Capítulo Dez
Quatro horas mais tarde, Alicia e
Bourregard desciam do jato da Abaré, em uma pista de pouso particular em
Curitiba. Embarcaram no helicóptero que os levaria ao Hospital Santa Isabel,
onde Marina e Javier estavam internados.
Durante todo o percurso, ambos se mantiveram silenciosos e concentrados
em seus próprios pensamentos.
Bourregard olhou para a mulher ao seu
lado, que absorta, contemplava a bela vista da cidade e pensou no quanto o
destino era caprichoso. Havia acabado de prometer mantê-la longe da violência
de seu trabalho e estava fazendo completamente o contrário...
Mas como ele poderia deixar Caetano sozinho num momento como aquele?
Como poderia abandonar Javier?
Ainda não conseguia acreditar que Alicia
o convencera a trazê-la.
Era a atitude mais irresponsável que tivera em sua vida. Mas assisti-la
furiosa, defendendo seu ponto de vista, enquanto discutiam, minou suas defesas.
Porra! A pequena atrevida tinha batida a porta do quarto na cara dele!
E contrariando todo bom senso, ficara orgulhoso dela. Em uma crise a
raiva era muito melhor que o medo.
Sentiu o peito encolher ao imaginar o que
Caetano estava passando. Ver a mulher que significava tudo para ele, quase ser
atingida por um tiro... Vê-la ser transportada, ainda desacordada, para o
hospital.
Porra! Como isso fora acontecer? Perguntou-se
pela milésima vez, desde que recebera o telefonema de Álvaro. Até aquele
momento tinha poucas informações.
Sabia que os irmãos Montessori estavam em
Curitiba, para inauguração da ala de câncer infantil, que havia sido
parcialmente financiada pela Abaré. Mas ainda não entendera o porquê da
presença dos homens da equipe 1 no evento.
Eles estavam de licença, não deveriam
estar escalados...
A não ser, que o filho da puta do coronel paraense, tivesse feito algum
movimento que indicasse ter identificado a localização de Marina. Mas isso não
fazia sentido. Porque o homem se daria a esse trabalho depois de tanto tempo? E
quando Marina não representava mais qualquer ameaça para ele? E porque Javier,
ao proteger Marina, se expusera ao tiro?
Eles eram exaustivamente treinados para atuar em situações como aquela!
Era o básico do básico. Cara...
Marina tinha batido fortemente a cabeça no momento da queda, que a
desviou do tiro. Javier corria o rico de
ficar paraplégico. Isso fazia rugir uma fúria imensa em seu interior.
Aquela equipe era sua família e alguém ousara machucá-los.
Eles pegariam o desgraçado que ousou atirar
em Nina e ferira Javier. E quando o fizessem, teriam a honra de deixar Caetano
dar uma lição no filho da puta! Ah se iam...
E se o tal coronel tivesse algo haver com aquele tiro, bom... O que era
dele estava guardado e bem guardado.
********
Três dias depois
Bourregard, Thor e Kashim realizaram o
procedimento de identificação, para ter acesso ao interior do discreto imóvel
do subúrbio da cidade do Porto Alegre, onde a equipe três mantinha o atirador
sobre custódia.
Demoraram três dias para localizarem o filho da puta, mas enfim haviam
conseguido.
Bo recordou a reação de Alicia ao saber
que deixaria o hospital, com os outros dois homens. Lera em seus olhos que
apesar dele nada revelar, havia entendido perfeitamente o que se passava. Ela o
beijara e dissera: “Dê uma lição no desgraçado que atirou na minha melhor
amiga”. Deixando não somente ele, mas todos os homens que estavam próximos,
boquiabertos.
Seu peito se aqueceu ao recordar o exato
momento em que se dera conta que ela usava a aliança no dedo anelar da mão
direita. Eles já estavam de saída e ela acenara para ele.
Cristo...
Naquele momento desejara tanto voltar e beijá-la até senti-la derreter-se
em seus braços, mas, não pudera e por isso estava ainda mais furioso.
A aproximação de Helena, a única mulher
do esquadrão de elite, o fez afastar-se de suas divagações. A pequena mulher de
curtos cabelos loiros, olhos castanhos e traços delicados, entrara para o
esquadrão há dez anos. Seu jeito de agir era uma das razões dos precoces
cabelos brancos de Conrado Montessori.
Hell, como a chamavam, tinha tudo para integrar a equipe 1, mas sua
impulsividade, que por várias vezes colocara a própria vida em risco, a
mantinha na terceira equipe.
- Relatório - Bourregard perguntou sem
rodeios.
- O pegamos há cinco horas. Estava em Jaguarão, tentando chegar a Rio Branco,
no Uruguai pela Ponte Internacional Mauá. Estamos tentando interrogá-lo
desde então, sem sucesso.
- Tem certeza que pegaram o cara certo? -
Thor perguntou fazendo os olhos da loira arderem.
- Te digo como fazer seu trabalho? - Ela
respondeu nem um pouco intimidada pelo tamanho dele.
- Como sabem que esse sujeito é o
atirador? - Kashim perguntou.
Helena ergueu uma sobrancelha em uma
expressão que não escondia sua ironia sarcástica.
- Ele fala! – Provocou.
Era a primeira vez em dez anos que Helena escutava a voz do sujeito.
- E também sei atirar. - Kashim não fugiu
da provocação.
Mulher insolente, ele pensou.
- Hei, foco aqui - Bourregard exigiu. - Responda
a pergunta Helena.
Ela bufou de um modo nada feminino antes
de acatar a ordem.
- O cara foi pego pelas imagens das
câmeras de segurança em Curitiba, próximo ao local identificado como de origem
do disparo, e adivinhem? Existem imagens das câmeras de rua e de trânsito que o
registraram deixando o local, menos de dois minutos após o tiro.
Revelou orgulhosa do trabalho da qual fazia parte.
- Porque não fomos notificados que
possuíam essas imagens? - Thor perguntou no mesmo mau humor que Bourregard,
pois não entendia o porquê de Henrique não ter lhes mandado as malditas
imagens.
- Não foram?
Ela realmente estava surpresa
- Ninguém avisou vocês? - Wow! Humberto, líder de sua equipe, dessa vez
passara dos limites. Ocultar informação dos lendários da Abaré era quase
suicídio e em uma questão pessoal como aquela, era burrice, para dizer o
mínimo.
- O que está acontecendo aqui Helena? - Bourregard
perguntou em uma voz perigosamente controlada – Onde esta o Humberto? Porque
ele não veio nos receber?
- Ele continua tentando interrogar o sujeito,
mas nada o faz falar. O desgraçado não emite som algum. Nem gemido, nem rugido,
nada.
A voz dela não
escondia a frustração.
Bourregard sentiu o sangue gelar nas veias.
- Nos mostre o caminho – Exigiu.
Eles seguiram a pequena loira. A porta do quarto foi aberta exatamente no
momento em Humberto acertava um soco na cara do homem, que estava amarrado em
sua cadeira.
Com o impacto, tanto o homem quanto a cadeira foram ao chão.
Bourregard empurrou Humberto fora de seu
caminho.
Reconheceu de imediato o desgraçado de nacionalidade russa que estava
desacordado!
Sentiu o mundo cair em cima de suas cabeças.
Pragas em diversos idiomas ressoaram através do quarto. Vindas dele
próprio, de Thor e de Kashim, enquanto ele chamava Conrado, na conexão de segura
de comunicação.
- Estamos em alerta máximo!
Disse no momento que o homem atendeu.
- Dimitri Stankowich nos encontrou – Anunciou.

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