domingo, 5 de outubro de 2014

O LADO BOM DE SER TRAÍDA - Capítulo 42


Bárbara

Um tranco, um estrondo, a escuridão e a dor.... São os últimos momentos sentidos. Ouço pessoas falarem a minha volta, no fundo um som de sirene se aproximando, me esforço para abrir os olhos e ver o que está acontecendo,
tento lembrar o que provocou toda esta dor no meu corpo, está angústia e escuridão, mas nada me vem a mente, não lembro de nada! 

- Afastem-se por favor. Ouço alguém falar. – Veja os sinais vitais dela. 

Sei que estou sendo examinada por alguém, com muito cuidado tocam em meu pescoço, e envolve em algo duro, espécie de colar, até que sinto o meu corpo sendo movido para uma superfície macia. Tento me mexer, mas meu corpo não responde, acho que isso tudo não passa de um pesadelo, aqueles horríveis pesadelos, que você escuta vozes, sente a presença de outras pessoas, mas não pode se mexer ou abrir os olhos para se localizar, estou pedido à Deus para que este sonho ruim acabe, e eu possa volta para luz. 

Mas dessa vez é um sonho diferente, sinto uma dor imensa por todo meu corpo, sinto a pele em carne viva, chega arder. Como será que isso tudo começou, me esforço para descobrir e nada vem a minha mente. Tento gritar e nada acontece, me sinto claustrofóbica nessa escuridão.

De repente um alivio, alguém invade essa escuridão me chamando.

- Bárbara, você me ouve? Sou Dr. Willian, paramédico e estamos encaminhando você a uma unidade de emergência. 

Tento perguntar por que, mas a escuridão volta com força total. Sinto meu corpo levitar e algo me amarrar como se fosse um sinto de segurança passando por todo o meu corpo. E para completar as sensações inexplicáveis, sinto o movimento brusco, como se eu estivesse dentro de um caminhonete e novamente o barulho contínuo de sirene. Força Bárbara! Você consegue! Meu cérebro manda sinal, mas o corpo não obedece. Ah não, que brincadeira sem graça, quero sair daqui. Tenho o direito de saber o que está aconteceu. Contudo, nenhum dos meus pedidos são aceitos, e a única coisa que sinto, é a picada de uma agulha em meu braço, e pronto a escuridão volta para ficar. 

Não sei há quanto tempo estou neste estado de letargia, porém a luz volta aos meus olhos, com muita dificuldade consegui abri-los. O cheiro do local é diferente, e não demoro para reconhecer que o ambiente exala éter, aos poucos sinto também um carinho leve em meus cabelos, e com olhar de soslaio, reconheço o Caio ao meu lado, com um olhar de assustado. 

Enquanto estou olhando para os seus olhos, com um semblante triste, um filme passa em minha cabeça, e começo a pensar em tudo que aconteceu em minha vida nos últimos meses foi um sonho, neste sonho ele me faz feliz, me mostra o verdadeiro amor. Mas agora que estou acordada ele não está mais ao meu lado. Meu Deus, será que tudo não passou de um sonho? E só saio deste transe quando ouço as enfermeiras afastando o Caio, levando-o para longe. 

- Por favor, me deixa acompanhá-la. Não tire-a de mim. Ele fala exaltado e totalmente fora de controle. 

- Senhor, por favor, aguarde na recepção, logo o médico dará notícias - Ele reluta a sair e nesse momento, um barulho enorme vem dá porta e lá está ele o meu anjo, lindo como nos meu sonhos.

Entro em pânico, não quero dormir novamente, não quero sentir frio e sozinha, mas meu corpo dói tanto que não consigo obedecer as vontade do meu coração. Um coração acelerado e desesperado em poder tocar no anjo que vi a minha frente, agora dá lugar a um ritmo lento e dolorido.

Enquanto os médicos faz seus exames, e consigo vê-los ao meu redor, aplicando IV no meu braço, remédio, e todos os fios que insistem em conectar ao meu corpo, eu começo a focar na causa de toda esta bagunça. - Eu estava tranquila voltando para casa e percebi aquele carro preto me seguindo, não imaginei que tivesse qualquer ligação comigo, só imaginei coincidências de caminhos e quando olhei no retrovisor, já era tarde, o carro já estava em cima de mim, tentei até acelerar um pouco para não ser atropelada, mas o carro atingiu em cheio a traseira da minha moto. - O que o Caio está fazendo aqui? O que aconteceu comigo? Porque o Marco apareceu de repente no quarto com uma cara de desesperado?

Marco

Imaginar minha sereia machucada me deixa sem chão, a dor que sinto e a vontade que tenho, é de estar no lugar dela.A Márcia se prontifica a conduzir o carro para o hospital, mas digo não ser necessário, acredito que o silêncio que me tomou, acabou assustando elas um pouco.

- Meninas, eu estou bem. Não fiquem preocupadas, ainda sou responsável com as leis de trânsito, então se querem uma carona vamos rápido, porque não perco mais um minuto longe da minha mulher.

- Marco, só um minuto. Vou pegar a agenda da Bárbara, agora precisamos avisar os pais dela. Fala a Patrícia, que de tanto chorar, foi até difícil entendê-la. 

Poxa que momento mais inoportuno para conhecer os pais dela. A Márcia está mais calma, mas a Patrícia chora tanto que acaba me deixando um pouco mais nervoso a cada segundo, também estou de mãos e pés atados, as notícias que recebi não confortaram o meu coração, só apenas me deixou mais louco de preocupação. 

- Patty, respira! Com fé em Deus tudo vai dar certo! Ela está bem, vamos nos apegar a isso. - Faço o meu melhor para acalmá-la. Mas nem eu sei como estou conseguindo dirigir, as pernas não param de tremer. 

- Obrigada Marco, também sei o que estar sentindo. Só não consigo entender como isso aconteceu. A Babby é muito prudente.

- Vamos esperar os laudos periciais, confio também na habilidade da Bá ao pilotar. 

Acho que menti para as meninas quando disse sobre respeitar as leis de trânsito, porque tenho certeza que infligi diversas delas ao nosso percurso. E mais uma vez a eficiência da Márcia, quando chegamos ao hospital já tínhamos todas as informações possíveis a respeito de onde encontrar a Bárbara, só não esperava ser barrado pela atendente informando que ela já estava com um acompanhante.

- Estamos indo visitar a paciente Bárbara Nucci, que sofreu um acidente de moto.

- Sinto muito senhor, mas ela já está com um acompanhante, e só é permitido uma única pessoa. 

- Como assim um acompanhante? Quem pode estar com minha mulher. Deve ter algum engano, nós somos as únicas pessoas que ela tem.

Ela me olha com um olhar de interrogação e me informa quem é o filha da mãe que está com ela.

- Tenho aqui registrado que o Sr. Caio noivo dela, está acompanhando.

Mas que merda é essa. Esse babaca está doido para sentir o meu punho no queixo dele de novo, e dessa vez não tem ninguém para me parar. É muito desaforado, mente para entrar no meu lugar e ainda pensa que vai ficar assim, ah mas não vai mesmo. 

Entro a cada porta que vejo pela frente, e nenhuma me leva ao meu amor. Será que esta porcaria é tão grande assim, que ninguém sabe informar onde ela está? Depois de perguntar para quem atravessasse na minha frente, encontro uma alma bondosa que me dá finalmente a direção certa a seguir. E finalmente encontrei-a, muito machucada, com a calça rasgada, provavelmente devido aos procedimentos de primeiro-socorro, e quando fixo em seu rosto, encontro um par de esmeraldas lindos, mas totalmente aflitos, me pedindo ajuda. Como eu queria estar no lugar dela. Quando olho para o lado lá está o bastardo, com as mãos na cabeça, com olhar de desolação, contudo esta cara de cachorro que caiu da mudança não me comove, e vou pra cima dele. 

- O que você está fazendo aqui?

E antes que ele se defenda ou responda, os médicos gritam para que saiam todos, e apesar da minha vontade de quebrar a cara do Caio, primeiro a vida e saúde da minha amada, depois resolvo com o babaca. Fico do lado de fora do quarto, andando de um lado ao outro, o covarde do Caio saiu de perto, pelo menos é um pouco inteligente e sabe que se tivesse continuado ao meu lado agora ele estaria com certeza em uma maca sendo socorrido.

A porta do quarto se abre e vejo uma movimentação, aparelhos chegando e uma equipe cirúrgica encaminhando em direção ao quarto. Minha paciência já se esgotou e nesse momento paro um médico que está saindo apressado do quarto.

- Doutor, por favor, me dê notícias da minha namorada. 

- Senhor agora não é hora de notícias, só posso adiantar que estamos levando-a para uma cirurgia de emergência, agora aguarde novas notícias. 

- Pelo menos posso dar um beijo nela, antes de ir para a cirurgia? Acho que ele vê a dor nos meus olhos e acena com a cabeça.

Entro no quarto com um nó na garganta, vejo minha mulher toda imobilizada, entubada, com aparelho de monitoramento cardíaco e de pressão, sei que é para o bem dela, mas minha vontade é de tirar tudo e colocá-la em meu colo e beijar muito e fazer carinho, já vivi uma cena parecida com a minha Vitória meses atrás e o sentimento de impotência em não conseguir ajudar dói demais. Aproximo-me da cama dou um beijo em sua testa e falo em seu ouvido.

- Minha sereia se estiver ouvindo isso. - Passo as mãos em seus cabelos. -Saiba que te amo mais do que imaginei amar uma mulher em toda a minha vida e exijo que você fique boa logo e case-se comigo. - Ela não se move e as lágrimas escorrem na minha face.

Espero que ela lute por sua vida, lute por ela, por mim, por todos nós, e saiba que estamos angustiados. E sei ela não sei como viver. Sinto uma culpa imensa por não estar perto dela na hora do acidente. Na minha cabeça eu só me pergunto como??? Por que? Como eu deixei isto acontecer? Dói de um jeito que não sei nem explicar, é uma dor como eu nunca senti antes. Queria estar no lugar dela e sentir toda a sua dor.

Caio

A enfermeira boazuda permitiu a minha entrada na ala da emergência, e apesar de ser gostosa e estar dando o maior mole, eu não senti vontade de nem pegar o seu telefone, minha mente estava travada na Bárbara, e vendo-a ali tão vulnerável e desprotegida, me senti um pouco egoísta em não avisar ninguém, mas minha vontade de estar só com ela passou por cima do que eu ainda acho o que é certo ou errado.

Quando ela acordou, senti o desespero dela eu não saber o que estava acontecendo, me assustei muito, naquele momento não podia sair de perto dela, só tinha eu ali e ela toda vulnerável sofrendo, acho que acabei surtando, quando vi o idiota invadindo o quarto e os olhos dela procurando por ele, meu coração murchou, a minha força de vontade de conquistá-la novamente, escorreu pelos meus dedos, e com esta visão, decidi ir embora. Não por covardia da situação, mas para o seu próprio bem, neste momento de fragilidade, ela não precisa presenciar a luta de testosterona. 

Não esperei ele falar nada, e quando cheguei a recepção, encontrei duas histéricas me acusando, me xingando e ainda por cima querendo notícias da Babby.

- Caio seu filha da puta, o que você está fazendo aqui? Por que não avisou? - Grita uma Patrícia histérica e cheio de drama, perfil dela, sempre foi assim, faz tempestade em copo d'água. 

- Patrícia, abaixe o tom. Estamos em um hospital, se é que não percebeu, e não avisei porque não tem necessidade, eu sou o noivo dela, e sou eu que deve protegê-la. 

- Ah seu idiota inescrupuloso, desde quando você é noivo dela? Será que você não entende que ela está em outra? É o Marco que ela quer, ou agora além de filho da puta você também é cego? - E os xingamentos perduraram. 

Deixo as duas galinhas ciscarem bastante, elas precisam de um saco de pancadas, já que são duas frustradas, provavelmente estão estressadas por não darem uma faz tempo, recalcadas. Depois de muito reclamar, xingar e espernearem. Eu resolvo dar um basta.

- Estou indo pra casa, volto mais tarde! 

E saio, ainda ouvindo as duas amaldiçoando até a 7ª geração da minha família. Oh bando de frangotas que vivem na sombra da Babby, sempre alertei para isso, mas ela insistiu em falar "são as minhas amigas", amigas, sei! São duas invejosas! 


Nenhum comentário:

Postar um comentário