Capítulo 5
Na manhã seguinte
Bourregard contemplava a beleza única do
amanhecer gaúcho com seus sons e cheiros enquanto, oculto, observava o
despertar da casa em estilo colonial.
Uma construção antiga, conservada, que parecia anunciar ao mundo sua força
e resistência.
Seus olhos percorreram desde as paredes
brancas, as janelas azuis com jardineiras floridas,
o jardim bem cuidado e úmido pelo orvalho da manhã. O alpendre onde duas confortáveis poltronas denunciavam o hábito de seus moradores de ali contemplarem o por do sol.
o jardim bem cuidado e úmido pelo orvalho da manhã. O alpendre onde duas confortáveis poltronas denunciavam o hábito de seus moradores de ali contemplarem o por do sol.
Sentiu o peito apertar ao recordar o momento, em que enxergara o anel de
brilhante no dedo anelar da mão esquerda de Alicia. Quando de maneira desajeitada
ela pediu licença e se afastou num passo apressado, que foi interceptado pelo
homem que ele descobriu, mais tarde, ser o delegado da cidade. O homem pertencia
a uma família rica da região das serras gaúchas.
O homem que apesar de não conhecer, odiava com todas as suas forças.
Alicia estava casada!
Ele deveria estar preparado para isso depois de dez anos, mas não estava.
Cristo! Como havia doído ver aquela joia no dedo dela e aquele homem a
tratando com tanta familiaridade!
Ano após ano procurando por ela.
Fantasiando que ela procurava por ele para descobrir...
Droga! Resmungou em pensamento.
Não aceitava o fato de ela pertencer a outro homem.
Sua reação era irracional, para dizer o mínimo. Sem nenhum argumento
coerente, e ele teve a noite toda para buscá-los!
Nada conseguia acalmar a ira, que subia de suas entranhas, toda vez que
imaginava aquele sujeito tocando sua mulher! Sim, porque em sua mente, coração
e alma, ele pertencia a ela e ela a ele.
Seus olhos buscaram a visão que o havia embevecido
quando chegara.
Atrás da casa estava o vinhedo.
A plantação não era grande, a verdade ocupava uma área modesta, se
comparado a propriedades que produziam vinho em grande escala, mas suas
pesquisas, na noite anterior, revelaram duas surpresas. Naquele vinhedo era
produzido um dos melhores vinhos artesanais do mundo. O nome da vinícola ainda
trazia um sorriso a seus lábios: 7Lendas. A marca da propriedade só poderia ser
uma referência a eles, que usaram os nomes dos astros do rock na época de seu
resgate.
Como éramos imbecis! – Pensou.
O som de uma porta sendo aberta chamou
sua atenção. Com a respiração suspensa a viu sair para a varanda que dava para
o vinhedo. Deixou-se embriagar pela a visão da mulher na qual ela se
transformara.
Os cabelos castanhos, muito longos,
chegavam quase à cintura. Estavam soltos, sedosos, ondulados e agora possuíam mechas mais claras.
Permitiu-se um demorado passeio pelo corpo esguio e delicado, que vestia
uma longa saia azul escura e uma blusa branca. Para se proteger do ar gelado do
amanhecer, ela usava uma espécie de xale sobre os ombros.
Apesar da distância, sabia pelo encontro da
noite anterior, que a pele dela estava tão delicada como se lembrava. Sem as
marcas do cativeiro, parecia ainda mais sedosa mais macia. Sentiu o coração
acelerar ainda mais ao recordar os olhos de um verde escuro incomum, que os
fitaram com a mesma intensidade, que no dia em que ele a tirou da jaula das
Farc.
Assim como na noite anterior, ela usava
braceletes em ambos os braços. Os de ontem era jóias, os de hoje, pareciam ser
de couro e ele sabia o motivo pelo qual ela os usava.
Para esconder as cicatrizes dos pulsos.
Pensar que ela carregaria, por toda vida, as marcas que a fariam recordar
todo horror pelo qual havia passado, o fez desejar poder matar os desgraçados
novamente.
Quando ela respirou fundo, o movimento do seio, seguindo a respiração, o
encantou.
Queria se aproximar, tocá-la, tê-la novamente em seus braços, nem que
fosse uma última vez.
Cristo, estou enlouquecendo! – Pensou,
sentindo a dor no peito aumentar.
Tinha tantas perguntas sem respostas...
Como ela acabou dona de um vinhedo?
Porque não estava com a família?
Como aquele homem entrara em sua vida?
Eles tinham filhos?
- Merda - Praguejou em voz baixa.
Porque ela não procurou por ele? Em pensamento fez a pergunta que estava
evitando desde que a tinha visto nos braços do delegado.
Dez anos é muito tempo!
Sua mente gritava a resposta que fazia seu peito sangrar.
***************
Dez anos são muito tempo!
Alicia murmurou para si pela milésima vez desde que reencontrara Hendrix,
ou melhor Bartolomeu, como Álvaro o apresentara, ou Bart como ele mesmo tinha
dito ao tocar sua mão.
Da varanda do seu quarto, contemplou o
vinhedo, com toda sua beleza e suavidade.
Inspirou o ar frio da manhã, na tentativa de acalmar seu coração, mas
tudo foi em vão. Passara a noite em claro, dividida entre a necessidade de
esconder-se embaixo dos lençóis, para fugir do que o destino lhe tinha
reservado e a esperança teimosa que de que ele viria atrás dela.
- Ele não veio - Disse baixinho e
respirou fundo mais uma vez.
O que você esperava? Que ele viesse correndo, batesse em sua porta e fizesse
uma declaração de amor? - Retrucou em pensamento, não se esquecendo do sarcasmo,
dirigido a si mesma.
O que sabia sobre ele?
Não sabia sequer o nome verdadeiro dele!
Estava com medo - Confessou a si mesma em pensamento.
Durante todos esses anos tivera medo de
perguntar por ele a Álvaro e depois à Alberto. Tivera medo de descobrir que ele
era casado, que tinha filhos, que ela nada significou...
Que a noite de amor, que guardada com tanto carinho na memória e no
coração, para ele, não havia passado de um gesto de caridade, com uma jovem tão
fragilizada, que ele, por compaixão, não conseguira rejeitar.
Fugir a noite passada fora um ato covarde
e seu terapeuta certamente a condenaria. Mas a outra alternativa, era ainda
pior, pois se tivesse permanecido no mesmo lugar que ele, não tinha certeza se
seria capaz de evitar jogar-se em seus braços, do mesmo modo que fizera naquela
noite há dez anos.
Nossa... Como ele estava bonito!
Os últimos dez anos deram a ele uma maturidade sensual que deveria continuar
a ser proibida por lei. A pele negra
perfeita, os olhos pequenos e escuros e a boca grande, com lábios firmes, que
ela recordava, sabiam como beijar...
Ele era um homem alto, com músculos na proporção exata, mãos que sabiam
como tocar uma mulher.
Fechou os olhos, como tantas vezes fizera e se transportou para aquela
noite. Apesar de tanto tempo tendo se passado, parecia sentir o toque dele em
sua pele.
O som de um carro se aproximando fez seu
coração dar um salto.
Desceu as escadas, deu a volta na casa para ver quem era seu visitante
matinal. Ao avistar o automóvel tão conhecido, não conseguiu dominar a decepção.
Era patética, por acreditar que ele viria atrás dela! – resmungou para si
mesma.
Ao ver Bento descer do carro com o
familiar sorriso no rosto, sentiu-se culpada por sua decepção. Fora ele quem a
trouxera para casa e havia respeitado seu silêncio, apesar de ter certeza que
ele não engolira sua desculpa, de que seu mal estar, se devia a uma súbita
queda de pressão.
Respirou fundo, mais uma vez, conseguiu colocar um sorriso no rosto e
caminhou em direção do recém-chegado.
*******************
Bourregard sabia que não estava sozinho
em sua observação, já há algum tempo. Mas não estava preparado para encarar o
homem, que estava a alguns passos atrás dele, sem que fizesse uma grande
besteira, como quebrar a cara do sujeito.
Seus pensamentos referentes ao intruso
foram interrompidos, quando surpreso, viu o carro do delegado entrar na
propriedade. Até aquele momento acreditava que o homem estivesse dentro da casa
com ela e esse fora o único motivo pelo qual ficara a noite inteira do lado de
fora, observando a casa na tentativa de vê-la novamente.
A maneira formal como se cumprimentaram acendeu
todos os alertas dentro dele.
Será?
Uma esposa não recebia o marido com um aperto de mão, ou recebia?
O que ele sabia sobre casamentos?
Sentiu a ira ferver mais uma vez ao vê-los entrarem na casa, não queria
aquele homem perto dela.
- Você vem com a gente, ou não? - Caetano
perguntou num tom de voz mal humorado.
Não sabia exatamente o que acontecia aqui, mas sabia que tinham que sair
em missão, somente algumas horas depois de pedir Nina em casamento. Deixar os
braços de sua mulher, ainda mais cedo do que era necessário, para ir atrás de Bourregard,
que estava vigiando a casa de Alicia, não fazia parte de seus planos.
Bo fechou os punhos que queria arremessar
contra o homem e ficou de frente para ele.
- Porque não me contou? - Perguntou num
tom de voz semelhante a um rugido.
Sabia que sua expressão era feroz e não tentou disfarçar o quanto furioso
estava com os irmãos Montessori. Durante todos esses anos, eles souberam onde
ela estava e nunca disseram nada ele!
Álvaro a escondera do mundo, a escondera dele...
Caetano respirou fundo.
- Porque você não nos contou? - Devolveu
a pergunta – Sabíamos que havia sido protetor com ela, mas isso? - Fez um gesto
impaciente com as mãos – Nunca desconfiamos de nada Bo. Depois que ela foi
embora, você agiu como o cara de sempre e não como o homem que olhou para ela
ontem com desespero. Eu não sabia cara. Não fazia ideia... Nenhum de nós fazia.
******************
Caetano lhe dera uma hora...
Uma mísera hora para estar com ela e essa hora estava sendo desperdiçada.
Oculto entre as sombras do cômodo da casa colonial, que ela usava como
escritório, impaciente observava Alicia
conversar com o homem responsável pelo gerenciamento do vinhedo. Acertavam
detalhes que iam desde o armazenamento dos vinhos engarrafados, à visita semanal
de turistas a propriedade. Enófilos que pagavam para conhecer o processo de
produção do vinho artesanal e para degustá-lo, no que ela e o administrador
chamavam de loja de vinhos.
A mulher sentada atrás da grande mesa de
mogno, entalhada com detalhes do século XIX, que discutia custos, ouvia com
atenção as propostas do empregado e sugeria com propriedade, alternativas para
as dificuldades comuns ao dia a dia da vinícola, o deixou orgulhoso. Porém,
ele, perito em ler as reações e emoções do outros, ela não enganava: existia um
nervosismo disfarçado, mascarado pela eficiência prática.
Tudo isto endossava as informações
fornecidas por Caetano: ela era extremamente reservada, nunca falara com
ninguém sobre o passado, nem mesmo com Nina que tinha um jeito todo dela de
arrancar confissões das pessoas. Sentiu suas entranhas revirarem ao recordar o
momento que Caetano lhe revelara que ela não estava casada com tal delegado,
nem envolvida com homem algum. Nunca se perdoaria pelo tempo perdido, porra. Perdera
dez anos por não pedir ajuda, por não confiar...
Estava prestes a agarrar o administrador pelo colarinho e
jogá-lo porta afora, quando a viu se levantar e seguir com o homem até a porta
de entrada e observou os passos delicados dela retornando ao escritório. Como se nada no mundo fosse mais importante ela recolheu os documentos
que estavam espalhados sobre a mesa, a visão da pele pálida do colo exposto
pelo decote recatado demoveu qualquer pensamento coerente da sua mente, ela
parecia um anjo.
Alicia estava de pé organizando os documentos usados na reunião com o
administrador quando ouviu o som de “click” da fechadura. Tudo o que não
precisava agora era de mais duvidas do administrador, cansadamente voltou a
cabeça em direção da porta e sentiu o tempo parar, os papéis deslizaram dos
seus dedos, esquecidos ao chão, sequer ousava respirar, tinha medo de se mover
e ele desaparecer, desejou tanto esse momento, que sua mente insana conjurou o
homem que vinha agora em sua direção, o caminhar lento e confiante como de um
felino, o olhar intenso nunca deixando o seu. Ele estava vestido de preto,
exatamente como no dia em entrou em sua vida a resgatando do inferno.
Ele parou a alguns centímetros dela, e que Deus a ajudasse, podia sentir
o perfume exato da pele dele, o odor da pele máscula a envolveu, estavam tão
próximos que se sentia tocada pela energia dele. Ela não conseguia pensar,
somente olhar para ele. Tinha tanto a dizer, tanto a perguntar... Deus...
precisava de ar... pensamentos vagavam pela sua mente, perguntas a assaltavam,
porque ele não viera atrás dela em dez anos? Como era o nome verdadeiro dele?
Tinha medo de saber, a ignorância era mais segura que as respostas, não
desejava saber se ele era casado, se tinha filhos e uma esposa apaixonada
esperando por ele em algum lugar, só de imaginar essa possibilidade sentia a
dor esmagá-la por dentro...
Tinha que alertá-lo sobre o quanto Bento estava
desconfiado da presença deles em Vitória da Esperança, precisava relatar a
visita do delegado mais cedo e pedir para ele tomar cuidado, porém seu corpo e
mente estavam embriagados pela proximidade dele, rezou em pensamento, pedindo a
Deus ele realmente estivesse ali, que não fosse uma alucinação e emocionada
escutou a resposta a suas preces…
- Respira. – ele disse com a voz rouca, ao
mesmo tempo em que tocava sua pele exposta pelo discreto decote da camisa que
usava, e ela sentiu o corpo derreter sob seu toque e perdida na profundidade
dos olhos negros, respirou.
Tocá-la foi seu erro... A pele estava morna, sedosa sob
seus dedos e encantado seguiu com os olhos o movimento dos seios quando ela
respirou fundo...Tinham tanto a dizer um ao outro... E, no entanto, não deseja
profanar aquele momento com palavras...
Enfeitiçado, deslizou lentamente a mão
que tocava a pele delicada do colo perfeito para tocar os sedosos fios
castanhos dos cabelos, sentiu a textura e inspirou o perfume que permanecera
arraigado em sua memória e
a viu ofegar.
Cristo! Como era bom estar com ela. Pensou
deliciado pelo tom rosado que tingia a face de traços quase etéreos. Ela
parecia um anjo... O pensamento retornou a sua mente. Seu anjo...
Encerrando dez longos anos de espera, se
aproximou ainda mais enxergando nos olhos verdes o mesmo desejo e antecipação
que gritavam em seu interior e isso foi mais do que pode suportar... Um gemido
estrangulado escapou de seus lábios pela longa espera e quando sua boca e a
dela se encontram, dez anos de expectativas explodiram e tudo ficou fora de
controle.
Ele se sentia como um homem perdido no
deserto, que vagara um longo tempo sob o sol escaldante e finalmente encontrara
seu Oasis. Incapaz de resistir colou o corpo ao dela e aprofundou o beijo, o
suspiro deliciado dela foi sua perdição. Era um homem sedento do sabor e do
calor daquela mulher e extasiado, entrelaçou os dedos em seus cabelos, tomando
cuidado para não a machucar, para não assustá-la. Eram tão macios, tão
cheirosos... Alicia cheirava a paraíso e chuva de verão, pensou.
Os beijos se sucediam, um mais exigente
que o anterior, até que beijar não era o bastante e mesmo sobre as roupas, suas
mãos passeavam pelo corpo esguio, tocando, provocando e a resposta dela foram
os mais deliciosos gemidos que ele ouvira na vida.
Desesperado para senti-la ainda mais
perto, a sentou sobre a mesa centenária, no mesmo instante as pernas dela,
livres pela ampla saia, enlaçaram sua cintura e ele sentiu uma primitiva
sensação de orgulho por constatar que não era o único fora de controle ali.
Alicia sentia como se existisse um vulcão
em erupção em seu interior, a cada beijo, a cada carícia seu corpo ardia ainda
mais, sentia-se consumir. Nossa como sentira saudades dele... Como sentira falta
daquele olhar cuidadoso que parecia garantir que nada de mal lhe aconteceria...
Estar com ele era como voltar para casa, seu lugar no mundo de onde não desejava
sair jamais.
Quando dedos hábeis abriram sua camisa e
tocaram seus seios por cima do despretensioso sutiã de algodão, um tremor de
prazer percorreu todo seu corpo. Desejara isso tanto e por tanto tempo...
Ele estava faminto, faminto do corpo
dela. Bourregard não conseguiu conter o gemido ao sentir o toque das mãos
delicadas sob sua blusa, como era bom ser tocado por ela. Cristo como sonhara
com isso! Pensou.
Quando deu por si, suas mãos estavam sob
a saia, tocando a roupa íntima dela e a realidade bateu nele com uma força
aterradora. Essa era Alicia, a mulher para quem entregou sua alma. Ela merecia
muito mais que uma rapidinha na mesa do escritório, antes que ele saísse em
missão. Pensou e com a sensação de que morria por dentro, encerrou o beijo. Foi
a decisão mais difícil de sua vida.
- Alicia. Sussurrou ofegante, encostou
sua testa na dela e mirou os olhos verdes brilhantes e confusos. – Não posso
ficar, eu queria poder, mas não posso. – Disse sentindo pela primeira vez todo
o peso pelo estilo de vida que escolhera. – Preciso ir. Esclareceu vendo que
ela ainda não havia entendido.
- Ir? Alicia não conseguia entender o que
ele dizia, sua mente talvez entendesse, mas o coração não. – Aonde? Quando?
- Estou em missão, os caras estão me
esperando. Se fosse sua vida a arriscar ele não pensaria duas vezes, mas não, a
missão estava pensada e elaborada nos mínimos detalhes e cada um deles era
importante. Se ficasse e desfalcasse a equipe, alguém poderia sair ferido ou
pior...
- Agora? Ela sentiu seu peito afundar.
- Daria minha vida para ficar com você,
mas sabe o que fazemos Alicia... não posso... droga, não posso. Disse enquanto
fechava os botões da blusa dela que ele mesmo tinha aberto.
Alicia não conseguia responder, nem
assimilar que ele estava indo embora, apenas alguns minutos depois de despertar
nela toda aquela necessidade que estava adormecida há anos.
- Não sei exatamente quantos dias ficarei
fora, mas estaremos aqui no máximo em quinze dias para o casamento.
- O casamento da Nina e do Alberto é
daqui a quinze dias? Ela o interrompeu e perguntou ainda perdida, sentindo seu
orgulho e sua alma feridos. Desceu da mesa e fugindo do olhar que lhe abrasava
corpo e o espírito, fingiu alisar a saia – Não se consegue planejar um casamento
descente em quinze dias. Escondeu-se em um assunto seguro.
- Alicia, voltarei o mais rápido que puder,
prometa que me esperará. Ele pediu, não permitindo a ela fingir que os minutos
anteriores não haviam ocorrido.
Alicia buscou a janela mais próxima e se
refugiou na vista do vinhedo, não tinha forças para olhar para ele sem se
desmanchar em lágrimas. Ele estava indo embora, ele a beijara e partia como se
nada houvesse ocorrido...
- Para onde eu iria, eu moro aqui, Vitória
da Esperança é meu lar. Respondeu sem olhá-lo.
Bo estava abalado e desesperado demais
para lhe permitir essa fuga. Foi até ela, tocou em seu queixo e fez olhar para
ele.
- Me prometa que estará aqui quando eu
voltar.
Alicia ouvia a mesma voz de comando de
quando ele exigira que ela não olhasse para trás ao deixar o santuário e isso
rompeu seu coração. Pois ele sequer desconfiava o quão difícil foi ir embora
sem olhar para trás, sem saber se o veria novamente sem a certeza que estaria
tão segura quanto estivera sob os cuidados dele. Balançou a cabeça num dolorido
e discreto sim.
Enxergar a decepção nos olhos verdes era
pior que levar um tiro e ele tinha experiência para fazer a comparação... Com o
peito sangrando, a beijou desejando demonstrar tudo o que sentia, o quão
difícil era deixá-la, queria que ela percebesse que se tivesse escolha,
escolheria estar com ela, mas logo em seguida deixou a casa da mesma maneira
invisível que entrara.
Mirando a janela pela qual ele saíra,
enquanto lágrimas silenciosas lhe escorriam pela face, Alicia sentia que todo
seu corpo chorava, que seu espírito e alma também se consumiam na dor. Ele
sequer havia dito a ela seu verdadeiro nome.
Bourregard chegou ao local combinado se
sentindo ainda pior do que no dia em que vira o avião levar Alicia para longe
de sua vida, até aquele momento, ele podia jurar que isso não era humanamente possível,
Ficou agradecido por ver Caetano sentado
ao volante do carro designado a ele, não que quisesse a companhia de alguém,
mas tão pouco queria dirigir.
- Porra, como consegue? Perguntou ao
entrar no carro, sem dar-se ao trabalho de olhar para o homem que já estava ao
volante e nem explicar sua pergunta.
- Não fica mais fácil com o passar do
tempo. Caetano disse também olhando para frente, nenhum dos dois com humor para
amenidades – Se escolher ficar ninguém vai te julgar. Um pesado silêncio tomou
conta do interior do veículo – Quando estiver pronto para voltar seu lugar
estará reservado. estava desconfortável, não liderava essa equipe para lidar
com toda essa merda, tinham uma missão infernal para dizer o mínimo.
Bourregard realmente ficou surpreso com o
que ouvia, nem mesmo o homem a seu lado, chefe da equipe e dono da empresa,
abandonara uma missão por Nina.
Ele e os demais membros das equipes
assinaram documentos, em que afirmavam desistir de uma vida pessoal, de
família, esposas ou maridos, viviam para as missões e eram muito bem pagos por
isso. O que o homem ao volante lhe propunha era mais que uma concessão
profissional, era o apoio de um amigo, que colocava a própria vida em risco por
ele e isso significava muito.
- Somos mais que uma equipe, somos uma
família. Vamos derrubar uns caras maus e voltar para o seu casamento, é isso
que faremos. Bourregard disse ao colocar o cinto de segurança. A resposta de
Caetano foi dar partida no carro.
- A Nina pediu para te avisar que será
nosso padrinho ao lado da Alicia. Falou com uma expressão irônica, enquanto
punha o carro em movimento, sem deixar de enxergar a expressão chocada do homem
sentado lado. – É bom que tenha um terno.

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