendia que todo esse amor que estavam alimentando era uma ilusão? As porcarias das ervas não estavam fazendo mais nenhum efeito, até que tive a brilhante ideia; Decidi provocar um acidente! Isto mesmo. Infelizmente para mim, a única coisa que aconteceu foi um joelho ralado, dores no corpo e uma luxação no pulso esquerdo.

Todos os deuses resolveram sambar na minha cara e rir da minha desgraça. Pois até a merda do pseudo-acidente foi descoberto, graças ao sistema interno de vigilância. Havia câmeras em todos os lugares. Estava me sentindo no BBB, porém sem a chance de ganhar um milhão. Casar com um Juiz têm dessas coisas: seguranças por todos os lugares.

No quinto mês descobrimos que seria uma menina, e quando saímos do consultório, Marco teve a ideia idiota de perguntar-me qual nome daríamos à criança. Claro que surtei né!?

- Nome? Você acha que estou pensando em nome? A merda desta criança viverá 01 hora se muito. Você acha que vou parar para pensar sobre isso? Aliás, o nome pode ser Criaturazinha! O quê acha? Está satisfeito seu paspalho?

Acabamos discutindo uma vez mais e no afã do momento, ele confessou desejar que o nome dela fosse Vitória. Não sei como não ri. Como ele queria dar nome ao bebê, se nem sabíamos nada sobre o futuro ainda? Vitória por quê? O que ela venceu para merecer este nome?

No dia seguinte o clima ainda estava gelado entre nós. Ele me olhava com cara de desprezo e no fundo, eu sabia que era por que não fui capaz de gerar um bebê perfeito para ele. Eu era uma esposa exemplar, sempre estive linda pra ele. Para piorar toda a situação, Marco flagrou uma discussão minha com a Nana; a velha queria que eu ajudasse a separar as roupinhas masculinas que tínhamos ganhado dos nossos amigos e que ele tinha comprado, para doar para uma instituição. Por mim, queria que ela jogasse tudo no lixo!

Se ela queria doar, que pegasse as roupas ela mesma e levasse. A empregada era ela, não eu!

Minhas amigas não sabiam do meu drama. Proibi qualquer um de comentar sobre isso, porém ninguém me escutou como sempre. Quando finalmente, depois de 2 semanas sem comparecer em nenhum evento badalado da cidade, fomos para o aniversário da Glorinha, um evento mega chique. Me arrumei como pude, minha barriga não tinha cinta que resolvesse, tive que assumir a gravidez.

- Glorinha, minha linda! Sua festa está um arraso, como sempre!

- Oooh Paula minha querida, que bom que pôde vir. Venha sentar- se. No seu estado não pode ficar em pé por muito tempo. Como assim? Estou sentindo um tom de pena por aqui?

- Amada, estou grávida e não doente. Sinto-me ótima! Vamos andar, pois quero falar com os demais.

- Querida, sei de tudo que está passando em sua gravidez. Fiquei chocada quando soube. Inclusive, falei com as meninas; Clara, Marcelinha, Olívia e as mais próximas, para que juntas te apoiássemos neste momento difícil. Vi tudo preto... Ela já sabia? Todas já sabem? Pronto, virei à piada da noite!

Fiz a melhor cara de paisagem que consegui e respondi: - Glorinha, a gravidez está ótima. Não se preocupe.

- Paula, não se faça de forte, sabemos da doencinha da sua filhinha. Mas estamos aqui para te apoiar. Sei que todos comentavam que a junção da sua beleza com a de Marco formaria filhos lindos, mas não se abale por isso.

Respirei fundo, contei até 10, e só não fiz um escândalo por esta humilhação toda, porque sou RYCA e PHYNA. Mas queria matar o Marco! Aquele fofoqueiro, espalhou para todo mundo a doença desta criança ridícula. Meu Deus, não mereço isso!

Parei de lutar contra o inferno que tornou-se minha vida. Forçadamente resolvi aceitar o circo em que minha vida transformou-se e decide convencer á todos que estava começando a mudar. Apenas com o meu talento artístico poderia safar- me deste problema que tornou-se minha gravidez. No início o Marco desconfiou, porém o amor que sempre demonstrou sentir por sua filha falou mais alto. Começamos a retomar nosso relacionamento, infelizmente não como marido e mulher, pois ele evitava tocar-me. Não me lembro da vez última vez em que fiz sexo! Já nem sei como se faz, pois todas as noites ele tinha desculpas prontas: "Estou no trabalho", "Estou ocupado"... Até a desculpa clássica de toda mulher ele roubou: "Estou com dor de cabeça". Para minha infelicidade, até em nosso quarto ele já não dormia mais. Tentei de tudo para reconquistá-lo; até lingerie sexy com esta barriga enorme eu encarei, mas simplesmente nada o fazia ficar ao meu lado como homem para saciar os meus desejos - já que os hormônios estavam me enlouquecendo. Só me tocava para falar com a "filhinha" dele.

Minha vida já estava parecendo novela mexicana! Nos últimos dias da gravidez, antes do parto, Marco descobriu meu plano; o gerente do banco ligou para ele perguntando se tinha dado tudo certo. Sem entender o telefonema, ele acabou investigando do que o gerente falava e descobriu que eu já tinha alugado um apartamento. Confesso que às vezes dou chance pro azar. Eu tinha que pedir uma carta fiança para o gerente da nossa conta conjunta e foi aí que fui descoberta.

Bom, acabei confessando que estava cansada do nosso casamento fracassado e com a distância dele comigo. Que só me via como a "carregadora" de sua filha, e não como sua esposa, mulher e linda como sempre fui. Disse que se aquela coisa sobrevivesse, quem iria cuidar dela seria ele sozinho. Eu não tinha estômago para fingir mais, precisava desabafar.

Não demorou muito para eu ser levada ao Tribunal de Exceção que tornou-se a minha família. Todos ficaram horrorizados, como se eu estivesse cometendo um crime hediondo, e é claro, não aceitaram a minha decisão. Meu pai foi o primeiro a declarar que eu estava fora do testamento e que a partir daquele momento, não receberia nenhum dinheiro vindo dele ou de minha mãe.

Não tinha nada a perder, então me fiz de louca e mudei para o apartamento que já estava com alguns meses pagos, graças ao meu digníssimo marido que me concedeu desde o início do casamento, o benefício da nossa conta conjunta. Tinha certeza que eles cederiam e acabariam pedindo desculpas com o passar dos dias, mas nada disso aconteceu.

Em uma manhã sozinha, acordei com dores insuportáveis e como solução, tomei todos os remédios que encontrei na minha frente. Foi a última coisa da qual me lembro, até acordar em um quarto de hospital com uma senhora de branco dizendo que o bebê estava na UTI Neonatal, e que meus pais e meu marido, já encontravam-se a caminho do meu quarto. Não entendi nada, pois ainda estava grogue. Ela falou em bebê? Então, a criatura tinha nascido viva! Surpreendente não?

Quando eles entraram no quarto com aquelas caras de felicidade e emocionados, minha reação foi única. Depois de tudo que fizeram comigo, eles não imaginavam que eu iria ceder tão rápido né? Ou acharam?

- Fora daqui todos vocês, não quero saber se essa coisa vai viver mais uma hora, um dia ou um mês. Não quero saber de nada! A única coisa que quero é sumir daqui, assim que estiver recuperada. - E quanto a vós, Excelentíssimo Sr. Meu marido; fique com seu conto de fadas e deixe-me em paz! 

Pelo menos respeitaram meu momento e sumiram da minha frente. Mas minha mãe teimosa, insistia em falar comigo nos dias seguintes e eu sempre joga em sua cara a mesma coisa:

- Vocês são meus pais, nunca deveriam ter ficado do lado dele!

Quando recebi alta do hospital, minha mãe veio me buscar e não permiti uma só palavra dela. Não queria ouvir sermões ou conselhos de ninguém!

Todos os esforços incansáveis de todos os médicos, enfermeiros e psicólogos não foram suficientes para convencer-me a querer conhecer aquela criança.

Voltei sozinha para meu apartamento. Sem dinheiro, infelizmente tive que voltar a trabalhar, ou pelo menos fingia. O escritório não me demitiria nunca - com o sobrenome que tenho e do berço que venho, contatos não me faltariam.

Porém, essa vidinha de prazos, trabalho, petição, cliente chato, judiciário lento, definitivamente não era pra mim. Não nasci para pegar no pesado: nasci e fui criada para ser tratada como uma rainha; com mordomias e sem quebrar uma unha para receber tudo do bom e melhor!

Mas a minha reviravolta está próxima. Voltarei a ter a minha vida confortável de antes e arrancar dinheiro do meu pai será o meu primeiro ato. Depois vou ter o Marco de volta - pois essa situação de divorciada não é bem vista em nosso meio econômico e social.

Ainda bem que o Marco só tem olhos para a filha e não se engraçou com algum rabo de saia. Isso facilitará meu caminho. Agora é só colocar meu plano em prática e passar por cima de qualquer um que tentar me atrapalhar.



Um comentário:

  1. SUE,AGRADEÇO DEMAIS POR ESTAR CONOSCO,
    E NESSE DIA TÃO ESPECIAL,FICO FELIZ EM TER MAIS UM CAPÍTULO DESSE ROMANCE ENVOLVENTE!

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