Epílogo
Vinte dias depois
- Esta linda Alicia! - Marina contemplou
a imagem da amiga no espelho. - Parece um anjo!
Alicia contemplou sua própria imagem no espelho
e respirou fundo, nervosa.
A mulher que olhava para ela no espelho, tinha um brilho no olhar e na
face, que demonstrava o quanto seu coração estava em paz.
Enxergava uma bela mulher, que havia percorrido um longo caminho de
redescoberta e estava pronta para ser feliz.
O nervosismo era comum em noivas não era? Sentiu o friozinho no
estômago...
Ainda mais quando o noivo sequer desconfiava que se casaria dentro de
alguns minutos.
- Estou começando a achar que talvez essa
não seja uma boa ideia - Confessou nervosa – E se não for o momento certo? Perguntou
mais para si mesma, do que para a amiga.
- Depois de todo o trabalho que
tivemos? Nem pense em mudar de ideia
senhorita!
Marina disse no familiar tom de voz doce e conciliador.
- Olhe para si mesma Alicia - Ela pediu e a amiga obedeceu - Agora imagine
a reação de Bourregard ao vê-la tão linda.
O sorriso amplo foi a resposta que ela precisava.
- Qualquer momento é o momento certo para um gesto de amor. Agora eu vou
colocar o meu vestido, afinal sou a madrinha - Disse entusiasmada. – Precisa de
mais alguma coisa? Ela perguntou solicita.
- Coragem, tem um pouquinho aí? Perguntou
sorrindo.
- Sei que tem coragem de sobra Alicia. Já
demonstrou isso muitas vezes.
Por alguns instantes ficaram apenas olhando uma para outra, o silêncio
falando mais do que as palavras poderiam.
- Obrigada Marina, por tudo. Por ser
minha amiga, por ser tão compreensiva, por ser tão valente.
Elas se abraçaram emocionadas.
- A vida te deu uma chance única Alicia.
Você está sendo suficiente esperta para agarrá-la. Você é que está sendo
valente e corajosa, eu sou só a madrinha - Nina gracejou.
- Agora é melhor ir se arrumar, não
podemos nos atrasar - Alicia disse tentando conter as lágrimas que ameaçavam
cair.
Ao ficar sozinha, ela respirou fundo e
novamente contemplou sua imagem no espelho.
Uma sensação de serenidade tomou conta de seu corpo.
Ocupava novamente a suíte principal do santuário.
Refletiu sobre tudo o que havia acontecido desde a notícia do atentado
contra Marina. Os dias no hospital Santa Izabel haviam sido confusos e
tumultuados, mas nada se comparara ao dia que antecera seu retorno ao santuário
dez anos depois.
Em um minuto estavam aliviados celebrando a alta médica de Marina e a bem
sucedida cirurgia de Javier e no seguinte Álvaro gritava ordens para remoção de
todos eles ao santuário.
Mesmo sem entender o que acontecia,
ajudou no que foi possível.
Menos de vinte e quatro horas depois, em uma reveladora reunião, já no
santuário, ela descobria as verdadeiras identidades dos homens que a resgatara
e o motivo que levara Álvaro a uma atitude tão radical.
Sabia que os homens não se sentiram a
vontade em ter suas verdadeiras identidades reveladas a ela, mas o momento era
de crise e todos, incluindo ela, corriam risco. As equipes dois e três estavam
responsáveis pela segurança da propriedade e os homens da equipe um trabalhavam
incessantemente para descobrir até onde, o tal mandante do crime contra Nina e
Javier, sabia sobre eles.
Há dez dias, Álvaro, contrariando, tudo e
todos, também transportara Javier ao santuário.
Os aposentos dele foram transformados em um micro hospital. Ângela, que
agora sabia ser o nome verdadeiro da enfermeira Janis, fizera um verdadeiro
escândalo. Batera de frente com o chefe, que assumira o peso do risco dessa
delicada transferência, pois qualquer movimento não calculado, poderia
significar que Javier ficaria permanentemente paralisado da cintura para baixo.
Percorreu o quarto com passos lentos,
revivendo os poucos momentos que ela e Bourregard tiveram desde que retornaram
ao santuário.
Há
quatro dias, antes de deixar a propriedade, para preparar o novo local para
onde seriam transferidos, atônita o ouvira pedir perdão por tê-la trazido para
o meio da violência da qual tanto fugia. Mas ela não vira violência desde que
chegara, vira força, determinação, respeito e profundos laços de amizade.
Apesar de enxergar claramente, que os homens não se sentiam a vontade em
sua presença, sempre fora tratada com muito respeito e cortesia. Nos dias
anteriores observara fascinada a ligação da equipe com Marina. Era visível o
quanto eles a adoravam, estavam sempre em torno dela, ajudando na cozinha ou
limpeza da casa, nas horas de lazer, envolvidos em jogos que a deixavam ganhar
descaradamente ou em conversas sobre os mais diversos assuntos. Desde o tempo a
diversidade religiosa.
Há dez dias, com a chegada de Ângela e Javier a casa ganhara outro ritmo.
O humor de cão do espanhol, que obviamente não aceitava o fato de estar
imobilizado em cima de uma cama, mesmo que fosse apenas pelo tempo necessário a
sua recuperação. O homem deixava claro em palavras e atitudes que não queria a
enfermeira, que ignorava seus protestos, por perto.
O inusitado comportamento dos homens com Angie, como chamavam a
enfermeira, fora uma surpresa deliciosa para Alicia. Os homens provocavam a
ruiva de olhos verdes todo o tempo. E ela devolvia as provocações sem medo ou
intimidação.
Tratavam Ângela como uma irmã mais nova, que os irmãos mais velhos não se
cansavam de perturbar.
Alicia sabia que assim como fora ela, que estabelecera a distância entre
eles há dez anos, teria de partir dela a iniciativa de conquistar seu lugar nessa
família e estava disposta a tentar.
O som do carro estacionando em frente a
casa era o sinal que estava aguardando.
Agora não tinha mais volta!
Levantou, respirou fundo e foi ao encontro do homem de sua vida.
Bourregard estava puto da vida com
Caetano! P
Poderiam ter retornado na noite anterior, mas o infeliz insistiu em mais
uma vistoria, em todo o sistema de segurança criado por Henrique para o sítio
de Minas Gerais. Para onde os dois casais seriam transferidos no dia seguinte.
Tinha ficado uma noite a mais longe de
Alicia.
Ela deveria estar apavorada, pois, com certeza, o santuário era o último
lugar aonde ela gostaria de estar.
Pensava no quanto desejava quebrar a cara do amigo, quando ao entrar na
casa, ficou boquiaberto com o cenário com o qual se deparou.
A sala do santuário estava decorada com
toalhas brancas, ramos, flores e velas. Thor, Kashim, Henrique, que segurava
uma câmera, e Marina estavam elegantemente vestidos. O som do choque de saltos altos, pobre o piso
de madeira, chamou sua atenção. Ao se virar em direção do som, estarrecido enxergou
Ângela elegantemente vestida empurrando a cadeira de rodas de Javier. O homem
estava com aparência péssima, para dizer o mínimo. Mais magro, a barba por
fazer, abatido. Por baixo da roupa usava o colete e no pescoço o equipamento
que protegia a coluna.
- O que faz fora da cama? – Bourregard perguntou lançando um olhar nada
amigável a Ângela.
- Não me olhe assim. Fui contra essa loucura, mas conhece o Zé Turrão
melhor do que eu – A ruiva respondeu, nenhum pouco intimidada.
- Ficou louco? – Bourregard perguntou a Javier, temporariamente esquecido
do cenário elegante.
- Não perderia isso por nada. –
Javier respondeu com uma voz fraca, mas permeada com a ironia e o sarcasmo que
lhe era familiar.
Bourregard não teve tempo de perguntar a
que ao espanhol se referia.
O som da marcha nupcial, providenciada por Henrique, ressoou no ambiente.
Álvaro entrou no aposento de braço dado com Alicia, que parecia um anjo,
em um lindo vestido branco. A peça delicada, marcava os seios e caia fluído em
camadas até os pés. Os cabelos estavam soltos e tinham flores brancas
espalhadas por todo ele.
Ela estava tão linda!
Ele não conseguia esboçar uma única palavra.
- Era disso que eu falava, não perderia essa cara de abestalhado por nada
no mundo – Javier comentou baixinho. Dessa vez sua voz estava carregada de
afeição.
- Eu sei exatamente o que está sentindo.
O tapinha camarada de Caetano, em seu ombro, o trouxe de volta a
realidade.
- Alicia... - Sussurrou ao se aproximar.
Ela estava tão linda que ele tinha medo de tocá-la.
- Você me fez uma pergunta há uns dias
atrás e eu não tive a chance de responder.
Ela respirou fundo para continuar, profundamente emocionada
- Essa é a minha resposta Melquisedec Bourregard!
Os pigarros que disfarçaram os risos ecoaram pelo ambiente e ele não deu
a mínima.
- Aceito ser sua esposa, a mãe dos seus filhos. Aceito partilhar minha
vida com você – Ela fez uma pausa e olhou para todos na sala.
Pousou os olhos em Javier uns segundos a mais. Ele arriscava tudo para estar
presente ao casamento deles. Por um instante se sentiu pequena diante da grandeza
daquele homem. Convicta de sua decisão continuou.
- E com todos eles – Disse olhando diretamente para as caras de espanto, que
revelavam o quanto ela os havia surpreendido - Quer casar comigo? - Perguntou ao
homem diante de si, sorrindo e com os olhos marejados.
Bourregard achou que seu peito fosse
explodir de tanto orgulho e amor.
Alicia o aceitava inteiro. Aceitava seus irmãos.
- Se quero casar com você? - Perguntou
rindo de alivio, de alegria. - Não tem coisa que eu deseje mais nesse mundo
Alicia.
Ele pegou a mão que ela lhe estendeu.
- Espera - Disse dando-se conta de algo
importante. - Você está tão linda. Eu estou usando uniforme, vou me...
Ela o interrompeu.
Percorreu com os olhos o familiar uniforme preto do esquadrão.
- Está perfeito como está Melquisedec. Foi
usando uma roupa como essa que entrou na minha vida e me regastou do inferno,
nada mais perfeito que estar vestido assim para me levar ao paraíso.
O coro de uaus e assovios ecoaram pela
sala quase, quebrando o encanto do momento, quase...
Ele se colocou ao lado dela e surpreso
viu Conrado Montessori tomar a posição diante deles.
O
homem descarado piscou travesso para Alicia, revelando estar por dentro de toda
aquela preparação. Pela primeira vez em quinze dias, Bourregard não enxergava
tensão ou preocupação em seus traços. O homem estava realmente feliz por ele e
por Alicia.
- Nos foi revelado que o sacramento do
matrimônio é realizado pelos noivos, não sendo assim, obrigatória a presença de
um padre. Mas é necessário alguém inteligente, bonito e com boa voz, ou seja
como eu, para presidir a cerimônia.
O gracejo ecoou pela sala, provocando risos e algumas réplicas.
Conrado pigarreou chamando a atenção de todos e deu inicio a cerimônia de
casamento, que se realizava no lugar mais improvável de todos. O Santuário.
Ele não sabia ao certo o que o destino reservava a cada um deles. Em
todos esses anos Dimitri Stankowich nunca chegara tão perto. Mas obstante ao
perigo e as incertezas, eles ainda encontravam tempo e vontade para celebrar a
vida e o amor.
Esses homens e suas mulheres eram sua família. Ele daria sua vida por
cada um deles, pensou.
Pronunciou as palavras de núpcias a Alicia e Bourregard e sentiu o
coração verdadeiramente aquecido pela primeira vez em muito tempo...
Fim... Por enquanto!

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