domingo, 24 de janeiro de 2016

O Juiz - Secret Garden - 08

Capítulo Oito

Madison

— Preciso de companhia, Mad. Tenho outro jantar de merda para ir – Ben fala e senta à minha frente.
— Dessa vez não poderei, amigo – sirvo sua cerveja preferida — Mas tem alguém que acredito que ficará feliz em ajuda-lo.
— Quem? – ele bebe um gole e continua — Não é nenhuma das suas clientes desesperadas, é? Se for estou fora.
Reviro os olhos. Bobão.
— Não. Alyssa.
— O que tem Alyssa? – Christopher pergunta, sentando-se ao lado de Ben.
— O que vai querer, bonitão? – pergunto sorrindo.
— O de sempre, gata –  Chris fala piscando para mim.
Pisco e me viro para pegar sua dose dupla de Whisky, um dos mais caros da casa. Quando me viro para servi-lo, dou de cara com Noah sentado ao lado deles.
— Achei que vocês não se misturavam com o resto dos mortais. Vou chamar o Ramon para servi-los – mal termino de falar e os três falam ao mesmo tempo:
— Não!
— Pedimos substituição para Rebecka. Era só o que faltava deixar de ser servido por uma gostosa, para ser servido pelo Ramon – Ben e suas opiniões singelas. Balanço a cabeça.

— Depois do feriado, eu não quero outra pessoa para me servir – Chris fala rindo — Rebecka deveria obriga-la a servir com a mesma roupa das garçonetes.
— Não! – Noah o corta.
Todos olhamos para ele e Chris pergunta:
— Exatamente o que é esse “não”?
— Eu quero o de sempre – Noah pede.
— Desculpe-me senhor, não sei qual é o seu de “sempre”, porque nunca o servi. Poderia esclarecer-me, por favor? – falo sem olhar nos seus olhos.
— Uma Oettinger – Ah, então é para ele essa cerveja. Uma marca alemã famosa — O meu “não”, é referente a senhorita Harver trabalhar com as roupas das garçonetes.
— Com essa camisa aberta e a saia, já faz sucesso – Ben fala olhando para Noah — Meu convite ainda está de pé, Madison.
— Você deveria se controlar mais, Benjamin – o tom de desaprovação do Noah não passa desapercebido. Os outros dois se entreolham e balançam a cabeça.
— Então, o que tem Alyssa? – Chris pergunta novamente.
— Ben precisa de uma acompanhante para um daqueles jantares sem graça e acho que Alyssa será uma boa companhia, já que ela não visa a cama dele – falo enquanto ajeito os copos do bar.
— Olha, olha... – Rebecka aproxima-se — Nunca imaginei em vê-los aqui fora, ficam sempre na sala privada. Madison fazendo milagres.
Faço uma careta. Não gosto quando concentram a atenção em mim. Caio na besteira de olhar para Noah que também está me olhando. As imagens daquela noite fatídica voltam para me atormentar. Ainda posso sentir suas mãos passeando pelo meu corpo, sua boca na minha...
— Madison? – ouço alguém me chamar e levanto os olhos, perdida. Vejo Noah sorrindo de canto. O infeliz sabe o motivo da minha distração.
— Mad, está tudo bem? – Rebecka me olha preocupada.
— Hoje a nossa ruiva está muito distraída – Ben fala.
— Nos conte o que está a deixando distraída, senhorita Harver – o juiz debochado quer tirar uma com a minha cara.
Vamos ver até onde o joguinho do gostosão vai. Escoro-me no balcão, dando uma visão suculenta dos meus seios para ele e respondo olhando em seus olhos:
— Conto, se nos disser onde escondeu a coleira que a Mortícia usa em você.
Um coro de “oh” assobia, Christopher cospe toda a bebida que estava em sua boca. Ben ri alto e Rebecka disfarça sua risada. Noah olha para mim ainda sorrindo:
— Você me paga, ruiva.
— Não vejo a hora, excelência – pisco para ele. As risadas cessam e percebo que os outros que estavam rindo, agora estão olhando para nós sérios. Pergunto — O que foi?
Eles balançam a cabeça e não dizem nada. Vou atender a uma das meninas que veio fazer um pedido e distraio-me novamente com as lembranças do rompante do juiz no sábado à noite, em sua casa. Não vou mentir, eu adorei. E o fato de saber que tinha pessoas na casa, me deixou ainda mais excitada. Aquele homem sabe o que fazer com uma mulher. Quando a Carly o chamou, meu sangue gelou, mas não podia fazer muita coisa, o orgasmo deixou-me de pernas bambas.
Assim que ele subiu, ouvi ele falar que dormiria no quarto de hóspedes. Eu pensei em ir, mas como poderia? Ele é comprometido. Eu já fui traída e sei como dói. No domingo pela manhã, eu não tinha cara para tomar café na mesma mesa que ele e muito menos suportar aquela namoradinha me ofender. Inventei uma desculpa para Alyssa e saí de lá o mais rápido que pude. Naquela noite, mal dormi pensando como o encararia no outro dia de trabalho. Mas Deus existe e tem pena de mim, nos três dias que se seguiram, ele tinha reuniões fora da cidade.
Um dos clientes mais queridos do Secret Garden, o empresário Cole Knight, senta em um dos bancos do bar e tira-me das lembranças.
— Boa noite, senhorita Madison.
É impossível não sorrir com ele. Sua docilidade é cativante.
 — Boa noite, meu cliente preferido. O que vai beber?
— Uma dose de Madison, pode ser? – ele fala mais sério que o habitual.
— Está pronto para isso? – ele acena que sim e eu preparo um dos drinks que tem mais saída por aqui, entre as mulheres. Eu o sirvo, enquanto afrouxa a gravata — Dia difícil, Cole?
— Muito – ele faz uma careta — Está cada vez mais complicado manter segredo, quando na verdade, você quer gritar a verdade para o mundo.
Cole é gay e seu companheiro vem exigindo que ele assuma-se de uma vez. Mas as coisas não são simples assim, ele tem uma família mega religiosa, único homem de uma família de três mulheres. Seu pai vem cobrando um herdeiro há tempos e ele vem aqui para disfarçar suas noitadas. Seu namorado frequenta o clube também, Aidan é ainda mais querido que Cole.
— Não está na hora de pensar em vocês, Cole? – seguro sua mão.
— Não sei, Mad – ele baixa a cabeça — Não sei.
Dou a volta no balcão e o abraço.
— Quando precisar, sabe que tem uma amiga. Basta chamar, ok?
— O que está acontecendo aqui? – Noah esbraveja alto. Viro-me para ele.
— Nada, juiz Lancaster.
Para me proteger, Cole coloca-se a minha frente.
— Algum problema, Noah?
— Há sim – ele aproxima-se — Ela é funcionária aqui, não pode simplesmente largar o serviço para satisfazer os seus caprichos, Knight.
— Rapazes, rapazes. Vamos ter calma – entro no meio dos dois e volto-me para Cole — Ele está certo, aqui é o meu trabalho. Depois a gente se encontra, tudo bem? Sente-se por favor e beba em paz, você merece.
Rebecka chama-me:
— Mad, estou tendo problemas com uma das meninas. Pode me ajudar?
— Estou indo – passo esbarrando em Noah, mas não o olho. Que idiota! Por que não se enfia naquela sala privada e pronto? Não... não ele.
Vou para um dos camarins encontrar as dançarinas, essas meninas precisam aprender o valor da humildade. Todas as dançarinas do clube são profissionais. Apenas dançam, nada de sexo, pelo menos não aqui no clube. Os números apresentados na casa são ensaiados e coreografados exaustivamente, por um profissional. As stripers, dançarinas de pole dance e qualquer outra que dance, passam por uma rigorosa avaliação. São muito bem pagas e tratadas como estrelas, algumas tem uma vida de luxo.
Para acompanhantes, são selecionadas meninas tipo modelo, com ensino superior completo ou cursando. Elas são pagas somente para agradar aos clientes, sem sexo. Mas quando rola alguma coisa, há lugares específicos dentro do clube para que eles fiquem à vontade. O preço quem faz, são elas. O clube não se mete nas negociações sexuais de seus clientes. O ambiente é cedido e bancado pelas mensalidades que os sócios pagam.
Rebecka não as alicia, elas vêm procurando por vagas, deixam fotos e currículos, os responsáveis a chamam para passarem por uma espécie de audição, onde elas falam um pouco sobre si. Há também as modelos que procuram Rebecka para serem acompanhantes de luxo. Sabe quando vemos aqueles caras feios posando ao lado de lindas modelos? Pois é, eles pagam uma pequena fortuna para isso. Sei que Rebecka as enviam para serem somente acompanhantes, mas se rola sexo, ela prefere não ficar sabendo. Acredito que assim elas tiram algum por fora e explicaria o fato de ter um monte delas, batendo na porta do clube, todo dia.
Sem sombras de dúvidas, as dançarinas são as que dão mais problemas. Seus superegos têm que ser constantemente amaciados, senão, nunca estarão satisfeitas e dando chiliques. Acredito que o fato delas serem muito assediadas e desejadas, enquanto dançam, fazem elas pensarem que podem tudo. Mas, adivinhem, não podem!
Vou em sentido a gritaria. Chegando no camarim dois, vejo Selena, uma loira platinada, com lentes de contato violeta e roupas da Frozen. Tem gosto para tudo nessa vida.
— Qual é o problema, Selena? – pergunto sem muita paciência.
— O problema é que estou ganhando muito pouco. Meu talento não pode ser desperdiçado assim, sou uma diva do strip-tease, Madison. Camarim dois? Sou a fonte mais rentável desse clube, mereço um lugar exclusivo, com duas pessoas trabalhando para o meu bem-estar.
Senhor Amado, até onde vai à loucura das pessoas? A tinta deve ter feito mal para essa criatura. Aqui não existe classificação e se existisse, ela nem estaria no dois, talvez no cinco ou no dez. Minha vontade é demitir, mas antes que eu faça alguma coisa, levanto um dedo, pedindo um minuto, vou até Rebecka.
— Precisamos da Selena, Becka? Porque ela vem dando problemas há tempos. Acho que está na hora de coloca-la de reserva, para que aprenda a lição da humildade.
— Ela é boa no que faz, não queria perde-la, Mad. Mas se você achar que devemos dar um gelo, peço para Debby substituí-la.
— Onde vocês encontram essas meninas problemáticas? – pergunto.
— Infelizmente as problemáticas, geralmente são as melhores – Rebecka responde sorrindo.
Volto para o camarim e a ouço gritar sobre o champanhe quente. Haja paciência e o resto da que eu tinha, Noah fez questão de esgotar. Vejo a assistente secar a roupa, porque a louca da Frozen surtou e jogou a bebida na garota.
— Você está demitida, Selena – falo sem pensar muito. Viro as costas e encaminho-me para a porta.
— Você não pode me demitir. Não passa de uma garçonete.
— Verdade. E você não passa de uma mulher iludida, achando que todos devem servi-la, porque é a diva dos tarados, viciados em desenhos animados. Trata os outros com arrogância e mediocridade. Definitivamente, não precisamos de gente como você por aqui, Selena. Aliás, ninguém precisa de pessoas como você. Se toca, porque está ficando feio. Está demitida e ponto final.
Ela começa a chorar. Haja paciência.
— Estou passando por dias difíceis, Mad. Preciso desse emprego.
— Quanto tempo dura esses dias difíceis? Porque não é a primeira vez e nem a segunda, que você dá esses seus chiliques insanos. Se precisa do emprego, para de agir como uma vaca louca e comporte-se. O que você faria se eu te jogasse uma taça de champanhe nessa sua carinha? Tenho certeza que não iria gostar. Peça desculpas a sua camareira. Diva que é diva, não faz esses papéis de ridícula. De agora em diante será assim, surtou, ficará sem camarim.
Viro e saio. Eu não costumo lidar com a situação assim. Converso, procuro entender as frustrações para depois decidir a forma correta de lidar com a situação. Mas nesses últimos dias, ando sem paciência, não estou sabendo lidar com as situações corriqueiras, principalmente o que aconteceu com ele. Só de pensar, meu corpo aquece e espera por ele. O problema é que o juiz é comprometido. Vou para a sala de descanso dos funcionários, que está vazia uma hora dessas. Sento-me no canto para pensar.
Noah é comprometido com Carly, tenho que me afastar dele. No gabinete serei o mais profissional possível, evitar contato. As duas semanas de Harriet está esgotando, daqui dois dias, ela estará de volta. Talvez, envie-me para a sala de protocolo. Pego meu celular no bolso e procuro na minha lista de contatos, alguém que possa me satisfazer e fazer com que eu esqueça essa loucura com Noah.
Lembro daquele amigo do Cole. Fomos apresentados em um jantar na casa dele, é o único que sabe sobre a opção de Cole e aceita numa boa. O nome dele é Michael, ele deu seu telefone, mas nunca retornei. Talvez seja o momento, disco o seu número rapidamente. Dois toques depois ele atende.
— Michael?
— Não acredito que a ruiva mais sexy que já conheci, está me ligando. Eu já tinha perdido as esperanças.
— Obrigada pelo “ruiva sexy” – falo rindo — Minha vida anda corrida. Como você está?
— Melhor agora. Mas ficarei muito melhor quando resolver jantar comigo.
A voz dele é grave, do tipo locutor de rádio. Olho para o meu relógio, é uma hora da manhã. Quem sabe eu não conquisto o bofe para falar no meu ouvido. Limpo a garganta e faço minha melhor voz, tom baixo, falando pausadamente. Os homens adoram ligações com voz de tele sexo.
— Está afim de me encontrar agora?
— Sim – pelo seu tom, deve estar sorrindo.
— Perfeito – passo o endereço, uma quadra antes do clube e combinados de nos ver em vinte minutos. Tenho que correr para avisar a Becka, que é minha cúmplice nesses meus encontros furtivos.
Encontro Ramon no caminho e passo algumas coisas referentes ao nosso estoque. Também deixo algumas instruções para a menina que auxilia as camareiras das divas megalomaníacas. Encontro Becka conversando com Chris.
— Se importa se eu sair agora? – nós duas nos entendemos somente pelo olhar. Fomos desenvolvendo isso com o passar do tempo.
— Claro – ela fala com estranheza e isso chama a minha atenção.
— Se tiver problema, Becka, eu desmarco... – falo com sinceridade.
— Não há problema, é só que... – ela balança a cabeça — Deixa para lá. Vá e divirta-se.
— Quem vai se divertir? – ouço aquela maldita voz logo atrás de mim. Mas que inferno! Deve ser castigo. Deus deve estar me punindo por ter sido Maria Madalena dando para os escribas no templo. Só pode ser. Olho suplicante para Rebecka.
— Pode ir, Mad. Nos falamos amanhã.
Saio sem fazer contato com ele e Chris. Vou em sentido do vestiário, para trocar de roupa. Minha roupa não é para encontro, mas vai essa mesmo. Fico com a saia e coloco meu top preto e a jaqueta de couro. Solto meus cabelos, dou uma ajeitada básica, um batom, uma caprichada no rímel e pronto.
Saio pela porta do fundo e vou em direção ao ponto de encontro. Chegando lá, avisto Michael esperando-me encostado em seu carro. Ele é um homem muito bonito, cabelos pretos curtos, estilo bagunçado. Olhos castanhos escuro, uma boca muito bem desenhada. Ele é um pouco mais alto que eu, talvez um e setenta e cinco, por aí. Magro, mas sempre elegante. Logo que ele me vê, sorri e vem ao meu encontro, dando-me um beijo no rosto.
— Estou feliz por ter me ligado, Madison.
— É sempre um prazer te encontrar, Michael – falo enquanto retribuo o beijo.
Ouvimos um carro parar bruscamente ao nosso lado. Assustando-nos
— Madison?
— Está de brincadeira, não é? – falo com Deus, olhando para o céu. Viro-me para encarar o filho da puta que agora me persegue — Eu não acredito.
Noah aproxima-se e eu dou um passo mais para perto de Michael, que passa seu braço pela minha cintura e fala:
— Algum problema, gatinha?
— Não. Só não estou acostumada a encontrar o meu chefe em todos os lugares – sorrio sem graça.
Ben, que provavelmente viu a cena de longe, para o carro e se coloca ao lado de Noah.
— O que está acontecendo aqui?
Sério? É a reunião do clube do bolinha, no meu encontro?
— Nada. Apenas estou no meu encontro – falo passando a mão pelo rosto de Michael e olhando para Noah. Eu não sei o que acontece comigo, quando esse homem está por perto. Já sou ousada por natureza, mas perto de Noah, eu me torno selvagem. Sei lá.
— Deixa eu ver se entendi... – seu tom de voz, não é bom — Você saiu no meio do seu turno, por que tinha um encontro?
— Sim – viro-me para Michael — Um belo encontro, por sinal – o beijo com gosto. Um beijo digno de cinema, com língua, calor e luxuria.
Ouço Ben falando para se controlar e irem embora. Eu queria olhar, mas não ia correr o risco do animal descobrir que eu só estava fazendo aquilo, para fugir dele. Depois que eles se foram, eu separei minha boca da dele.
— Desculpe-me por isso.
— Não se desculpe. Foi um prazer ajuda-la – ele fala sorrindo — Está com fome? Quer comer algo?
— Quero sim.
Fomos a um restaurante não muito longe dali. Comemos, conversamos e nem por um minuto, tirei aquele desgraçado da minha cabeça. Amanhã terei que encará-lo no gabinete e como será? Com toda certeza jogará na minha cara que sou uma péssima profissional. Saímos de lá tarde, peguei um táxi e fui para casa.
Minha casa é meu refúgio, poucas pessoas sabem que moro aqui, Rebecka é uma delas. Não costumo receber visitas e nem faço questão. Não gosto de correr o risco de perder a quem amo, mesmo que para isso, o preço seja não amar.
Ouço barulhos e abro os olhos, viro-me para ver a hora no celular e não acredito no que vejo — Merda! Merda! Merda! Estou atrasada.
Já era dez e quarenta e cinco, até eu me arrumar e chegar lá, será por volta das onze e meia. Merda! Tento recordar da agenda dele, mas tudo indica de que ele estará no gabinete agora pela manhã. Noah é uma das pessoas mais pontuais que conheço. Ah, não. Ele vai encher meu saco. Corro pelas ruas de salto alto, parecendo uma maluca, esqueci até de pentear o cabelo.
Entro no escritório e dou de cara com aquele sorriso irritante da Robbie. No começo, aquele sorriso me confortava, mas hoje, irrita-me.
— O juiz já chegou?
Seu sorriso some. Isso não é bom, Madison. Nada bom.
— Você sabe que ele costuma chegar antes do horário e já perguntou de você, várias vezes. Tentei ligar para o seu celular e você não atende.
Enquanto caço a merda do telefone na bolsa, ouço ele:
— Senhorita Harver, minha sala, agora!
Encaminho-me para sala dele rezando todas as orações que conheço e fazendo promessas descabidas, porque a coisa está tensa. Penso duas vezes antes de entrar. “Se quiser fugir, ruiva, essa é a hora”. Fico em pé frente a ele.
— Bom dia, senhor. Desculpe-me...
Ele está tirando o terno e dobrando as mangas até o cotovelo, fazendo com que a minha atenção volte para o seu corpo.
— Guarde suas desculpas para si. Só um aviso, não permita que sua vida pessoal interfira no seu trabalho. Eu não posso demiti-la, mas posso transferira-la para um lugar mais adequado para terminar sua pena.
Um nó se forma na minha garganta, suor frio toma conta do meu corpo. Esse tom de voz dele, somado ao olhar, é simplesmente ameaçador. Ele não está para brincadeira e sinceramente? Eu não me atreveria.
— Sim, senhor.
— Providencie meu almoço – olho para o relógio que fica na estante e vejo que são meio dia e quinze. Merda! — Algum problema, senhorita Harver?
— Não, senhor.
Ele cruza as mãos em frente e boca.
— Então, por que ainda não foi?
Saio para minha sala em disparada. Excitada. Ele fica ainda mais gostoso quando está assim. Providencio e sirvo seu almoço na mesa de reunião, enquanto faço isso, ele ignora minha presença. Retiro-me da sua sala e vou para minha repassar os compromissos que restam. Depois de mais ou menos meia hora, ele abre a porta.
— Madison, você ficará até mais tarde. Eu tenho alguns papéis para você revisar e fazer marcações. Ligue para a Rebecka e avisa que hoje, você não irá para o clube. Se ela pode se dar ao luxo de te dispensar, no meio do expediente para se encontrar com alguém, poderá dispensa-la por algo útil.
— Sim, senhor – rapidamente ligo para Rebecka — Becka?
— Oi, Mad. O que me conta de novo? Como foi seu encontro ontem?
— Menina, nem te conto. Noah e Ben passaram na hora que eu estava com o cara e pararam o carro...
— Não! – tenho a impressão que ela está sorrindo — E aí?
— Aí que o todo poderoso Lancaster, me questionou sobre ter saído antes do clube para me encontrar com alguém.
— Isso não faz o tipo do Noah. O que está acontecendo com ele? Ontem quando eu disse que você iria embora mais cedo por causa de um compromisso, ele simplesmente mudou de humor.
— Tem mais – falo.
— Mais?
— Perdi o horário e cheguei aqui muito tarde. Agora tenho que compensar as horas trabalhando. Ele disse para que eu te ligasse para dizer que não vou para o clube hoje. Que se você pode me dispensar no meio do expediente para sair com alguém, pode dispensar para algo mais útil.
— Sério? Estou passada com Noah. Tudo bem, mas você e eu conversaremos depois. Beijos.
— Beijos – desligo o telefone e volto para a tela do computador para encaminhar alguns e-mails.
No meio da tarde, ele grita meu nome. Telefone para que, não é? Vou até ele.
— Estou com muita dor de cabeça, vou trabalhar na cobertura. Pelo menos lá, há silêncio.
Ele se levanta, pega o terno e sai com a pasta. E eu fico aqui, com cara de estátua. Homens são muito complicados, se está indo embora, por que mandou eu ficar até mais tarde? Organizo a mesa dele e volto para minha sala. As horas passam, está perto do fim do expediente e vou para minha tarefa de final de dia, que é ir em cada sala pegar um relatório. O telefone toca.
— Madison, quero você na cobertura em quinze minutos, com aquelas pastas que estão em cima da mesa de reuniões – ele desliga sem me dar a chance de perguntar, que porra de cobertura é essa?
Finalizo minhas coisas, pegos as benditas pastas e vou até Robbie na recepção.
— Você sabe onde fica a cobertura do juiz Lancaster, Robbie?
— Por que você quer saber? – aquele sorriso irritante corta seu rosto de orelha a orelha novamente. Dai-me paciência, Cristo.
— Porque a criatura acabou de me ligar, pedindo para levar essas pastas lá. O problema é que não sei onde é.
— Não fica muito longe daqui – ela fala enquanto escreve em um papel e entrega-me.
— Obrigada – aceno e corro para atender o juiz.
Olho para endereço e sigo meu caminho. Depois de caminhar por alguns minutos, vou até a recepção do prédio. Um senhor muito simpático, me atende:
— Em que posso ajuda-la, senhorita?
— Eu sou assistente do juiz Lancaster. Acredito que ele esteja me esperando.
Ele verifica alguns pequenos papéis que estão em sua mesa.
— Madison Harver?
— A própria – falo sorrindo e ele retribui meu sorriso.
— Pode subir.
Pisco para ele e me vou. Entro no elevador e vou xingando aquele inútil em pensamento. Bastardo. Por que simplesmente não me liberou? Até parece que está me castigando por alguma coisa. Bom, ele está me punindo por bater em alguém. As portas do elevador se abrem e dou de cara com portas duplas de uma madeira escura, toda esculpida. Ok, o cara não é de brincadeira.
Aperto a campainha e Noah abre a porta, com a camisa aberta até o meio do peito.
— Entre.
Seco a minha saliva, que provavelmente está escorrendo, endireito-me e passo por ele. Esbarrando, lógico, não sou de ferro. O lugar é tão deslumbrante quanto o seu dono. As paredes que dividem os ambientes, são todas em vidro. Daqui, de onde estou, posso ver outros tantos ambientes e a cidade logo abaixo, porque as paredes da sala, também são de vidro.
A decoração é em preto e branco, muito clean. Móveis são dispostos de uma maneira que sobra bastante espaço pelos cômodos. Noah passa por mim e o acompanho até o escritório, que é tão bonito quanto o resto do imóvel.
— Seu apartamento é lindo.
— Obrigado – ele aponta para alguns papéis — Preciso que marque essas informações, desse dia e dessa hora, para que eu cruze com as informações que já tenho no processo. A primeira parte está aqui, a segunda está nessas pastas que você trouxe.
Ele puxa uma cadeira para mim e antes de sentar, tiro meu tailleur, coloco a camisa por fora e sento. Abro a primeira pasta e começo a fazer as marcações. O perfume dele toma conta do ambiente, fazendo-me levantar o olhar para analisa-lo. Concentrado, é ainda mais bonito. Ele tem a mania de colocar a ponta dos óculos na boca, fazendo-me desejar ser a porcaria do objeto. Minha barriga resolve cantar Sinatra. Ninguém merece a vergonha. Ele levanta seu olhar para mim.
— Você está com fome – percebo que não foi uma pergunta, mas aceno que sim e ele prontamente liga para algum lugar e encomenda comida para um batalhão.
Voltamos para nossas ocupações e mais uma vez, perco-me na beleza dele. O tempo passa e as imagens da piscina, lembranças dos seus beijos invadem minha cabeça e meu corpo desperta para o pecado. Nossos olhares encontram-se e nos perdemos um nas profundezas do outro. Noah coloca sua cadeira para traz e a campainha toca. Ele fala já se levantando:
— Deve ser a comida.
Meu Deus, eu nunca imaginei que um juiz pudesse ser tão sexy. Na televisão, eu só via aqueles gordos de cabelos brancos. Ele grita por mim de algum lugar desse apartamento, tirando-me dos meus loucos pensamentos. Vou seguindo o barulho das sacolas até entrar em uma cozinha impecável. A bancada estava cheia de comida.
— Tudo isso só para nós dois ou tem mais alguém?
— Só para nós dois. Sente-se e sirva-se. Eu não sabia o que você gostava, então, pedi de tudo um pouco.
— O cheiro está delicioso – sirvo-me e sento de frente para ele.
— Posso te fazer uma pergunta, Madison?
— Claro que sim.
Ele fala concentrado em sua comida.
— Por que você é conselheira de mulheres desesperadas?
— Apelido carinhoso que me deram. Sou apenas aquela amiga que ajuda as meninas a enxergarem algumas coisas.
— Que tipo de coisa?
— Coisas do tipo, você pode ser feliz sem ter que casar. Muitas mulheres são criadas em um universo que precisam de alguém que as façam felizes, caso contrário, serão infelizes. Talvez uma cultura machista de muitos séculos atrás, em que a mulher tem que ser dependente do homem, em todos os sentidos...
— Isso soa muito feminista.
— Talvez. Mas eu só quero mostrar a elas, que antes de serem felizes com alguém, elas têm que serem felizes consigo mesmas. Romper tabus que são pregados, não se deixar levar por pré-conceitos tolos. Quem sabe assim, não encontram seus príncipes encantados.
— Príncipes encantados – ele fala rindo — Não acha que pregar a existência do príncipe encantado, meio que vai contra o que você tenta provar?
— Não – respiro fundo.
— Não existe homens perfeitos, Madison.
— Príncipe encantado, tem mais haver com resgate do que com perfeição. Resgatam de uma torre alta, da bruxa má, dos sonos eternos e muitas vezes, resgatam delas mesmas – essa última parte, falo mais para mim, do que explico para ele.
— Você está esperando seu príncipe? – seu sorriso é lindo e sua boca é perfeita.
— Não. Eu sou aquela pequena parcela que gosta de se divertir com os sapos.
Ele ri alto.
— Você ajuda as mulheres mudarem o visual, essas coisas?
— Quando necessário sim. Outras vezes apresento coisas que elas têm curiosidade, mas não tem coragem de aproximar-se.
— Como o que, por exemplo?
— Como sexy-shops, por exemplo. Explico para elas que sexo é vida, que dar prazer a si quando sozinha, facilita chegar ao orgasmo quando estão acompanhadas.
Levo meu prato até a pia e o lavo. Noah encosta em mim e coloca seu prato na pia. Sinto suas mãos passearem pelas laterais do meu corpo e eu tento bravamente, continuar a lavar os pratos. Ele fala em meu ouvido:
— Você é muito gostosa.
Minha respiração acelera, ele coloca meu cabelo de lado e passa seu nariz pelo meu pescoço, depois beija, morde e chupa, fazendo-me gemer. Ele pressiona-me contra a pia e sinto sua ereção. O prato escapa da minha mão e volto a realidade.
— Não – tento sair do seu aperto — Eu não quero que você me toque.
Ele sorri e levanta as mãos.
— Quer sim. Mas não vou insistir – que pena!
Terminamos de ajeitar as coisas na cozinha, voltamos para o escritório da cobertura e nos afundamos novamente nos dados. Não sei quanto tempo se passou, mas eu estava dolorida. Conseguimos desenvolver uma nova faceta para o julgamento e fiquei surpresa por ter gostado muito de participar disso.
Não é à toa que Noah é um juiz aclamado. O seu senso de justiça é muito afinado, sua percepção é aguçada. O seu ideal de um mundo melhor é muito vívido nos casos que ele é responsável. Ele teve paciência de me explicar cada porquê de suas vertentes. Seu caráter é imaculado. Fiquei encantada com seu perfil jurídico. Eu já o achava bonito, agora, o acho perfeito.
Mexo meu pescoço de um lado para o outro.
— Está cansada. Paramos por aqui hoje.
Levanto e começo a organizar as anotações.
— Posso te pedir uma coisa, Noah?
Ele olha-me sério.
— Pode.
— Posso te auxiliar novamente em um próximo caso?
— Interessou? – ele sorri.
— Muito – sorrio de volta.
— Sempre estou estudando casos. Ao invés de ficar na sua sala, venha para minha. Pode ser? – aceno que sim — Ótimo. Agora vamos. Vou te levar para casa, senhorita Harver.
Descemos para garagem e de longe avisto seu carro, que é lindo.
— Gostei do seu carro. Na verdade, amei, sou louca por velocidade.
— Brinquedo de criança grande – seu sorriso demonstra o quanto ele gosta daquilo.
Entramos no carro e saímos em direção a cidade. De repente a música Into my life do Coly Hay soa pelos altos falantes e delicio-me com boa música. A sensação de formigamento pelo meu corpo ainda é presente. Na cozinha, tive que me chutar para acordar para vida, ele é comprometido. Ele estaciona o carro em frente à minha morada.
— Como você sabia? – pergunto.
— Todos que trabalham para mim, são investigados – ele faz uma careta — Rotina.
— Obrigada pela carona, excelência – coloco a mão na maçaneta do carro e sinto um puxão. Quando percebo, minha boca já está na de Noah. Ele puxa meus cabelos da nuca, levando nosso beijo ao seu ritmo carnal. Meu corpo aquece na esperança de sentir suas mãos novamente. Ele separa sua boca da minha.
— Boa noite, Madison.

— Boa noite, Noah – saio do carro e passo a língua pelos meus lábios inchados. Não lavo a boca nunca mais!

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