sábado, 26 de julho de 2014

SÉRIE SANTUÁRIO 02 - OUTRA VEZ VOCÊ - Epílogo


Epílogo 
Vinte dias depois
       - Esta linda Alicia! - Marina contemplou a imagem da amiga no espelho. - Parece um anjo!
       Alicia contemplou sua própria imagem no espelho e respirou fundo, nervosa.
A mulher que olhava para ela no espelho, tinha um brilho no olhar e na face, que demonstrava o quanto seu coração estava em paz.
Enxergava uma bela mulher, que havia percorrido um longo caminho de redescoberta e estava pronta para ser feliz.
O nervosismo era comum em noivas não era? Sentiu o friozinho no estômago...
Ainda mais quando o noivo sequer desconfiava que se casaria dentro de alguns minutos.
       - Estou começando a achar que talvez essa não seja uma boa ideia - Confessou nervosa – E se não for o momento certo? Perguntou mais para si mesma, do que para a amiga.
       - Depois de todo o trabalho que tivemos?  Nem pense em mudar de ideia senhorita!
Marina disse no familiar tom de voz doce e conciliador.
- Olhe para si mesma Alicia - Ela pediu e a amiga obedeceu - Agora imagine a reação de Bourregard ao vê-la tão linda.
O sorriso amplo foi a resposta que ela precisava.
- Qualquer momento é o momento certo para um gesto de amor. Agora eu vou colocar o meu vestido, afinal sou a madrinha - Disse entusiasmada. – Precisa de mais alguma coisa? Ela perguntou solicita.
       - Coragem, tem um pouquinho aí? Perguntou sorrindo.
       - Sei que tem coragem de sobra Alicia. Já demonstrou isso muitas vezes.
Por alguns instantes ficaram apenas olhando uma para outra, o silêncio falando mais do que as palavras poderiam.
       - Obrigada Marina, por tudo. Por ser minha amiga, por ser tão compreensiva, por ser tão valente.
       Elas se abraçaram emocionadas.
       - A vida te deu uma chance única Alicia. Você está sendo suficiente esperta para agarrá-la. Você é que está sendo valente e corajosa, eu sou só a madrinha - Nina gracejou.
       - Agora é melhor ir se arrumar, não podemos nos atrasar - Alicia disse tentando conter as lágrimas que ameaçavam cair.
       Ao ficar sozinha, ela respirou fundo e novamente contemplou sua imagem no espelho.
Uma sensação de serenidade tomou conta de seu corpo.
Ocupava novamente a suíte principal do santuário.
Refletiu sobre tudo o que havia acontecido desde a notícia do atentado contra Marina. Os dias no hospital Santa Izabel haviam sido confusos e tumultuados, mas nada se comparara ao dia que antecera seu retorno ao santuário dez anos depois.
Em um minuto estavam aliviados celebrando a alta médica de Marina e a bem sucedida cirurgia de Javier e no seguinte Álvaro gritava ordens para remoção de todos eles ao santuário.
       Mesmo sem entender o que acontecia, ajudou no que foi possível.
Menos de vinte e quatro horas depois, em uma reveladora reunião, já no santuário, ela descobria as verdadeiras identidades dos homens que a resgatara e o motivo que levara Álvaro a uma atitude tão radical.
       Sabia que os homens não se sentiram a vontade em ter suas verdadeiras identidades reveladas a ela, mas o momento era de crise e todos, incluindo ela, corriam risco. As equipes dois e três estavam responsáveis pela segurança da propriedade e os homens da equipe um trabalhavam incessantemente para descobrir até onde, o tal mandante do crime contra Nina e Javier, sabia sobre eles.
       Há dez dias, Álvaro, contrariando, tudo e todos, também transportara Javier ao santuário.
Os aposentos dele foram transformados em um micro hospital. Ângela, que agora sabia ser o nome verdadeiro da enfermeira Janis, fizera um verdadeiro escândalo. Batera de frente com o chefe, que assumira o peso do risco dessa delicada transferência, pois qualquer movimento não calculado, poderia significar que Javier ficaria permanentemente paralisado da cintura para baixo.
       Percorreu o quarto com passos lentos, revivendo os poucos momentos que ela e Bourregard tiveram desde que retornaram ao santuário.
        Há quatro dias, antes de deixar a propriedade, para preparar o novo local para onde seriam transferidos, atônita o ouvira pedir perdão por tê-la trazido para o meio da violência da qual tanto fugia. Mas ela não vira violência desde que chegara, vira força, determinação, respeito e profundos laços de amizade.
Apesar de enxergar claramente, que os homens não se sentiam a vontade em sua presença, sempre fora tratada com muito respeito e cortesia. Nos dias anteriores observara fascinada a ligação da equipe com Marina. Era visível o quanto eles a adoravam, estavam sempre em torno dela, ajudando na cozinha ou limpeza da casa, nas horas de lazer, envolvidos em jogos que a deixavam ganhar descaradamente ou em conversas sobre os mais diversos assuntos. Desde o tempo a diversidade religiosa.
Há dez dias, com a chegada de Ângela e Javier a casa ganhara outro ritmo. O humor de cão do espanhol, que obviamente não aceitava o fato de estar imobilizado em cima de uma cama, mesmo que fosse apenas pelo tempo necessário a sua recuperação. O homem deixava claro em palavras e atitudes que não queria a enfermeira, que ignorava seus protestos, por perto.
O inusitado comportamento dos homens com Angie, como chamavam a enfermeira, fora uma surpresa deliciosa para Alicia. Os homens provocavam a ruiva de olhos verdes todo o tempo. E ela devolvia as provocações sem medo ou intimidação.
Tratavam Ângela como uma irmã mais nova, que os irmãos mais velhos não se cansavam de perturbar.
Alicia sabia que assim como fora ela, que estabelecera a distância entre eles há dez anos, teria de partir dela a iniciativa de conquistar seu lugar nessa família e estava disposta a tentar.
       O som do carro estacionando em frente a casa era o sinal que estava aguardando.
Agora não tinha mais volta!
Levantou, respirou fundo e foi ao encontro do homem de sua vida.

       Bourregard estava puto da vida com Caetano! P
Poderiam ter retornado na noite anterior, mas o infeliz insistiu em mais uma vistoria, em todo o sistema de segurança criado por Henrique para o sítio de Minas Gerais. Para onde os dois casais seriam transferidos no dia seguinte.
       Tinha ficado uma noite a mais longe de Alicia.
Ela deveria estar apavorada, pois, com certeza, o santuário era o último lugar aonde ela gostaria de estar.
Pensava no quanto desejava quebrar a cara do amigo, quando ao entrar na casa, ficou boquiaberto com o cenário com o qual se deparou.
       A sala do santuário estava decorada com toalhas brancas, ramos, flores e velas. Thor, Kashim, Henrique, que segurava uma câmera, e Marina estavam elegantemente vestidos.  O som do choque de saltos altos, pobre o piso de madeira, chamou sua atenção. Ao se virar em direção do som, estarrecido enxergou Ângela elegantemente vestida empurrando a cadeira de rodas de Javier. O homem estava com aparência péssima, para dizer o mínimo. Mais magro, a barba por fazer, abatido. Por baixo da roupa usava o colete e no pescoço o equipamento que protegia a coluna.
- O que faz fora da cama? – Bourregard perguntou lançando um olhar nada amigável a Ângela.
- Não me olhe assim. Fui contra essa loucura, mas conhece o Zé Turrão melhor do que eu – A ruiva respondeu, nenhum pouco intimidada.
- Ficou louco? – Bourregard perguntou a Javier, temporariamente esquecido do cenário elegante.
- Não perderia isso por nada.  – Javier respondeu com uma voz fraca, mas permeada com a ironia e o sarcasmo que lhe era familiar.
       Bourregard não teve tempo de perguntar a que ao espanhol se referia.
O som da marcha nupcial, providenciada por Henrique, ressoou no ambiente.
Álvaro entrou no aposento de braço dado com Alicia, que parecia um anjo, em um lindo vestido branco. A peça delicada, marcava os seios e caia fluído em camadas até os pés. Os cabelos estavam soltos e tinham flores brancas espalhadas por todo ele.
Ela estava tão linda!
Ele não conseguia esboçar uma única palavra.
- Era disso que eu falava, não perderia essa cara de abestalhado por nada no mundo – Javier comentou baixinho. Dessa vez sua voz estava carregada de afeição.
       - Eu sei exatamente o que está sentindo.
O tapinha camarada de Caetano, em seu ombro, o trouxe de volta a realidade.
       - Alicia... - Sussurrou ao se aproximar.
Ela estava tão linda que ele tinha medo de tocá-la.
       - Você me fez uma pergunta há uns dias atrás e eu não tive a chance de responder.
Ela respirou fundo para continuar, profundamente emocionada
- Essa é a minha resposta Melquisedec Bourregard!
Os pigarros que disfarçaram os risos ecoaram pelo ambiente e ele não deu a mínima.
- Aceito ser sua esposa, a mãe dos seus filhos. Aceito partilhar minha vida com você – Ela fez uma pausa e olhou para todos na sala.
Pousou os olhos em Javier uns segundos a mais. Ele arriscava tudo para estar presente ao casamento deles. Por um instante se sentiu pequena diante da grandeza daquele homem. Convicta de sua decisão continuou.
- E com todos eles – Disse olhando diretamente para as caras de espanto, que revelavam o quanto ela os havia surpreendido - Quer casar comigo? - Perguntou ao homem diante de si, sorrindo e com os olhos marejados.
       Bourregard achou que seu peito fosse explodir de tanto orgulho e amor.
Alicia o aceitava inteiro. Aceitava seus irmãos.
       - Se quero casar com você? - Perguntou rindo de alivio, de alegria. - Não tem coisa que eu deseje mais nesse mundo Alicia.
       Ele pegou a mão que ela lhe estendeu.
       - Espera - Disse dando-se conta de algo importante. - Você está tão linda. Eu estou usando uniforme, vou me... 
Ela o interrompeu.
Percorreu com os olhos o familiar uniforme preto do esquadrão.
       - Está perfeito como está Melquisedec. Foi usando uma roupa como essa que entrou na minha vida e me regastou do inferno, nada mais perfeito que estar vestido assim para me levar ao paraíso.
       O coro de uaus e assovios ecoaram pela sala quase, quebrando o encanto do momento, quase...
       Ele se colocou ao lado dela e surpreso viu Conrado Montessori tomar a posição diante deles.
       O homem descarado piscou travesso para Alicia, revelando estar por dentro de toda aquela preparação. Pela primeira vez em quinze dias, Bourregard não enxergava tensão ou preocupação em seus traços. O homem estava realmente feliz por ele e por Alicia.
       - Nos foi revelado que o sacramento do matrimônio é realizado pelos noivos, não sendo assim, obrigatória a presença de um padre. Mas é necessário alguém inteligente, bonito e com boa voz, ou seja como eu, para presidir a cerimônia.
O gracejo ecoou pela sala, provocando risos e algumas réplicas.
Conrado pigarreou chamando a atenção de todos e deu inicio a cerimônia de casamento, que se realizava no lugar mais improvável de todos. O Santuário.
Ele não sabia ao certo o que o destino reservava a cada um deles. Em todos esses anos Dimitri Stankowich nunca chegara tão perto. Mas obstante ao perigo e as incertezas, eles ainda encontravam tempo e vontade para celebrar a vida e o amor.
Esses homens e suas mulheres eram sua família. Ele daria sua vida por cada um deles, pensou.
Pronunciou as palavras de núpcias a Alicia e Bourregard e sentiu o coração verdadeiramente aquecido pela primeira vez em muito tempo...

 Fim... Por enquanto!

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