Capítulo 6
Alicia acordou no dia seguinte, sentindo
como se um caminhão tivesse passado por cima de seu corpo, dado ré e passado
novamente. Os pesadelos sobre o tempo que passara sob o domínio das Farc
voltaram a assombrá-la depois de sete anos de ausência.
Deus! Fora tão real...
O sentimento de medo, de dor, o desejo ardente de morrer...
Chegara a sentir o odor fétido da cela e de seu próprio corpo, que era
uma mistura de suor e sangue depois das sessões de espancamentos. Acordou
gritando. Com febre, dor por todo o corpo e sozinha.
Ele não estava lá...
Nem mesmo em seu sonho, como ocorrera antes dos pesadelos desaparecerem.
Perdeu a noção do tempo em que permaneceu encolhida em sua cama, tremendo
e chorando. A violência da qual tanto fugira, que havia desesperadamente desejado
esquecer, a havia alcançado novamente. Mesmo vivendo praticamente do outro lado
do continente, os desgraçados ainda a perseguiam através desses sonhos nefastos.
Odiava os pesadelos e suas sensações
reais.
Odiava a covardia que a fazia permanecer encolhida sobre a cama.
Odiava seu coração patético, que vestira em um mercenário, o uniforme de um
herói.
Um homem sem nome, passado ou futuro, que fazia da violência seu meio de
vida. Um homem que lhe dera a ordem de esperar por ele e não falara nada mais. Um
homem que ficara longe por dez anos e sequer mencionou ter pensando nela,
alguma vez em todo esse tempo.
Quando o amanhecer ensolarado, com seu
brilho esfuziante, insensível à dor humana, alcançou as janelas do seu quarto e
os sons do inicio das atividades do vinhedo, davam vida à propriedade, ela
precisou de toda sua força de vontade para deixar a cama.
Aos tropeços, mas com as emoções sobre
controle, chegou ao banheiro.
Ao olhar a imagem da mulher refletida no espelho, constatou que sua
aparência refletia seu estado de espírito. Um desastre.
Depois de um longo banho e várias compressas para diminuir o inchaço e a
vermelhidão dos olhos, com a ajuda de Rita, a empregada que fingia cuidar da
casa, mas na realidade era seu anjo da guarda, estava apresentável.
Com uma aplicação de base corretiva, sentia-se quase forte.
Contemplou a imagem da mulher refletida no
espelho e respirou fundo.
A maioria das pessoas não notaria diferença alguma em sua aparecia, mas
sabia que não escaparia ao escrutínio de Marina. Às vezes, tinha impressão que
ela podia sentir a almas das pessoas, tamanha sua sensibilidade e percepção. Se
pudesse evitar esse encontro o faria, mas sabia não ser possível. Caso não
fosse até a loja, Nina não pensaria duas vezes em ir até o vinhedo.
- Seja o que Deus quiser.
Disse para si mesma ao entrar no utilitário Tucson e colocar o cinto de
segurança.
Fez uma prece pedindo que esse dia pudesse lhe trazer algo de bom e
seguiu rumo à cidade.
********
Marina recebeu Alícia com o carinho e
alegria que lhe eram características.
A morena era a imagem de uma mulher realizada no amor e Alicia se sentiu
pequena e mesquinha ao invejá-la. A amiga não demorou mais que trinta segundos
para perceber que algo não ia bem, mas como sempre fazia, ela desconversou. Enxergou
a imediata compreensão no olhar de Nina, que repetiu o ritual que sempre fazia,
quando notava seus ombros caídos como hoje. Preparou-lhe um chocolate quente.
Marina preparava o melhor chocolate quente do planeta!
Abandonando seus afazeres, a amiga se sentou com ela, para jogar conversa
fora, enquanto falava bobagens que a fizeram sorrir. Entre um sorriso e outro, recebeu
o convite para ser madrinha de casamento
de Nina e Alberto Nascimento.
Estavam em um animado bate papo sobre
vestidos de noiva, madrinhas e bolos de casamento, quando ouviram uma familiar
voz feminina, que perguntava por Marina a um dos funcionários. Em uum gesto
automático, as duas olharam em direção do som e se viram diante de uma ruiva de
olhos verdesm que sorriam zombeteiros.
Estavam olhando para a enfermeira Janis!
Nina parecia tão surpresa e atordoada quanto ela. O que não abalou a
terceira mulher, que se aproximou sorridente ao reconhecê-las.
- Fui convocada pelos meus dois chefes
para ajudar na perigosa operação casamento.
Com essa frase ela, não apenas relevou
que fora enviada por Álvaro e Alberto Nascimento, mas que estava adorando estar
numa missão que não envolvia sangue nem ossos quebrados.
Janis era exatamente como ela se lembrava.
Um furacão em forma de mulher!
Sabendo exatamente o que dizer, revelou a Alicia que o choque de Nina ao
vê-la, também se dera ao fato da amiga nunca ter sabido que a enfermeira que
cuidara dela, enquanto estivera internada, era funcionária da Abaré e não do
hospital. E por sua vez, revelou a Nina, que também cuidou da recuperação de Alicia.
Divertida, Marina ouviu o relato sobre o insólito dia de meninas promovido por
enfermeira.
A mulher conversava espontaneamente. Sorrindo,
gracejando e sem nunca pronunciar algo que a comprometesse, ou as outras duas,
falava da Abaré, como uma empresa líder no ramo de segurança corporativa. E
narrou como cuidara, como enfermeira, de ambas as mulheres em épocas distintas.
Quem passasse e as ouvisse, pensaria que elas, em alguma época passada, caíram
doentes por uma apendicite ou qualquer outra causa.
Alicia se perguntava quanto tempo e
treinamento, eram necessários para ter um comportamento como o de Janis que,
aliás, para seu alívio, usava o mesmo nome pelo qual a conhecera. E ali, no
delicioso espaço que era a loja da Nina, três mulheres jovens, conversaram
animadamente sobre tudo e sobre nada.
********
13 dias depois
O veículo que cruzava a estrada turística
de Paraty parecia macular a beleza exuberante da natureza, adornada pela
arquitetura histórica que os cercava. A paisagem iluminada pelo sol do entardecer
merecia ser imortalizada em um quadro, mas Álvaro tinha certeza que a mulher
sentada no banco de passageiro, nada enxergava.
Alicia ligara pedindo sua ajuda. Não
sabia o que a fizera fugir de Vitória da Esperança na véspera do casamento de
Marina. Ela não dissera, mas não podia negar-lhe um pedido. Ao longo dos anos,
testemunhara a moça superar seus medos e traumas e construir sua história. Era
uma mulher independente e forte que agora passava por um momento de extrema fragilidade.
Se a voz dela, ao falar com ele pelo telefone, não tivesse denunciado, ao vê-la
descer do jato, na pista de pouso particular, teria notado imediatamente.
Estava pálida e tinha os olhos mais tristes que ele já vira.
Próximo a Vila de Paraty Mirim, ele
entrou no caminho que levava a sua propriedade. Alicia não sabia, mas era a
primeira vez que permitia que alguém, além de seu irmão, usufruísse do seu
paraíso particular. Alicia parecera aflita e levá-la ao santuário, estava fora
de questão. Satisfeito, constatou que os
homens da Abaré já estavam na portaria e haviam garantido a segurança do
perímetro.
A casa ficava em uma elevação do terreno,
cercada por muita área verde, de uma forma que parecia camuflada pela paisagem.
O jardim terminava exatamente onde começava a faixa de areia. O mar de Paraty
completava a perfeição do lugar.
O caseiro, um homem de sua total confiança, saiu da casa assim que ele
estacionou. O homem saudou o patrão e a jovem mulher que o acompanhava,
recolheu a bagagem e voltou para o interior da propriedade.
- Obrigada - Alicia disse num fio de voz.
Precisava ficar sozinha. Longe de tudo o que a fazia lembrar-se de
Hendrix.
Nos últimos dias, todas as vezes que entrara no escritório, parecia que o
cheiro e a presença dele estavam impregnados no lugar.
- Estou no escuro aqui Alicia - Álvaro
respirou fundo. - Quero ajudar, mas não tenho ideia do que fazer.
Ela
o interrompeu.
- Estou bem Álvaro.
Ela tentou sorrir, mas foi em vão.
- Não está - ele contestou. – Está com
uma aparência horrível. Fugiu do lugar pelo qual tem verdadeira adoração, na
véspera do casamento da sua melhor amiga.
Ele respirou fundo mais uma vez. Se as coisas não estivessem tão complicadas,
ficaria e a faria contar o que estava acontecendo. Mas faltando quase vinte
quatro horas para o casamento, o noivo, o padrinho e sua equipe principal ainda
estavam em Paris, impedidos de retornar, pois o mal tempo cancelara todos os
voos da Europa. Tinha que resolver isso e chegar a tempo de levar a noiva ao
altar.
- Nina sabe que não estará lá? - Perguntou por fim.
- Saberá no momento certo.
Ele sorriu desanimado e coçou a
sobrancelha num gesto nervoso.
- Quando estiver vestida de noiva? Acha
mesmo que isso a impedirá de cancelar tudo e vir atrás de você? - Perguntou
meio divertido por imaginar a cena em sua mente.
- Não, seu irmão a impedirá.
Isso se ele conseguir chegar, ele pensou
seriamente preocupado.
- Alicia eu não sei o que esta
acontecendo aqui, mas sinto que é algo grave. Eu posso ajudar, basta você
deixar.
Foi a vez de ela respirar fundo.
- Já está me ajudando Álvaro.
Ela se aproximou, o abraçou e depositou um leve beijo em sua face.
- Obrigada por tudo. – Alice disse por fim.
Entrou na casa o deixando ali de pé, boquiaberto, pego totalmente de
surpresa pelo gesto espontâneo de carinho, da mulher esquiva e retraída que ele
havia conhecido.

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