sexta-feira, 1 de maio de 2015

Sr. G - Capítulo 22 - 1ª Parte


Patrícia Alencar Rochetty

É surpreendente o que um banho pode fazer por uma pessoa, principalmente quando permite que reorganizemos as ideias. O melhor, ainda, é a possibilidade de nos livrar da tensão de um dia de trabalho e mandar embora, junto com a água que escorre pelo ralo, o stress dos acontecimentos corriqueiros do dia a dia. É um momento de paz de espírito.
Porém, devo admitir que não é suficiente para paralisar meus desejos, que gritam lembrando-me que, do lado de lá da parede que divide o banheiro do meu quarto, tem um homem que vem, há dias, levando-me à exaustão e a testar todo os limites possíveis.

− Pequena, você viu minha pasta preta?

− Deixei na mesinha ao lado da poltrona da sala – grito, enquanto ensaboo o cabelo. Desde o nosso final de semana, na ilha, não passamos, ainda, um dia longe do outro. Por causa disso, algumas vezes, quase fui flagrada por ele enquanto mandava mensagens ao meu amigo Dom Leon, pedindo-lhe socorro. Com ele, consigo falar a respeito de meus medos e receios e ele, como sempre, reponde de maneira a me incentivar, cada dia mais, a me entregar a um relacionamento que vem tirando-me o chão aonde piso.

O domingo, ao lado de nossos amigos, após o dia que passamos na cabana de Bonete, foi mágico. De maneira inédita, em vários momentos, consegui até me vislumbrar casada com o Carlos, mas, claro que isto foi apenas resultado de pensamentos loucos, mas, não posso deixar de admitir que pensei nisso, sim. Ele interagiu com as crianças, foi um gentleman com a Barbarela, que quase me deixou roxa de tanto cutucão que me deu sempre que ele dirigia-se a mim, tratando-me com carinho e proteção. Ele e o Marco identificaram-se tanto um com o outro que, em apenas um dia, viraram cúmplices e planejaram diversos encontros.

O Luiz Fernando, que a Babby tanto quis apresentar-me, agora é apenas o Nandão. O cara é engraçado e hilário. A Barbie que levou a tiracolo, em Bonete, era simpática ao extremo, porém, fiquei de queixo caído ao vê-la chamá-lo de senhor! Não quis perguntar nada sobre isso ao Carlos, com medo de que ele tivesse ideias equivocadas e pensasse que eu estava interessada nesse lance de dominação, mas, tenho certeza de que o Nandão é um dominador nato, daquele tipo que se lê nos livros. Pelo que contei ao Dom Leon, este afirmou, com todas as letras, que o cara é um dominador mesmo. Com os demais, ele aceitava opiniões sem imposições, agora, quanto a ela, fiquei com a pulga atrás da orelha pela forma como ele tratava-a e, pior, como ela aceitava isso! Eu, hein? Será que ela não soube que uma mulher queimou o sutiã em praça pública para simbolizar a libertação da mulher do julgo masculino?

− Não posso esperar por você hoje – ele entra no banheiro e perco meu fôlego assim que o vejo vestido com um terno marinho e gravata turquesa – Tenho reunião, na matriz, às 9:00h. Olha, daqui a Cabreúva, apesar de não ser longe, faz com que a gente perca um tempo enorme! Fico admirado de ver como você e o Nandão adoram morar aqui e viver a maior parte do tempo dentro do carro, levando horas para se locomoverem de uma esquina a outra! – ele encara-me, enquanto deslizo a mão pelo corpo – Provoca mesmo, pequena! Quanto maior a provocação, mais minhas ideias fervilham para te retribuir cada ousadia.

− O jantar, à noite, está de pé? – de repente, sinto-me insegura, aliás, coisa que vem ocorrendo todas as vezes em que ele diz que está indo para Cabreúva... Para não revelar esta minha insegurança, completo – A Babby falou a semana inteira do jantar que o Marco disse que vai preparar com a sua ajuda! Estamos até achando que vocês estão trocando receitas por mensagens no “zap” – rio, divertida.

− As melhores receitas, pequena! Agora, fecha esse chuveiro e vem aqui me dar um beijo.

− Não, senhor! Vem você, aqui, sentir a temperatura da água e receber um beijinho molhado.

− Não.

− Ah, então vai ter que ir embora sem meus lábios tocarem os seus... – provoco, dando um sorriso sem vergonha e fechando a torneira do chuveiro.

Abro a porta do box e estico meus braços para ele.

– Pelo menos me abrace e enxugue-me com seu corpo... passe o dia com meu cheiro impregnado em sua roupa!

− Você sabe que vai pagar por isso, né? – ele, abraça-me mesmo, sem se importar com meu corpo molhado, e inclina sua boca contra a minha. Fecho os olhos e sinto seus lábios moverem-se – Depois do jantar de hoje, vamos comigo para minha casa? Venha passar o final de semana no meu cantinho – ele move a ponta da língua por uma gota que escorre em meu rosto.

− Só se for amanhã, depois do almoço. Tenho uma reunião importante com um cliente. Se achar melhor, podemos marcar para a semana que vem.

Ele olha para mim, desconfiado, pois sempre encontro uma desculpa para não ir para a casa dele, mas, apesar disso, ele não diz nada.

− Sem problemas, marcamos para outro final de semana – sua resposta não é a que eu esperava, porque ele nunca insiste. Queria mesmo que ele contestasse a minha objeção, mostrando que se importa com isso! Mas, fico mesmo é impaciente e balançada. Nada com ele é previsível. Burra, mil vezes burra! Será que não aprendi que não se pode dar a opção para um homem escolher? Assim, corre-se o risco de você passar a nem ser mais a opção dele? Mas, no fundo, não é isso que quero que aconteça?

Sempre me escondi atrás das minhas defesas e, de repente, vejo-me desprotegida até de meus próprios sentimentos! Ele desestabiliza-me e não consigo colocar nenhuma barreira entre nós! Quando acho que vou afastá-lo e mostrar que tudo é ainda cedo, ele torna-se compreensivo e condescendente com minhas respostas, não me dando chance de, ao não conseguir extrair-lhe uma reação impaciente e agressiva, recuar e acabar com o que quer que nós tenhamos!

− Encontramo-nos à noite, então – respondo, fria e distante.

− Cuide-se, pequena! – beija minha boca, acaricia meu pescoço e vai embora.

Por que tenho que estragar tudo quando a vida está sorrindo para mim? Fico achando que ela está sempre a debochar de mim... Tenho vontade de gritar, chorar, espernear e xingar a mim mesma de todos os nomes “sagrados”, porque eu menti sobre uma reunião que nunca vai acontecer! Como sou estúpida! Por que não assumo que estou evitando, como o diabo à cruz, estreitar ainda mais nossa ligação, como se, ir até a casa dele, fosse a admissão de que temos algo mais sério?

Olho-me, no espelho, parecendo que ele diz para mim as palavras certas: “Querida, quem deve reparar se seu cabelo ficou bom é seu cabeleireiro, não seu amigo de foda. Você não pode criar expectativas quanto às ações e reações dele quando o mantém do outro lado da muralha que se recusa a derrubar!”

Arrumo-me, decentemente, colocando um vestido preto, na medida certa, isto é, quatro dedos acima do joelho, com as costas parcialmente desnudas e uma calcinha minúscula. Apesar de eu ter intenções de voltar para casa para me trocar para ir ao jantar, quando se é uma das proprietárias do local em que trabalha, qualquer imprevisto pode mudar todo o planejamento do dia. Então, melhor me prevenir e colocar uma roupa minimamente provocante e, ao mesmo tempo, aceitável para se usar no trabalho. Assim, tento misturar o casual com o sofisticado, sendo que o detalhe da calcinha fica para o garanhão, caso ele convença-me a mudar de ideia e passar a noite com ele.

Hoje vou almoçar com as meninas, uma vez que nosso happy hour não poderá acontecer por causa de nosso jantar na residência do casal Doriana. Conseguir enrolar a semana toda para responder às especulações delas a respeito do Carlos, criadas não porque contei algo ou porque elas disseram que tenho visto o passarinho verde a semana toda. Foram geradas porque, todos os dias, pela manhã, em cada dia da semana, recebi um presente diferente. Na segunda, ao retornar à realidade, depois daquele final de semana mágico, recebi, logo pela manhã, flores, com um bilhete charmoso, dizendo apenas: “Vejo você hoje? CTJ”. Não só viu, como acabou dormindo em minha casa, coisa que nunca permiti a homem algum!

Na terça, não ficou por menos! Acordei vinte minutos atrasada, por culpa dele, que me manteve bem ocupada durante a noite, e, quando cheguei ao escritório, tinha uma cesta de café da manhã, na minha mesa, com outro bilhete: “Ficarei em São Paulo, hoje. Almoça comigo? CTJ”.

Na quarta, quando acordei, imaginei que era cedo ainda, por causa da luz fraca que atravessava a fina cortina do meu quarto. Fechei os olhos, procurando encontrar o sono, novamente, e foi quando percebi alguns dedos quentes a alisarem as curvas do meu corpo, causando uma briga interna intensa entre meu corpo, que já estava acordado e excitado, e minha mente, morrendo de sono.

Ele enfiou a mão entre minhas pernas e só lembro-me dele perguntar se tinha me acordado... a partir daí, não restou nenhuma parte do meu corpo adormecida.

Ontem, não mandou nada, porém, às 8:15h da manhã, recebi uma mensagem dele dizendo que estava voltando a São Paulo e queria levar-me para jantar e, depois de irmos a um restaurante charmoso, Trattoria do Sargento, a noite acabou, novamente, conosco na minha cama! Uma parte de mim quer acostumar-se com tudo o que está acontecendo, entretanto, a outra parte sinaliza que chegou o momento de o afastar.

Saio do quarto, apressada. Minhas lembranças e este homem estão tirando-me da minha rotina e rompendo meus paradigmas! Entro, na sala, para apagar a luz da minha minúscula sala de jantar...

− Será que meu garanhão ainda não entendeu que tenho janelas suficientes para não precisar acender nenhuma luz, durante o dia? – paro, levando as mãos à boca.

No lugar de uma tela simples está pendurada uma aquarela que estava à venda, ontem, no restaurante, que achei muito bonita. Eu comentei com ele como fiquei fascinada pelo quadro e, na verdade, meus olhos ficaram vidrados nele a noite toda, pois eu não consegui identificar a sua figura e nem sua mensagem e queria conseguir isso.

– Mas, como ele comprou esta tela? Eu só saí do seu lado, por alguns minutos, para ir ao toalete! Por que ele fez isso?

Para tudo, Patrícia... Não vai surtar agora só por que ele quis dar um presente para você, né? Não vai querer fazer drama, como se vê nos livros, quando a mocinha sente-se mal em aceitar um presente porque não está à venda. Você não pediu nada a ele e, se ele deu, foi porque quis.

Hipnotizada com a tela, aproximo-me dela para analisar de perto. Não sou expert em arte e, para falar a verdade, considerando-se minha simplicidade, acho que esta é a primeira obra de arte que entra no meu apartamento. A palavra certa para definir os meus sentimentos ao olhar a figura abstrata é deslumbre. Sinto como se me levasse a uma viagem no tempo, onde, apesar de não saber exatamente o que o artista expressou, o efeito, em mim, ao apreciar a obra, é sentir, na imagem, como se a incerteza estivesse pintada na tela. Suas formas são desalinhadas e o que predomina é apenas o misto de cores, sendo que cada cor aponta numa direção. Em outras palavras, é como se ela não fosse para ser olhada e entendida, mas, sim, para ser sentida por suas formas. Ela é intrigante e conflitante, assim como os meus sentimentos, neste momento. Não posso rejeitar um presente, porém, não posso deixar-me seduzir por todos os mimos com que ele presenteia-me, diariamente.

E, nesse sentido, olhar para esta pintura é como partir para uma viagem, com muitas possibilidades, em que o entusiasmo ao observá-la pode levar-me a uma época em que não haverá volta para o estado em que estava antes de a empreender! E mais, exige que a maturidade dos verdadeiros sentimentos tenha que ser vivida, intensamente, porém, vale lembrar que, para acontecer isto, preciso querer e, para falar a verdade, não sei o que quero. Esta pintura está fazendo com que eu pare de afundar a cabeça na areia, feito avestruz, e perceba que não dá para continuar fingindo viver um conto de fadas!

É certo que o Carlos é quase um príncipe encantado, é gostoso demais, rico, lindo, atencioso, paciente e, por incrível que pareça, não deixa nem um par de meias ou cueca fora do lugar ou para eu lavar depois. Nunca encontrei nenhuma pecinha de roupa suja para trás, pois ele leva tudo embora sem eu nem mesmo me dar conta! Isso mostra que ele não é folgado nem quer impor sua presença a mim, inclusive, nem seus produtos de higiene ele deixa aqui, com exceção de um shampoo, que acho que esqueceu mesmo! Claro que ele tem seus defeitos, como todo ser humano, sendo vaidoso, controlador e pouco paciente com a incompetência, além de estar acostumado a ter as coisas como quer. Mas, no que diz respeito a mim, tenho que admitir que ele respeita o meu tempo. Mas... não sei, acho que é muito para mim! Embora ele seja tudo isso, estou sentindo-me sufocada e acuada, como se tivesse que tomar alguma decisão e não fosse justo mantê-lo ao meu lado quando, inconscientemente, sinto que não conseguirei entregar-me, de fato, a esse relacionamento.

Sinto um frio na espinha, uma angústia que é como uma mão apertando meu coração! A sensação é de alguém sendo fechado num cubículo sem luz ou ar, como se estivesse a ser enterrado vivo. Perco minha respiração e começo a ficar apavorada. Tento puxar o ar, mas, ele não vem! Começo a rezar e a pedir para todos os santos que conheço que me ajudem, pois não estou no tal cubículo, estou na sala de meu apartamento, muito familiar e aconchegante, com várias janela permitindo a entrada de ar! Começo a pensar no Biel e na Bella, nos momentos em que nos divertimos juntos, respiro bem fundo e, só então, sinto o ar fluir!! Devagar, vou voltando a mim e tendo, novamente, domínio sobre minha respiração...

Uma vez mais, respiro fundo e, com medo de que isso tudo volte a acontecer, paro de tentar explicar o inexplicável e decido ir trabalhar, apenas mantendo a certeza de que vou ter que resolver essa situação com o Carlos, de maneira a não o magoar, porque sei que magoá-lo será como ferir a mim mesma...

Ainda tentando ocupar a minha mente com outras coisas, para limpar meus pensamentos sinistros, levo minha mão ao interruptor e vejo, nele, pregada uma folha, com uma caligrafia desenhada. Será que até a letra dele é perfeita? Pois, até agora, tudo o que escreveu foi digitado. Aff...

Toda arte feita por um artista encontra um olho apreciador que consegue captar os seus propósitos. Portanto, aceite o presente como um direito seu, pois esta obra merece você como sua melhor proprietária.

CTJ

O que faço com você, garanhão? Dá, pelo menos, para mostrar apenas uma coisinha negativa a seu respeito? Assim, ficaria mais simples de eu apegar-me a essa coisinha para não querer vê-lo mais! Será que você não entende o que está acordando dentro de mim? Desde aquele dia em que vi a casa em que ficaríamos, em Bonete, flashes de um passado muito distante, que não estou a fim de recordar, vem invadindo-me! Infelizmente, estou sentindo que ficar com você, fará com que muito medo e insegurança invadam-me! Sou corajosa para enfrentar praticamente tudo, mas, no que diz respeito a um monstro adormecido que vive nas profundezas de meu inconsciente, não tenho vontade e muito menos coragem de acordar e encarar de frente...

Mando uma mensagem para ele.

Adorei o presente!!! Sinto-me a mais sortuda proprietária de uma obra que ainda não me revelou o que ela é...

PAR.

Já no trabalho, sentada à minha mesa, ouço um aviso sonoro de mensagem interna.

Bárbara:> Ocupada?

Patrícia:> Um pouquinho, uma vez que a minha sócia decidiu que, daqui a uma semana, estarei saindo de férias.

Se bem que essas férias não poderiam calhar em melhor momento! Acho que uma viagem, de alguns dias, longe de toda esta carga emocional que a presença do Carlos em minha vida está causando, fará bem a mim, de maneira a que possa colocar as coisas em perspectiva, sem o embotamento das emoções intensas que ele desperta em mim.

Bárbara:> Talvez sua sócia preocupe-se mais com você do que você mesma.

Se ela quer conversar, sei que não vai esperar, eu estando ocupada ou não.

Patrícia:> Na minha sala ou na sua?

O som, desta vez, não é de mensagem, mas, sim, da minha porta sendo aberta, após uma batidinha suave.

− Posso entrar?

− Não – respondo, divertida – Estou ocupada. Claro que pode entrar, sua boba.

− Serei breve – conheço o “breve” dela – Animada para, daqui a duas semanas, estar de folga desta loucura? – caraca... é a tal da inveja branca que falam, mas, essa minha amiga, cada dia que passa, fica mais linda! Nem parece que teve dois bambinos! Será que o casamento pode, de fato, não estragar uma pessoa?

− Bem animada. Em princípio, relutei um pouco, porque você sabe o quanto este escritório faz bem para mim, porém, as saudades dos meus pais apertaram e acho que os dias longe de tudo e de todos serão bem proveitosos.

− Querendo fugir de algo, amiga? – ela esperou eu responder, encarando-me, tentando captar alguma coisa nas minhas atitudes.

− Do que eu fugiria? Não entendi sua pergunta.

− Fala sério, Patrícia! Sei muito bem porque, repentinamente, está feliz com as suas férias! – declara, entendendo muito bem meus reais motivos.

− Francamente, Bárbara, não sei do que você esta falando! – eu é que não vou facilitar esta conversa. Se nem eu quero ser honesta comigo mesma, porque tenho que falar a esse respeito com ela? – É você que vem, exaustivamente, devo acrescentar, insistindo para que eu tire férias. Agora, que concordei, você acha outro motivo para me atormentar, é?

− Então, eu vou admitir, em voz alta, o que você não quer fazer para você mesma. Você aceitou minha proposta, ontem, sem contestar, porque quer ficar longe do que está começando a viver ao lado do Carlos. Não que ele tenha contado algo ao Marco, até porque eles não são tão próximos assim, porém, ontem, quando eles conversaram a respeito do jantar e o Marco disse que iria chamar você, também, ele deixou escapar que vocês viram-se durante a semana toda.

Não preciso olhar para ela para saber que quer que eu admita que isto é uma possibilidade.

− Sim, isso aconteceu, de fato, o que não significa que está acontecendo alguma coisa entre nós, Bárbara. E, justamente por não estar é que vou visitar meus pais, uma vez que faz mais de 6 meses que não faço isso – sou enfática, o tempo todo, com ela− O que nós temos não significa nada. Ele é apenas mais um dos meus relacionamentos carnais, se é que me entende, amiga!

− Acho que vocês formam um casal bem romântico – ela não vai desistir, só vai sossegar quando me ver jogando o buquê para as minhas amigas solteironas.

− Por que você quer tanto me levar ao altar?

− Porque eu acho que você merece dar uma chance a você mesma de tentar ser feliz, jogando-se, de cabeça, num relacionamento. Preciso dar mais algum bom motivo?

− Você gostou dele, né?

− Gostei de como ele tratou você, no final de semana. Gostei da maneira pela qual ele interagiu com todos nós, apenas porque queria ficar mais próximo de você. Gostei dele não dizer amém a tudo o que você diz. Agora, admita que não está resistindo aos encantos do bonitão! Porque, quando comecei com o Marco, nós olhávamos um para o outro exatamente do mesmo jeito que vocês fazem.

− Comigo e com ele? – dou uma risada irônica − Não está acontecendo absolutamente nada comparado como era entre você e o Marco, Bárbara! Estamos apenas curtindo um sexo bom e explosivo – tenho que admitir para mim mesma que a questão de saber, exatamente, o que está acontecendo comigo e com ele, vem rondando minha cabeça.

− Seja lá o que você quer que seja, siga meus conselhos e abra as portas do seu coração.

− Vai almoçar comigo e com as meninas? – desvio o assunto, porque não sei o que responder e, por mais que a ame, não quero falar disso nem com ela.

− Não posso! E foi exatamente isto que vim fazer aqui, avisar que a Nana precisará sair mais cedo, hoje e por este motivo, não poderá ficar com as crianças. Assim, vim avisá-la que não volto, depois do almoço. Espero vocês em casa, mais tarde.

− Estaremos lá – sinto uma vontade imensa de contar o que aconteceu, hoje, pela manhã, para ela, desde o lance do convite para ir passar o final de semana na casa dele até as estranhas sensações diante do quadro e minha crise de pânico, mas, quando vou começar a falar, o telefone dela toca e ela levanta-se, dizendo que é o Marco, acenando com a cabeça para dizer que nos vemos depois.

Mas, fico com essa interrogação na minha cabeça e, num afã de desabafar, pego meu celular e mando uma mensagem ao meu mais novo melhor amigo. Pelo menos, ele não me conhece pessoalmente e, por mensagens, posso fazer careta, xingar e espernear que ele nem vai ver e tentar decifrar o que sinto de verdade. Ao navegar pela página dele, fico surpresa, pois, ao invés das postagens a respeito de BDSM, como é comum, que têm sempre uma legião de mulheres a se declarar para ele, desta vez, suas mensagens são diferentes! Todas elas são voltadas a uma única pessoa, embora ele não diga seu nome, dizendo apenas “minha menina” ou ”menina”. Hum, acho que o Dom Leon está apaixonado! Curto todas as suas postagens e mando-lhe uma mensagem inbox.

Patrícia Alencar Rochetty:> Olá!

Dom Leon:> Olá, pequena! Como você está?

Patrícia Alencar Rochetty:> De verdade ou de faz de conta?

Dom Leon>: Desde quando você precisou fazer de conta comigo? O que está havendo? Parece-me que algo sério está acontecendo...

Patrícia Alencar Rochetty:> Estou um tanto quanto confusa! Penso que as coisas não funcionam de um jeito comum para mim!

Dom Leon:> Já disse para você não pensar muito! Será que posso perguntar do que você tem tanto medo?

Patrícia Alencar Rochetty:> Não, não pode. E, para seu conhecimento, não tenho medo de nada, só acho que não vai funcionar essa coisa de relacionamento permanente para mim. Eu já vi o amor de perto e sei o quanto ele é perigoso. E, por este motivo, nem tenho como sentir medo de algo que nem pretendo dar chance de acontecer...

Uma lágrima escorre pela minha face, meu peito sente um aperto forte e fico olhando para o nada.

Dom Leon:> Isto significa que você não ama nem seus amigos e parentes? Porque, se isto for verdade, quem ficará com medo de você serei eu!

Patrícia Alencar Rochetty:> Claro que amo minha família e meus amigos, seu bobo! Eu só estou dizendo que não quero próximo de mim o amor homem/mulher, este, sim, é uma bomba que, certamente, explode com consequências catastróficas...

Dom Leon:> Quer falar a respeito do que a levou a pensar assim? Alguém te magoou?

Sinto muito, Dom Leon, pergunta errada! Nem com você quero falar a esse respeito. Se nem eu mesma sei muito bem do que se trata!

Patrícia Alencar Rochetty:> Dom Leon, vou entrar numa reunião, agora. Falo com você depois. Um beijo no coração!

Dom Leon:> Cuide-se, pequena! Só saiba que sempre estarei aqui por você, torcendo para que você permita-se entregar-se, de corpo e alma, a um sentimento que pode fazer-lhe muito mais feliz e plena. Beijo para você também.

Bato na mesa, com força. O que é isto? Por que, pelo que parece, após tanto tempo adormecido, algo muito ruim quer voltar à minha mente? Nervosa e nostálgica, resolvo ligar para minha mãe. Hoje, definitivamente, não conseguirei trabalhar...

− Alô – ouço a voz baixinha, macia e cansada do tempo.

− Mãe? – as lágrimas escorrem pelo meu rosto, sem qualquer controle, coisa que é absolutamente inédita em mim!

− Guria, que sardade de você!

− Bença! Também, mãezinha! Como está o pai?

− Bah tá bão. Foi lá na casa do seu Zé Gerardo, porque parece que atolo o carô do Marquinho e ele foi lá ajuda.

− Mãe, semana que vem estarei indo para aí.

− Seu pai vai ama! Ele fala de liga para tu, todo santo dia.

− E por que não liga? Só eu que ligo para vocês!

− Piá, seu irmão limpa tudo o que temo, tu sabe! Cada hora é um batendo aqui, na porta, cobrano ele! Aí, acabamo deixano de paga argumas continhas pra não faze nada com ele.

Puta que o pariu! Será que isso nunca tem fim?

− Mãe, vou fazer aquilo que eu deveria ter feito há muito tempo! Quando chegar aí, vou colocar todas as contas de água, luz e telefone, em débito automático, na minha conta! Não é possível que o Eduardo não tome jeito!

− Bah, ele até tinha tomado jeito, arumo um emprego na mercearia do Seu João, mas, um moço que trabaiava lá invento que ele estava desviano argumas coisa do depósito e ele foi mandado embora. Depois disso, guria, ele só vem piorano bah, mas... fia, tu sabe que certas coisas é difícil da gente superá... Eu já me dô por feliz de o tu sê essa menina pé no chão que é, diante de tudo o que o vocês passaram!

Meu coração chora, em silêncio! Como eu queria ter o poder de mudar tudo isto e, também, que ele tivesse encontrado a coragem de viver a vida de outra forma, assim como eu, encarando o mundo sem medos e culpas. Ele transformou a própria vida num filme de terror, com medo dele mesmo. Ele é uma bagunça interna, já se internou em clínicas de reabilitação tantas vezes que não dá nem para contar em todos os dedos das mãos e dos pés juntos. No fundo, sinto-me um pouco culpada por ter que fugido de tudo, inclusive dele.

− Fia, tu tá ainda aí?

Enxugo as lágrimas.

– Estou sim, mãe... – respiro fundo e digo-lhe – Mãe, obrigada por ser quem você é. Obrigada por cuidar dele e, por mais irresponsável que o Eduardo possa ser, você nunca o abandonar.

− Guria – diz, firme − eu e meu véio nunca que ia abandona vocês.

− Eu sei disso – fungo o nariz, que escorre por causa do meu choro silencioso.

− Tu tá chorano?

− Não, mãe! É o ar condicionado daqui do escritório que é muito gelado – minto para ela, porque sei o quanto ela já sofreu com cada lágrima que viu cair dos meus olhos e do Eduardo – Mãe, preciso ir! Ligo para você na semana que vem! Manda um beijo para o pai e outro para o desajuizado do Edu.

− Mando, sim! Quando tu vié, vô fazê seus bolo preferido. Chau, fia!

As lágrimas teimosas continuam a escorrer pela minha face, por causa de algo que não tem mais volta... Sinto-me angustiada porque, apesar de saber que nunca é tarde para se tentar mudar o que não está bem, lamento nunca ter tido realmente a oportunidade de fazer diferente do que fiz... Não sei se tenho forças suficientes para tentar uma mudança após tanto tempo planejando, minuciosamente, o caminho que eu trilharia...

Hoje, sei que sou a mesma menina, por dentro, só que, agora, uma menina grande, com contas para pagar. Sou uma princesa, considerando-se que poderia ter sido uma menina de rua, porque, a despeito de, quando ainda pequena, ser condenada a ficar presa a um passado distante, não deixei de amadurecer positivamente com a idade e o trabalho duro típico de gente grande. Não sei se venci ou se perdi, mas, também, que importância isso tem quando sei que o “amor” é capaz de acabar com tudo?

Uma vez mais, sinto uma pressão enorme no peito, uma angústia sem fim e minha respiração falha, o ar não chega aos meus pulmões. Começo, uma vez mais, a tentar respirar! Faço um esforço tremendo, sinto lágrimas correrem abundantes por meu rosto e, após minutos respirando bem fundo, consigo sentir que estou no mundo dos vivos, outra vez!

Mal me recupero e meu celular toca com a música de chamada que identifica o Carlos! Penso em não atender, mas, muito mais forte que eu, é meu impulso de empurrar para longe tudo o que funciona como um gatilho para esta sensação de pânico horrível. E, com certeza, o Carlos é o maior gatilho de todos, queira ou não eu admitir isso... Então, resoluta, decido dar o primeiro passo para acabar de vez com o problema.

E agora????



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